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    Pedro Jorge da Cunha
    Campo Pelado
    Pedro Jorge da Cunha

    Martín Anselmi: sim ou não?

    2025/03/11
    «Campo Pelado» é o espaço de opinião do jornalista Pedro Jorge da Cunha. Uma homenagem ao futebol mais puro, mais natural, onde o prazer da camaradagem é a única voz de comando. «Campo Pelado».

    REVOLUÇÃO

    O verão de 1989 é mais do que quente nas Antas. Dois anos depois do conto de fadas em Viena, a ordem é clara: apagar tudo e começar de novo.

    Artur Jorge, nome respeitado e ouvido, desempenha o papel de executor. A lista de dispensas não olha a estatutos, é inclemente com nomes sagrados.

    Lima Pereira, Quim, Eduardo Luís, Jaime Pacheco, Sousa e Frasco, seis campeões da Europa, entram na lista de saídas assinada por Rei Artur. A eles junta-se a mais do que polémica mudança de Fernando Gomes, sagrado Bibota, para Alvalade.

    Revolução, limpeza de balneário, chicotada coletiva, o que quiserem. Em linguagem futebolística, mais simples, chamar-lhe-ia uma agitação necessária a um balneário em apatia, acomodado em cima de tesouros e conquistas riquíssimas.

    Esta crucificação desportiva de gente intocável surge no epílogo de uma época em que o FC Porto acaba o campeonato no segundo lugar (três derrotas), afastado da Taça de Portugal nos oitavos-de-final (Belenenses) e eliminado na segunda ronda da Taça dos Campeões Europeus (5-0 em Eindhoven e demissão do treinador Quinito quatro dias depois, após nulo em Fafe).

    OBSESSÃO

    Para se perceber o FC Porto atual, e a exigência providenciada pelo adepto comum e bem-intencionado, é preciso saber ler o passado recente. E, sim, esta estratégia radical de 89 – o que são 36 anos num emblema mais do que centenário? – é só mais uma prova dessa demanda obsessiva pela vitória. Pelo triunfo.

    Já agora, vale a pena lembrar as consequências desta terraplanagem no plantel: em 89/90, o FC Porto recupera o título nacional e transita para uma década de domínio absoluto em território nacional, certificada com o inédito pentacampeonato – 1994-1999.

    Os tempos mudam, sim, e o futebol de 2025 pouco tem a ver com esse jogo de há 30 anos. Concedo-o. Mas esse não é o meu ponto. O meu ponto tem a ver com a essência do FC Porto e essa é precisamente a mesma, porque ditada pelos seus milhões de adeptos.

    Perguntava, numa recente entrevista, o que distinguia o FC Porto de Benfica e Sporting nesse final de século XX-início de século XXI. A resposta era esclarecedora: a incapacidade de digerir o insucesso; nas Antas havia protestos e perseguições, em Lisboa saía-se à noite para esquecer e seguir em frente.

    FRUSTRAÇÃO

    O FC Porto de 24/25 é muito pior do que esse de 88/89, e vive num contexto também ele bastante mais delicado. André Villas-Boas desenha o plantel possível, dentro de um garrote financeiro apertado pela gestão danosa dos antecessores, e escolhe um treinador conhecedor do clube e compatível com o orçamento anual.

    Pouco ou nada resulta.

    Ao oitavo mês da temporada, a luz da esperança e dos benefícios de um novo ciclo e de uma era assente na decência e na estratégia profissional - não dependente de empréstimos com juros usurários de amigos da onça – está completamente desvanecida.

    Entendamo-nos. O trabalho da administração de AVB na reabilitação do FC Porto é hercúleo e extraordinário em várias vertentes (saneamento financeiro, relação com o sócio, transparência, capitalização da marca, rentabilização do estádio, reorganização de departamentos…), mas só será devidamente creditado quando tiver uma equipa de futebol profissional à sua imagem.

    À imagem da exigência de 1989.

    ERA ANSELMI

    Aqui chegados, a pergunta que se segue é esta: Martín Anselmi é o treinador certo para a reaproximação ao sucesso?

    Em 42 dias, e nove jogos oficiais, o retrato do argentino é incompleto e baço. Inconclusivo.

    Recebe um grupo em estado depressivo e depressa perde Galeno e Nico González.

    Tomás Pérez e William Gomes são adolescentes sul-americanos, aparentemente válidos, mas a precisarem de um contexto positivo para crescerem e nunca o oposto – não podem ser eles os salvadores desta pátria em chuteiras.

    Anselmi é devoto do 3x4x2x1 e raramente o retoca. O problema, visto de fora, é a aparente impraticabilidade de pretender encaixar triângulos em retângulos e círculos em losangos. Há gente desconfortável e em aflição de dragão ao peito.

    Se o plantel enferma de males evidentes, esses males agudizam-se na ideologia professada por Anselmi. Não por culpa da ideologia, atraente e corajosa, mas por incapacidade de parte dos executantes.

    O trio de centrais evidencia limitações esdrúxulas na primeira fase de construção e pena com os constantes lapsos de Otávio, homem capaz de fazer uma recuperação estupenda e no segundo a seguir estragar tudo com uma distração inaceitável.

    Os laterais Martim e Moura são competentes, mas mais equilibrados e posicionais do que desequilibradores, principalmente o esquerdino.

    À dupla de médios falta um jogador com a dimensão de Nico, forte na decisão e hábil a surgir em zonas de remate. Não há ninguém assim, a não ser que Fábio Vieira baixe para esse lugar, como em Arouca.

    Os dois elos de ligação a Samu gritam pelo talento de Rodrigo Mora e Fábio, mas esse talento não é omnipresente. João Mário e Gonçalo Borges são vulgares no último passe/cruzamento e desperdiçam a velocidade com opções absurdas.

    E Samu? É um ‘9’ muito específico, vive do ataque ao cruzamento e ao espaço – aí é potente e mortífero -, mas as bolas não lhe chegam. Se obrigado a recuar e a participar… é muito limitado.

    Nem a baliza se salva. Vejo Diogo Costa aborrecido, perturbado, sempre com um semblante derrotado. O FC Porto clama por um líder e Diogo não o aparenta ser. No último Ataque Rápido fala-se também sobre esse estado de alma do '1' da Seleção Nacional. 

    Grande parte das limitações desportivas são ramificações do desnorte dos anteriores responsáveis e respetivos sicofantas. Os portistas informados perceberão as dores da transição e do regresso a um estado saudável.

    Só não lhes peçam a sã convivência com a derrota. Isso é contranatura e incompatível com a pele e vida do clube.

    O que sobra a este FC Porto 24/25? Garantir o pódio do campeonato, derrotar o rival Benfica no Dragão, voltar a ser capaz de fazer uma grande exibição durante 90 minutos.

    Lembram-se de algum jogo assim este ano? Eu não.

    Martín Anselmi? Sim, talvez.

    Comentários

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    Motivo:
    EdmundoAnimal 14-03-2025 10:07
    Algumas criticas são adoráveis
    Se o médio não transposta a bola, se o defesa não a pára e se o atacante não a segura é irrelevante o sistema.
    Como se o 433 não precisasse de bons jogadores. . .
    Dito isto, pôr o Gonçalo Borges é um talvez não.
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    sandeman 13-03-2025 12:39
    Anselmi talvez? Mas provavelmente não
    Anselmi até pode ser bom, mas não o está a demonstrar, porque em cada jogo insiste numa forma de jogar que apenas dificullta chegar à vitória, que expõe a equipa e que coloca em evidência a fragilidade dos jogadores. Seria de esperar que um bom treinador fizesse o oposto: escondesse essas fragilidades e potenciasse as melhores características que os jogadores que tem à disposição conseguem interpretar.

    Anselmi? Talvez, mas provavelmente não. É uma forma de joga...
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    TI
    tink 12-03-2025 19:38
    Anselmi
    A grande questão é se a direção acredita no treinador e na sua ideia. Depois é perceber se o treinador é capaz de a colocar em prática, o que me anda a criar mais dúvidas. Quando chegou impôs a sua ideia, mas no primeiro sobressalto inverteu tudo. Ou tem coragem de, mesmo com erros individuais, assumir a sua ideia e a direção lhe dá o que lhe falta ou nesta fase vai de encontro ao que o plantel é capaz de fazer e volta a tentar em julho. O que tem acontecido é uma equipa no...
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    menaco 11-03-2025 17:52
    Martín Anselmi, espero bem que sim!
    Depois de estar bem orientada a parte não desportiva, o grande problema do FCPorto é a evidente falta de qualidade do plantel, que não é desta época.
    Comparando com o plantel que ficou a 18 pontos do Sporting na época anterior, perdeu 6 titulares. Pepe 41 anos o capitão, Taremi 32, Evanilson 26, F Conceição 21, Galeno 27 e Nico 23. Não há milagres!
    No ano anterior perdemos Uribe 32(34), Otávio 28(30) e Marchesin 35(37).
    O que temos perdido é essenc...
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    VerdeRubro 10-03-2025 23:03
    Anselmi
    " não é por culpa da ideologia, . . . . mas sim da incapacidade dos executantes"

    Ora bem, então qual é o papel do treinador neste contexto?
    Não compete ao treinador analisar e compreender qual a melhor maneira de tirar o melhor rendimento dos jogadores que tem disponíveis?
    Ou é normal um treinador saber que não tem atletas para um sistema táctico e continuar a insistir ad aeterneum à espera que surja um milagre?
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    redlegion 11-03-2025 10:46
    Editado a 2025-03-11 10:46
    VerdeRubro
    "Ou é normal um treinador saber que não tem atletas para um sistema táctico e continuar a insistir ad aeterneum à espera que surja um milagre?" - Ora aí está uma grande verdade e infelizmente vemos treinadores demasiado rígidos e apenas usam a sua tática favorita sem olhar ao plantel que tem.
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    carlos_batuta 10-03-2025 21:48
    1989 - injusto falar de acomodação
    Nessa época, dos 7 nomes citados, o mais novo era o Quim - 29 anos. Lima Pereira tinha 37, Frasco 34.

    Lima Pereira, Frasco, Quim e Eduardo Luis tinham feito menos de 10 jogos na época.

    Gomes tinha entrado em conflito com a equipa técnica e sido afastado - um problema diferente.

    Sousa e Jaime Pacheco foram mais usados, mas já tinham entrado nos 30. Nada acomodados, ainda foram lutar e brilhar para outros clubes da 1ª divisão.

    Ainda houve Inácio que pôs fim à carreira.
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    brunonovo376 10-03-2025 21:18
    A 08/02/2025
    Era dito pelo mesmo cronista que o treinador Anselmi era melhor que o grupo que treina. Então, o que se passou?
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    Templebar 10-03-2025 20:15
    Editado a 2025-03-10 20:16
    Tudo diferente
    Em 1989 houve o cuidado de ir buscar uma equipa técnica que só tinha sido campeã nacional e europeia no FCP.
    Ficaram homens como Jaime Magalhães, João Pinto, Bandeirinha, Zé Beto e André.
    Todos a respirar Porto.
    Desta vez a direção fez tudo ao contrário.
    Puseram os egos à frente do FCP.
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    Sir_jaof 10-03-2025 21:29
    Vamos lá a ver
    Ficaram homens como Jaime Magalhães, João Pinto, Bandeirinha, Zé Beto e André.

    O que é que está Direção fez para contrariar. . . Dispensou 5 jogadores!? 4!? 3!? 2!?
    Pepe, central de 40 anos e com varias lesões, com alto ordenado. . . Seria importante no balneário, um super bem pago motivador de grupo . . mas. . . Ele vale os 5 jogadores de que falaste, ele sozinho ia mudar toda a equipa!?
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    jfloid 11-03-2025 12:22
    Estou curioso. . . .
    ó caro Sir_jaof, as coisas que vocês sabe, Como é que correu o jantar em casa do AVB com o SC? Estou curioso.

    E por falar em colocar os interesses pessoais ou egos, à frente do clube, o que dizer de um treinador que, contrariando o que tinha afirmado, assina um contrato comum ordenado pornográfico a 2 dias do sufrágio para ajudar o seu amigo Presidente? Isto é colocar o clube em primeiro? Obviamente que com esta atitude e acima de tudo, com este ordenado, era impe...
    Ler Mais
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    Templebar 10-03-2025 21:48
    Sir_jaof
    Em 1989 o treinador e o presidente não precisavam de se afirmar.
    Toda a gente sabe do tipo de relação entre J. Costa e Pepe, J. Costa e S. Conceição.
    Todos soubemos como foi o jantar em casa do AVB com o Sérgio.
    Puseram os egos à frente do clube, ao contrário de 1989 em que os diretores não se sentiram incomodados com a história do treinador nem dos jogadores e priorizaram o FCP.
    O resto é poeira.
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    tiger1974 10-03-2025 19:48
    Chefe de Redação
    O problema da sociedade nos tempos que correm é a falta de informação (por incapacidade de ler tudo o que existe actualmente, ou por opção), e a comunicação social que aderiu ao conceito de narrativas espalhando meias verdades e outras vezes mentiras.

    Isto para referir que a "conversa" das juros usurários é boa para passar uma narrativa que não existe.
    Para tal, basta ler os documentos oficiais das contas da SAD, e os prospectos informativos, onde constam a...
    Ler Mais
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    C18 10-03-2025 19:47
    Editado a 2025-03-10 19:48
    Uma análise.
    Li, entendi e compreendo.
    Obrigado Pedro Jorge da Cunha pela sua análise jornalística nesta base comparativa de momentos de épocas do F. C. Porto.
    Sem demais, cumprimentos a todos.
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