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Estimado Vasco,
Conhecemo-nos em julho de 2024. Entrevistei-te no relvado do Olival, talvez ainda te lembres. O Rodrigo Mora e o Gonçalo Sousa estiveram também por lá, todos falaram do privilégio de ser o «ouro da casa» do FC Porto.
Tenho pensado em ti nos últimos dias. Fiquei chocado ao saber do teu martírio, das 21 idas ao bloco operatório, dos 39 dias passados no hospital, cheio de medo e de dúvidas.
Vasco, pensei em ti também ao conhecer há dias a história de uma senhora chamada Martha Mae Ophelia Moon Tucker. Vais perceber porquê. Tem a ver com a vitória da paciência e da justiça, com o triunfo da perseverança.
Imagina, caro Vasco, que esta senhora se casou nos anos 50 do século passado, no estado ultra-conservador do Alabama, e que só por ser afro-americana não teve a autorização de usar um vestido branco, um vestido de noiva.
E isso era tudo o que ela queria. Desde pequenina.
As insuportáveis Leis Jim Crow impunham a segregação racial no sul dos EUA, davam rédea solta ao racismo e aos lençóis brancos dos cobardes do Ku Klux Klan. Atemorizavam as gentes comuns e obrigaram a doce Martha Mae a unir-se em silêncio, e em segredo, ao seu companheiro de vida.
«Vesti de branco de luz,
a vida num enxoval,
tudo me foi proibido,
com que facas se veste o Mal?»
A vida passou-lhe a correr, mas a velhice não lhe roubou os sonhos. Em 2021, tinha a senhora Tucker 94 anos, uma das netas apanhou-a a sussurrar assim para a televisão: «Um vestido de noiva, que coisa tão bonita!»
Sem a senhora desconfiar, a família preparou-lhe a festa que ela sempre mereceu. Em silêncio. E em segredo.
Organizou-lhe um segundo casamento, e um banquete a sério, ao lado do amor de uma vida. Vestiu-a de branco. Um branco imaculado, da cabeça aos pés. Com 70 anos de atraso!
«Mãe negra, mãe negra,
oxalá o meu vestido ainda se lembre de mim,
mãe negra, mãe negra,
oxalá o meu vestido ainda se lembre de mim»
De ramo de flores na mão e o sorriso mais genuíno que alguma vez vi, a dona Martha Mae jurou o amor eterno ao marido, com o vestido que nunca a esqueceu. Sete décadas de atraso, sim, mas a tempo de ter a vida a fazer-lhe a vontade. E a apaziguar-lhe a mágoa.
A história chegou-me através de uma música do grande Pedro Abrunhosa. Chama-se ‘Oxalá o Meu Vestido Ainda Se Lembre de Mim’, é uma obra prima e pôs-me a pesquisar tudo sobre a protagonista. Comovente, Vasco. E lindo.
Falo-te desta senhora, Vasco, porque ela nunca desistiu do maior sonho. E soube por ele esperar mais de 70 anos.
Tu não precisarás de tanto.
Vais recuperar bem dessa horrível segunda lesão no perónio, vais mostrar na relva tudo o que vales e confirmar as promessas que já soubeste deixar aos teus portistas.
O Jorge Costa disse um dia que eras um jogador ‘à Porto’. Sei que é nele, e no teu avô, que mais pensas quando entras em campo. O teu avô, o teu primeiro ídolo, craque do Cristelo, ali para os lados de Penafiel.
Não desistas, Vasco, como a Martha Mae Tucker nunca desistiu. Lembra-te do sacrifício que os teus pais fizeram para articularem as vidas deles com a tua, das viagens intermináveis até ao Olival e da jura que fizeste à tua mãe: «Um dia vou jogar aqui», sussurraste, ao passar em frente ao Dragão, como a menina Tucker certa noite também sussurrou.
Imagino, tento imaginar, o que passaste no teu quarto do hospital. A dor, claro, mas os mimos da tua namorada, o carinho dos teus pais, o Natal longe da mesa farta, as lágrimas que só as mães sabem abraçar. Um pesadelo, tens razão.
Estimado Vasco, essa camisola azul e branca, de dragão ao peito, será muito em breve o teu ‘vestido branco’, o vestido que um dia quiseram proibir a uma senhora americana. A ti, prometo, ninguém to pode proibir. Ele está à tua espera.
Um abraço grande, Vasco. Vemo-nos em breve num qualquer relvado deste país.
* Diretor-Adjunto de Informação