Hoje proponho-me refletir sobre a Seleção de Portugal, cuja participação no Mundial 2026 terminou sem honra nem glória. Trata-se de uma análise pessoal de um percurso que, a meu ver, foi mal conduzido desde cedo e que teve o seu desfecho natural na derrota frente à Espanha.
A nomeação de Roberto Martínez para o cargo de selecionador nacional chegou a gerar-me alguma expectativa. Acreditei que, por ser um técnico estrangeiro, pudesse romper com vícios antigos, cortar influências instaladas e introduzir uma cultura de maior exigência na Seleção Portuguesa. Enganei-me redondamente. Pouco tempo depois, o treinador espanhol formou um grupo fechado, recorreu a critérios de convocação pouco transparentes e revelou uma incapacidade evidente para sustentar as suas opções quando confrontado com questões incómodas de alguns jornalistas. Para mim — e julgo que para muitos portugueses — Roberto Martínez rapidamente se transformou numa profunda desilusão.
O percurso de apuramento para o Mundial foi, objetivamente, dos mais acessíveis de que há memória recente. Ainda assim, em alguns momentos, pairou no ar uma inquietante sensação de incerteza. É verdade que Portugal terminou no primeiro lugar do grupo e evitou os habituais jogos de repescagem, mas tal desfecho era, no mínimo, obrigatório. A República da Irlanda, Hungria e Arménia nunca se apresentaram como adversários capazes de discutir seriamente o apuramento. Mais preocupante do que os resultados foi a ausência de uma ideia clara: nunca se percebeu o que pretendia, afinal, o selecionador fazer com a equipa nacional. Martínez teve sempre pouco de treinador e muito de gestor inseguro.
Antes da fase final, ainda houve espaço para jogos particulares de preparação, marcados por deslocações longínquas, inoportunas e de utilidade duvidosa, que pouco ou nada acrescentaram à preparação competitiva da equipa. Um dos exemplos mais flagrantes da incoerência do selecionador foi a gestão do caso Ricardo Horta, além de outros casos sobre os quais não me debruço. Para mim, é incompreensível que um jogador de rendimento elevado, regularidade notável e líder assumido no SC Braga tenha sido sistematicamente ignorado. O Capitão bracarense pareceu sempre uma carta fora do baralho de Martínez. A chamada tardia para dois particulares em solo americano — e com utilização diminuta — soou mais a tentativa de disfarçar uma ausência injustificável do que a um reconhecimento do seu valor. Quando, em determinada altura, o selecionador afirmou publicamente que lhe “custava” deixar Ricardo Horta de fora, tais palavras pareceram-me vazias e até hipócritas. Neste como noutros casos o silêncio teria sido mais recomendado.
A convocatória final para o Campeonato do Mundo esteve longe de ser consensual. Os critérios nunca foram devidamente esclarecidos e, sempre que o selecionador tentou explicá-los, o discurso revelou-se inócuo. A meritocracia nunca foi um fator relevante para o “antigo” selecionador. Naturalmente que nenhuma convocatória é unânime, mas algumas opções roçaram o absurdo e certos afastamentos foram justificados com argumentos difíceis de levar a sério.
Já em território americano, Portugal ultrapassou a fase de grupos apenas com um segundo lugar pouco convincente. Longe de confirmar qualquer estatuto de candidato, a equipa acumulou exibições cinzentas que apenas reforçaram a perceção de um trabalho ineficaz. Tornou-se evidente que Roberto Martínez não soube gerir o grupo que ele próprio escolheu. Nunca foi um líder agregador e falhou, de forma clara, na gestão física do plantel.
Nem mesmo Cristiano Ronaldo, o maior símbolo do futebol português, teve uma gestão adequada. É irrealista ignorar que o corpo não responde da mesma forma aos vinte e aos quarenta anos, por muito profissionalismo que exista. Esta má gestão prejudicou o rendimento de CR7 e, em simultâneo, impediu que Gonçalo Ramos tivesse mais tempo de jogo, como o contexto parecia exigir. Na minha opinião, o coletivo deveria ter sido sempre a prioridade — algo que nunca aconteceu. Do ponto de vista tático e estratégico, a equipa esteve sistematicamente aquém do que o talento disponível fazia prever.
A fase final confirmou o que já se suspeitava: Roberto Martínez nunca conseguiu verdadeiramente ter o grupo do seu lado, revelando fragilidades evidentes enquanto treinador e, sobretudo, enquanto líder.
Portugal dispunha de qualidade individual suficiente para aspirar a mais, mesmo sem partir como favorito. Ainda assim, a prestação global foi negativa. Martínez teve responsabilidade direta desvalorização global da equipa, sendo Diogo Costa a única exceção clara, destacando-se de forma inequívoca — um facto que, só por si, diz muito sobre o fraco rendimento global da Seleção. Nos jogos decisivos, frente a adversários mais fortes, ficou ainda mais evidente que os jogadores rendiam muito menos com a camisola nacional do que nos seus clubes.
A eliminação surgiu frente à Seleção de Espanha, com um golo sofrido nos descontos, após substituições que, mais uma vez, suscitaram incompreensão generalizada. A Espanha, bem orientada por Luis de la Fuente, revelou-se sempre mais equipa, mais organizada e mais coerente. A sua passagem foi natural e justa, ainda que dolorosa para nós.
No final da última dança em solos americanos, Cristiano Ronaldo anunciou que este foi o seu último Mundial. É um desfecho amargo para um ídolo que foi e continua a ser o maior embaixador de Portugal no mundo. O nome do país confundiu-se, tantas vezes, com o seu. CR7 merecia ter sido Campeão do Mundo pelo percurso de atleta de eleição realizado, mas esse sonho ficou por cumprir. O antigo selecionador abandonou o cargo e, na minha opinião, não deixará saudades. O sentimento dominante é de alívio ao ficarmos livres de Roberto Martínez. Resta virar a página e esperar que o novo selecionador, Jorge Jesus, saiba aproveitar o enorme talento desta geração, com critérios claros, maior competência e uma liderança verdadeiramente agregadora. Apesar de não ser a minha escolha, desejo as maiores felicidades ao técnico que concretiza um sonho, com a promessa de colocar a Seleção a jogar o dobro.