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    Carlos Daniel
    O Melhor dos Jogos
    Carlos Daniel

    O melhor Mourinho

    2026/01/30
    E0
    Este espaço, do jornalista Carlos Daniel, pretende ser de abordagem e reflexão sobre o futebol no que o jogo tem de melhor. Quinzenalmente, uma equipa será objeto de análise, com notas concretas que acrescentam atualidade.

    Começo com spoiler e antecipo a resposta final: o melhor Mourinho é o que gosta de atacar. É aquele que não se fecha na estratégia e consegue libertar talento verdadeiro para o momento ofensivo.

    Disse o treinador encarnado no lançamento do que veio a ser o inesquecível jogo com o Real Madrid: «Se me perguntar se gostaria de jogar como vamos jogar, diria não. Temos de jogar de acordo com as qualidades que temos e não com as qualidades que não temos.» 

    Interrogo-me que outro jogar seria esse, e até tenho uma suspeita, mas do que não haverá dúvidas, nem Mourinho as terá, é de que era quase impossível ter corrido melhor do que correu. Foi precisamente agarrado ao melhor que tinha, aos jogadores de qualidade técnica indiscutível e superior tomada de decisão, que Mourinho ajudou a escrever uma página para a história do Benfica. 

    Com exceção de Barreiro - que compensa em entrega e sentido tático o que lhe falta em eficácia na execução - todos os jogadores do Benfica tinham qualidade com bola. Muito por isso, este foi um Benfica de ligação mais do que de aceleração, com predomínio de jogadores de qualidade e não de fisicalidade, como consequência uma equipa não foi só de combate mas decisivamente também de ataque.

    No fundo, afirmou-se de modo impressionante, e diante do Real Madrid, o  melhor Benfica versão Mou, que se tinha vislumbrado em Vila do Conde e deixado promessas em Turim. Ora, se os melhores jogos do Benfica foram todos, em Vila do Conde, Turim e diante do Real, com Prestianni e Schjelderup de início e Sudakov - o maior talento da equipa - no espaço que se deve reservar aos maiores talentos das equipas, talvez não haja coincidências.

    A lesão de Rios ajudou à metamorfose, desde logo porque permite ver Aursnes onde pode organizar a equipa, sobretudo nos momentos sem bola, quando prolonga o treinador em campo, ajuda, por exemplo, Prestianni ou Sudakov a perceberem timings e espaços de pressão, e garante ele próprio consecutivas recuperações de bola com saída limpa. 

    Se a lesão de Rios devolveu Aursnes ao seu espaço natural - porque é mais maestro do que solista e não há maestro que dirija a partir do canto da sala -, a ausência prolongada de Lukebakio e impossibilidade de utilização de Sidny permitiram a afirmação de Prestianni e a aparente salvação, em última hora, da carreira de Schjelderup no Benfica. É mesmo a maior perplexidade que tenho perante as opções de Mourinho: como pôde ignorar o miúdo norueguês quando tanto precisava de extremos e chegar a preteri-lo em favor de Rodrigo Rego, por exemplo?

    Mourinho terá um problema quando houver Lukebakio e Rafa em condições (além de Sidny e Bruma), mas já não pode retirar da equação o trio de criativos do momento, que liga jogo, prolonga posses e sobretudo se compreende no campo. Ter jogadores com «motor nas pernas» dará sempre jeito pontualmente, mas apostar neles como prioridade irá sempre viciar a equipa em acelerações sucessivas, em pressa para concluir os lances e, por via disso, em perdas de bola mais rápidas e numerosas do que se recomenda.

    José Mourinho sabe disto, porque no futebol não há quase nada que não saiba, mas o que se tornou evidente é que a sua melhor versão ainda surge quando disciplina o talento mas não prescinde dele. No fundo, quando convence os mais dotados tecnicamente a não falharem o compromisso sem bola. Porque, com ela, serão sempre esses que lhe vão dar mais, que lhe podem dar muito.

    Às vezes até o céu, como aquele em que Trubin apareceu a voar. 

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