Após o apito final, durante o habitual cumprimento aos jogadores, um senhor agita a sua camisola em frente aos atletas que por ele passam. Diz-lhes que veio de propósito de Leiria para o jogo e que quer trocar a sua camisola (um simples polo às riscas) por uma deles. O Capitão Alex Figueiredo concede-lhe o pedido e o senhor, qual criança na manhã de Natal, veste felicíssimo a sua nova t-shirt.
À saída do estádio, cachecóis azuis esvoaçam das janelas dos carros ao som de uma sinfonia de buzinas. Alguns vão com os assentos todos preenchidos. Famílias, grupos de amigos ou desconhecidos que se organizaram em boleias para a romaria ao Parque de Jogos 1.º de Maio. A atravessar a passadeira, um trio de jovens pergunta-me se ganhámos. Respondo afirmativamente, ao que eles me informam que são apoiantes da Académica, desejando-me boa sorte. Retribuo e retomo o meu caminho.
Na paragem do autocarro, dois adeptos conversam sobre o jogo. Enquanto não chega o transporte, há tempo para comentar os lances, a arbitragem, a época e a renovação dos jogadores. Um deles, uma senhora, já tinha guardado o cachecol para que não se metessem com ela na rua, mas, vendo-se rodeada por dois consócios, retira-o da mala para ficar bem à vista de novo. Pena as gotas de cerveja que lhe caíram no adereço durante os festejos e que agora o mancham, comenta.
Dentro do autocarro já vêm sentados outros adeptos e juntam-se também eles à alegre conversa. Um diz com orgulho que já é sócio há quase quarenta anos. A senhora diz que ainda é do tempo das Salésias. É com ela que vou a conversar até ao final do percurso, à medida que os restantes vão saindo nas suas respetivas paragens. Conta-me que desta vez veio sozinha porque os mais novos da família tinham ido jogar fora de Lisboa, ao serviço das escolinhas do Belenenses.
À chegada ao meu destino, um senhor inglês aborda-me e diz-me que também esteve no jogo, como aliás tem estado ao longo da época. Tem acompanhado o Belenenses recentemente dado o contexto atual e confessa-se admirado pelo nosso passado. Despede-se com a promessa de que, para a temporada que vem, lá estará no Restelo a apoiar.
O melhor desta época foi isto: o reavivar da verdadeira identidade do Belenenses. Um clube de um associativismo ímpar, onde cabem gentes de todas as idades e de todo o país. Um clube que reúne o respeito dos adversários e a simpatia de quem não fica indiferente à nossa história. É um clube de famílias e amigos, mas também de desconhecidos que confraternizam como se se conhecessem há anos, como me aconteceu no sábado.
Quanto ao jogo em si, não há muito a acrescentar ao que já foi dito um pouco por toda a imprensa e pela Internet. Resta-me saudar os atletas do Bocal que, cheios de garra e determinação, se revelaram um digno adversário e um honrado vencido. E resta-me agradecer ao todos os jogadores do Belenenses por uma época absolutamente inesquecível, desde aquele primeiro treino em agosto até ao último jogo. Foi apenas o primeiro degrau nesta longa caminhada rumo ao nosso lugar. Venham os próximos.