04/07 - 22:00
05/07 - 21:00
06/07 - 01:00
04/07 - 22:00
05/07 - 21:00
06/07 - 01:00
A ignorância musical ajuda a explicar o fenómeno. Num par de dias, amigos e desconhecidos das redes sociais mostraram-se chocados com a parafernália audiovisual politizada dos Massive Attack no Primavera Sound.
Estas almas, certamente bem-intencionadas, foram ao engano. Se conhecessem o histórico e o pensamento dos rapazes de Bristol, saberiam que lhes é completamente impossível ficarem indiferentes à estupidez agónica que grassa por este mundo afora.
Os Massive utilizam a sonoridade, as letras e a multimédia para disseminarem mensagens contundentes, convictas e profundamente humanistas.
Protestar contra os Massive Attack por serem demasiado políticos é como invectivar Lionel Andrés Messi por usar o pé esquerdo para rematar.
É ignorante e revela um desconhecimento absurdo pela obra do(s) mestre(s).
Aceito pacificamente a diferença de opiniões, o desinteresse por esta ou outras bandas que acarinho, mas é-me desconfortável escutar argumentos assentes em preconceito e analfabetismo cultural.
Esse preconceito abunda também no futebol. Não é raro estar rodeado de gente que, por adorar Cristiano Ronaldo, é incapaz de incensar Messi. E o oposto também sucede.
Confesso: não percebo. Como é possível amar este jogo e ser insensível ao génio de Messi?
Vou por aí, vou pelo clamor, pelo clímax, pelo espanto e a reverência ao pé esquerdo do herdeiro de Diego Armando Maradona.
Ao saborear o Argentina-Argélia e o hat-trick de Leo, uma ideia assaltou-me: ‘No dia em que Messi se aposentar, vou fazer o meu luto futebolístico'.
Perder Messi na relva é ver a Catedral de Notre-Dame em chamas, é imaginar o teto da Capela Sistina em ruínas, é contemplar a Sagrada Família a implodir.
É antecipar o fim criativo dos Massive Attack ou a reforma definitiva de Robert De Niro.
Messi é «um milagre da precisão», o único capaz de fazer «a velocidade parecer mansa», como um dia escreveu a inspiração de Jorge Valdano.
Se 21 jogadores correm e lutam, Messi pensa e define. Mais depressa do que os outros, embora o faça a uma velocidade inferior.
Uma improbabilidade real, porque o seu pé esquerdo é «um pincel e a bola a tinta», na brilhante definição de Jorge Barraza.
Lionel Andrés Messi redigiu uma Constituição indestrutível. Criou os seus Mandamentos, regras próprias e peculiares, movimenta-se num mundo só por ele decifrável, como se as outras pernas e chuteiras fossem meros adornos.
Pouco ou nada o perturba.
Por isso é feliz sem precisar de sorrir, é o mais forte sem ter músculos exibicionistas, é o mais inteligente sem precisar de cábulas ou de planos táticos analisados ao limite.
Talvez Pep Guardiola tenha mesmo razão. «Não escrevam sobre ele, não tentem descrevê-lo. Limitem-se a vê-lo.»
Sempre que me atrevo a fazê-lo, sinto-me incompleto. Sinto-me incapaz de passar a real dimensão do génio, a absoluta perfeição daquele pé esquerdo, o prazer tântrico pela espera da definição.
O último passe, o remate rasteiro e colocado, agora escolha.
Se os Massive Attack são o brilhantismo musical e panfletário, Lionel Andrés Messi é o filho do deus maior, versão atualizada 2.0 do Pelusa Maradona.
Acolham-no. Apreciem os seus dias do fim. Sem ignorância, sem preconceito.
Até este pé esquerdo tem prazo de validade.
* Diretor-Adjunto de Informação