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Coisa chata de se ser jovem adepto de um clube centenário é não ter estado presente em grande parte da vida do Belenenses. Roo-me de inveja de todo os que festejaram as taças que vejo somente através de vitrines no nosso museu ou dos que assistiram aos golos de Pepe e Matateu, que chegaram aos nossos dias num registo fotográfico e audiovisual insuficiente. E, desde que vi as Salésias pela primeira vez, estavam ainda ao abandono, sempre imaginei como seria ver o Belenenses no seu auge a jogar naquele terreno.
Ora, no passado domingo tive um pequeno gostinho que me matou as saudades desses tempos que não vivi. O regresso às Salésias, ainda que para apenas um jogo, é um momento de enorme carga simbólica que se vem juntar a outros tantos episódios de uma época que tem permitido aos belenenses reencontrarem-se uns com os outros em saudável e viva militância.
A nível pessoal, a caminhada entre o Restelo e as Salésias foi de igual importância para mim. Como já contei noutra crónica, uma das minhas primeiras memórias azuis foi a caminhada de 2006 que assinalava o cinquentenário do atual estádio. Refazer o trajeto no meio de um imenso mar de gente e entrar em campo no final para umas rápidas fotografias com os jogadores foi um regresso à infância, a uma certa ingenuidade que tinha há 13 anos, alheio dos problemas do clube. Uma inocência que fazia o futebol mais bonito, se me é permitido o desabafo.
Mas o regresso às Salésias não se pode fazer numa só tarde, por breves horas, e nas próximas jornadas voltar ao Restelo como se nada se tivesse passado. Há um debate urgente que os sócios têm de fazer sobre qual o futuro que queremos para o campo.
As Salésias representam um património e uma história demasiado rica para continuarem com a dimensão atual, a meu ver. Foi um estádio à frente do seu tempo (primeiras bancadas cobertas, primeiros campos de treino e primeiro relvado do país), condizente com um clube no seu auge; foi-nos roubado pelos poderes políticos da altura, reflexo do tratamento que as “forças maiores” sempre tiveram connosco; ali se manteve, abandonado e comido pela terra e pelas ervas, como um Belenenses que aos poucos ia perdendo a identidade; e foi recuperado e reconstruído em dimensões humildes num momento em que o próprio clube se preparava para um renascimento a partir das divisões mais modestas do futebol português.
Os 100 anos do Belenenses estão condensados metaforicamente nas Salésias. A própria zona onde o campo se encontra respira um belenensismo ortodoxo, se assim lhe quisermos chamar. Notei isso particularmente durante a caminhada: enquanto que na primeira metade do trajeto, pela zona mais movimentada dos Jerónimos e dos Pastéis, vimo-nos “cercados” por câmaras e telemóveis de turistas, de fugaz passagem pela zona; na segunda parte do percurso, entrando Rua do Embaixador adentro, os olhos que nos observavam eram dos locais, muitos deles, os mais velhos, que noutros tempos também terão feito uma romaria semelhante de suas casas até às Salésias.
O programa do centenário prevê a organização de um congresso entre sócios, e o tema das Salésias será inevitavelmente debatido. É um debate pelo qual anseio porque, muito honestamente, é um assunto sobre o qual não consigo fundamentar uma opinião concreta pela sua complexidade. Acho que todos concordam que ainda há muito por construir nas Salésias (muito do terreno expropriado continua por reedificar). Mas até onde poderiam ir futuras obras? Qual seria a função das Salésias se aumentadas? Manter-se-ia destinada sobretudo às camadas jovens ou serviria também o futebol sénior de algum modo? Qual o papel que os sócios poderão ter na preservação da memória das Salésias e na sua reabilitação? A coisa boa de se ser jovem adepto de um clube centenário é ainda vir a tempo de participar num debate tão importante para o futuro do Belenenses, futuro esse que também terei o privilégio de acompanhar de perto.