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Imaginemos o seguinte cenário: uma equipa da Primeira Liga termina a temporada em 9.º lugar, cria numa só época os seus escalões de formação e ainda um plantel de sub-23, e mantém como grande objetivo, há já uns bons anos, a construção de um centro de estágios. Pela descrição, parece ter um plano definido para o futuro e intenções de assegurar os próximos plantéis com prata da casa. Mas neste cenário, a mesma equipa vai também contratar jogadores a um clube da última divisão distrital, clube esse que, aliás, menorizam constantemente.
Neste cenário, a equipa da distrital fica muito bem na fotografia, certo? Deve ter um poderio e uma qualidade de formação tais que até um emblema do primeiro escalão, e logo um tão decidido, aparentemente, em criar jogadores da casa, se vê tentado a lhes ir roubar três craques. Craques esses que, por mais impressionante que fosse o seu rendimento, nunca pareciam convencer os adeptos para os quais vão agora jogar, que gozavam, semana após semana, com as goleadas por eles alcançadas. Por mais alegria que tivessem em campo e causassem nas bancadas, tal não passava de mero folclore para o dirigente que agora os contratou. Por mais golos que marcassem, por mais assistências que fizessem, por mais expressivos que fossem os resultados conseguidos, estavam apenas a arrastar o nome do clube pela lama, atrevendo-se até, pasme-se, a celebrar um título da distrital.
Não é preciso imaginar este cenário, pois acabou de acontecer. Tomás Castro, Jojó e Nilton Varela seguiram do Belenenses para a SAD, uma movimentação que apanhou desprevenidos todos os sócios. Da minha parte, posso dizer que recebi a notícia com enorme espanto, do espanto passei à raiva, da raiva à tristeza e, agora que já tive tempo de pensar com calma a situação, cheguei ao estado de total indiferença. Vou por partes.
Fiquei genuinamente boquiaberto com a notícia. Não conheço Nilton Varela porque não acompanhei de perto a temporada dos juniores, mas ver os nomes de Tomás Castro e de Jojó, duas peças fundamentais na bela época do Belenenses, associados à SAD foi um verdadeiro murro no estômago. Já desconfiava que o primeiro não ficaria muito mais tempo connosco, mas longe estava de pensar que sairia para onde acabou por sair. O mesmo para Jojó, o melhor em campo, na minha opinião, na final do fim-de-semana passado, e um dos jogadores mais acarinhados pelos adeptos.
Perante uma situação destas, deixei-me, por breves instantes, consumir pelo meu lado mais irracional e expressões como «traidores» ou «desleais» passaram-me pela cabeça. De todos os clubes para onde os nossos jogadores podiam ir, foram logo para a SAD. Como é que isto é possível? Como é que eles nos viram assim as costas? Como é que trocam o Belenenses por uma entidade privada que continuamente nos desrespeita?
É a racionalizar que a raiva dá lugar à tristeza. O Belenenses não tem capacidade financeira para concorrer com propostas de clubes da Primeira Liga. E os jogadores, naturalmente, querem progredir e receber mais dinheiro para se sustentarem a si e às suas famílias. Não há absolutamente nada de censurável nisso e o que eu desejo a todos aqueles que participaram nesta época inesquecível é que tenham uma carreira à sua altura. Fico tristíssimo que, para alguns, essa carreira passe pela SAD.
Contudo, agora que já digeri tudo estou indiferente ao que se passou. Fico com pena que não continuem no Belenenses, mas, afinal de contas, são eles que perdem. Perdem a oportunidade de deixar o nome na história do futebol português, perdem a oportunidade de jogar perante uma boa moldura humana todas as semanas e perdem a oportunidade de representar uma das maiores instituições do desporto nacional. Espero que encontrem outro tipo de oportunidades no Jamor, agradeço-lhes pelo que fizeram ao longo do ano e desejo-lhes boa sorte para o seu futuro profissional.
E faço este desejo do fundo do coração pois, e apesar deste episódio, mantenho carinho por eles e fico preocupado pelo seu futuro. Estas contratações acontecem dias depois de o clube anunciar a concretização do negócio com o LIDL e a venda dos 10% que ainda tem na SAD, fazendo cair por terra toda a narrativa que Rui Pedro Soares vinha vendendo nos últimos tempos. É pura retaliação, na mais infantil forma possível. O objetivo é picar os Belenenses e fazer umas piadinhas na Internet, nada mais, nada menos. Pergunto se haverá de facto algum plano para eles dentro da equipa ou se estão só a ser usados como contra-argumento numa discussão que já nem existe.
Espero que haja, porque tratam-se de pessoas a exercer a sua profissão e não merecem ser instrumentalizados desta forma. No mínimo, aguardo que, do lado da SAD, lhes seja feito um pedido de desculpas. Foi uma época inteira a maldizer a temporada do Belenenses. Nessa maledicência, os alvos são clube e adeptos, mas os jogadores e o seu trabalho são também postos em causa. Daqueles lados não espero respeito por mim, pelos meus consócios ou pela nossa direção democraticamente eleita. Mas já que admitem, através destas contratações, que afinal a nossa equipa tem qualidade para integrar um projeto de Primeira Liga, que tenham ao menos a decência de respeitar os atletas daqui para a frente.
No Restelo, o caminho continuará a trilhar-se com ou sem Tomás Castro, Jojó ou Nilton Varela. Só faz falta quem cá está. Há que colmatar as suas saídas e preparar a próxima época com os jogadores que já renovaram contrato e aos quais agradeço desde já por continuarem connosco. Não se vão arrepender. Deixo ainda a promessa, para pontuar a minha indiferença e porque já dediquei demasiadas linhas a assuntos da SAD, que doravante, aconteça o que acontecer, neste espaço discutir-se-á apenas e só Clube de Futebol «os Belenenses».