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    António Costa
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    O sítio dos Gverreiros
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    Vamos falar de preços

    2026/06/21
    E0
    "O sítio dos Gverreiros” é uma coluna de opinião de assuntos relativos ao SC Braga, na perspetiva de um olhar de adepto braguista, com o sentido crítico necessário, em busca de uma verdade externa ao sistema.

    Este artigo não estava inicialmente previsto, uma vez que a periodicidade dos textos de opinião, em tempo de defeso futebolístico, pode ser quinzenal quando não exista matéria que justifique uma publicação semanal. Contudo, o artigo elogioso a António Salvador, publicado na semana anterior, foi mal interpretado por algumas pessoas mal-intencionadas, havendo mesmo quem, de forma abusiva, o tenha considerado uma ação concertada com o tema do famigerado aumento de preços em Braga. Ora, essa especulação — legítima no quadro da liberdade de expressão no espaço digital — obriga-me a trazer a este espaço a minha opinião sobre o recente aumento de preços anunciado em Braga e entretanto retirado, com o qual discordava em absoluto, por pura convicção, sobretudo porque iria ser implementado num contexto de dificuldades que afetam, de forma indesejada, as famílias portuguesas.

    Aos leitores mais assíduos peço desculpa pela eventual analogia com um artigo de opinião publicado noutro local, ainda que os textos sejam substancialmente diferentes, apesar de incidirem sobre o mesmo tema. Feito este esclarecimento, falemos então do aumento dos preços dos lugares anuais, anunciado e posteriormente revertido perante a insatisfação generalizada da Legião do Minho. Não é fácil conseguir colocar tanta gente, em simultâneo, contra uma medida como aconteceu agora em Braga.

    A subida de preços anunciada pelo SC Braga para a aquisição de lugares anuais surgia no momento errado e assentava em pressupostos que devem ser definitivamente afastados deste clube, sendo, também por isso, uma proposta indecente. A época desportiva que se avizinha não é particularmente apelativa, desde logo porque se verificou uma “descida” de patamar no plano europeu: a Conference League é, na prática, uma competição de menor relevo no panorama internacional.

    A futura implementação da centralização dos direitos televisivos, atualmente em fase de preparação, poderá beneficiar do recuo na decisão do SC Braga, na medida em que poderá conduzir a um aumento do número de lugares anuais vendidos e a uma presença efetiva de adeptos no estádio — e não a uma gestão limitada a dados artificiais introduzidos numa folha de Excel para efeitos imediatos, como parecia ser o caso. Qualquer pessoa com um mínimo de literacia matemática e financeira compreende que os eventuais ganhos decorrentes dos aumentos anunciados tenderiam a desaparecer com a quase certa redução do número de lugares anuais vendidos. Estamos, na prática, a falar de valores que não
    teriam impacto relevante nas contas do clube nem da SAD bracarense. É preferível, sem margem para dúvidas, alcançar o mesmo montante com vinte mil pessoas em vez de dez mil, com todos os efeitos positivos que essa realidade acarreta para o SC Braga.

    A anómala proposta de aumento de preços apenas fazia sentido para quem acredita que a vida se resume a uma tabela de Excel ou a dinheiro virtual creditado num cartão de sócio, sob a forma de futura compensação (cashback), à semelhança das práticas generalizadas dos hipermercados ou das gasolineiras. A vida real, porém, funciona de forma distinta e vai muito além dos dados apresentados a priori para convencer quem decide. Uma boa apresentação de algo mau pode iludir quem tem poder de decisão, mas nunca transforma uma má ideia numa boa ideia.

    O momento em que se deliberou coletivamente pelo aumento dos preços dos lugares anuais — entretanto revertido — não contou, infelizmente, com ninguém suficientemente lúcido para perceber que os seus efeitos seriam contraproducentes, lesando os superiores interesses do SC Braga e, sobretudo, dos seus associados, que não devem ser tratados como clientes, mas como apoiantes de um coletivo do qual se sentem parte integrante. Os associados são e continuarão a ser o maior património do SC Braga. O caminho de aproximação aos sócios, que conheceu momentos difíceis no passado e que foram sendo superados, ficaria seriamente comprometido por aquela decisão insensata. É fundamental que todos compreendamos a importância de adeptos e equipa se fundirem num só corpo rumo ao futuro.

    Para além de tudo o que já foi referido, promover a ideia de que a venda de lugares anuais mais caros seria uma medida positiva é inaceitável, por mais argumentos que se invocassem. Tal aumento não poderia, em caso algum, sustentar-se na premissa de garantir acesso a recintos de lotação limitada, como o Estádio Amélia Morais ou o Pavilhão AMCO, onde competem as modalidades de pavilhão.

    Sabemos que o apoio dos sócios é fundamental para as diferentes equipas bracarenses. Contudo, maioria dos adeptos não acompanha in loco as restantes modalidades fora do âmbito da equipa principal de futebol, realidade que se acentua quando os sócios não residem em Braga e que
    representam uma franja considerável. A situação poderia mesmo tornar-se absurda se um adepto adquirisse entradas para esses recintos e, posteriormente, não conseguisse aceder aos mesmos por excesso de procura. Seria, simplesmente, absurdo.

    Para além do recuo na decisão sobre os preços que merece o meu apreço, saúdo veementemente o regresso dos packs família. Não falo de dinheiro virtual hipotético, cujas condições de utilização se desconhecem, mas de um mecanismo efetivo de aumento das receitas de matchday, no presente e no futuro, pois promove a fidelização geracional desejada e incentiva a receita indireta. É mais provável um adepto ir ver um jogo, fazer uma refeição no estádio ou adquirir produtos na loja quando está em família ou quando está sozinho? A resposta é evidente. Quem não compreender um raciocínio tão simples pode, legitimamente, procurar apoio para essa aprendizagem. Aumentar de forma significativa a presença das famílias no estádio bracarense deve ser uma prioridade estratégica capaz de sustentar o futuro.

    O comunicado institucional do presidente António Salvador, a reforçar a posição inicial, gerou uma onda de indignação e um consenso raramente alcançáveis. O recuo, ainda que tardio, representa o reconhecimento de que o povo é, de facto, quem mais ordena quando se une. Deve, por isso, ser valorizado o reconhecimento do erro que conduziu à reversão da decisão inicial, a qual poderia lesar gravemente o clube no futuro, o que merece o meu apreço. A manutenção dos preços inalterados é uma vitória do SC Braga, que beneficia os seus adeptos associados.

    Agora que a decisão foi revertida, ficam anunciados para breve episódios em sede de Assembleia Geral, destinados a explicar a prometida requalificação do estádio e onde poderão ser contextualizados eventuais aumentos dos preços dos lugares anuais. Tal merecerá novamente a
    atenção de todos os associados, esperando-se que esse plenário seja preparado tendo já presente o que ocorreu nos últimos dias. Faço votos sinceros para que o bom senso prevaleça e para que a resposta da Legião do Minho volte a ser firme, se necessário, porque só juntos conseguiremos construir um futuro consistente e risonho.

    Uma nota final para referir que escrevo os meus artigos de opinião com total independência, de acordo com as minhas convicções, onde a emoção muitas vezes se cruza com a razão. Procuro, contudo, que o lado racional esteja sempre na base da minha escrita, ainda que o coração seja, muitas vezes, a minha caneta. Nunca escrevo de forma condicionada, pois, tal como Moshe Dayan, acredito que “a liberdade é o oxigénio da alma”, e escrever sem amarras é a verdadeira essência da liberdade intelectual.

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