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REVOLUÇÃO
O verão de 1989 é mais do que quente nas Antas. Dois anos depois do conto de fadas em Viena, a ordem é clara: apagar tudo e começar de novo.
Artur Jorge, nome respeitado e ouvido, desempenha o papel de executor. A lista de dispensas não olha a estatutos, é inclemente com nomes sagrados.
Lima Pereira, Quim, Eduardo Luís, Jaime Pacheco, Sousa e Frasco, seis campeões da Europa, entram na lista de saídas assinada por Rei Artur. A eles junta-se a mais do que polémica mudança de Fernando Gomes, sagrado Bibota, para Alvalade.
Revolução, limpeza de balneário, chicotada coletiva, o que quiserem. Em linguagem futebolística, mais simples, chamar-lhe-ia uma agitação necessária a um balneário em apatia, acomodado em cima de tesouros e conquistas riquíssimas.
Esta crucificação desportiva de gente intocável surge no epílogo de uma época em que o FC Porto acaba o campeonato no segundo lugar (três derrotas), afastado da Taça de Portugal nos oitavos-de-final (Belenenses) e eliminado na segunda ronda da Taça dos Campeões Europeus (5-0 em Eindhoven e demissão do treinador Quinito quatro dias depois, após nulo em Fafe).
OBSESSÃO
Para se perceber o FC Porto atual, e a exigência providenciada pelo adepto comum e bem-intencionado, é preciso saber ler o passado recente. E, sim, esta estratégia radical de 89 – o que são 36 anos num emblema mais do que centenário? – é só mais uma prova dessa demanda obsessiva pela vitória. Pelo triunfo.
Já agora, vale a pena lembrar as consequências desta terraplanagem no plantel: em 89/90, o FC Porto recupera o título nacional e transita para uma década de domínio absoluto em território nacional, certificada com o inédito pentacampeonato – 1994-1999.
Os tempos mudam, sim, e o futebol de 2025 pouco tem a ver com esse jogo de há 30 anos. Concedo-o. Mas esse não é o meu ponto. O meu ponto tem a ver com a essência do FC Porto e essa é precisamente a mesma, porque ditada pelos seus milhões de adeptos.
Perguntava, numa recente entrevista, o que distinguia o FC Porto de Benfica e Sporting nesse final de século XX-início de século XXI. A resposta era esclarecedora: a incapacidade de digerir o insucesso; nas Antas havia protestos e perseguições, em Lisboa saía-se à noite para esquecer e seguir em frente.
FRUSTRAÇÃO
O FC Porto de 24/25 é muito pior do que esse de 88/89, e vive num contexto também ele bastante mais delicado. André Villas-Boas desenha o plantel possível, dentro de um garrote financeiro apertado pela gestão danosa dos antecessores, e escolhe um treinador conhecedor do clube e compatível com o orçamento anual.
Pouco ou nada resulta.
Ao oitavo mês da temporada, a luz da esperança e dos benefícios de um novo ciclo e de uma era assente na decência e na estratégia profissional - não dependente de empréstimos com juros usurários de amigos da onça – está completamente desvanecida.
Entendamo-nos. O trabalho da administração de AVB na reabilitação do FC Porto é hercúleo e extraordinário em várias vertentes (saneamento financeiro, relação com o sócio, transparência, capitalização da marca, rentabilização do estádio, reorganização de departamentos…), mas só será devidamente creditado quando tiver uma equipa de futebol profissional à sua imagem.
À imagem da exigência de 1989.
ERA ANSELMI
Aqui chegados, a pergunta que se segue é esta: Martín Anselmi é o treinador certo para a reaproximação ao sucesso?
Em 42 dias, e nove jogos oficiais, o retrato do argentino é incompleto e baço. Inconclusivo.
Recebe um grupo em estado depressivo e depressa perde Galeno e Nico González.
Tomás Pérez e William Gomes são adolescentes sul-americanos, aparentemente válidos, mas a precisarem de um contexto positivo para crescerem e nunca o oposto – não podem ser eles os salvadores desta pátria em chuteiras.
Anselmi é devoto do 3x4x2x1 e raramente o retoca. O problema, visto de fora, é a aparente impraticabilidade de pretender encaixar triângulos em retângulos e círculos em losangos. Há gente desconfortável e em aflição de dragão ao peito.
Se o plantel enferma de males evidentes, esses males agudizam-se na ideologia professada por Anselmi. Não por culpa da ideologia, atraente e corajosa, mas por incapacidade de parte dos executantes.
O trio de centrais evidencia limitações esdrúxulas na primeira fase de construção e pena com os constantes lapsos de Otávio, homem capaz de fazer uma recuperação estupenda e no segundo a seguir estragar tudo com uma distração inaceitável.
Os laterais Martim e Moura são competentes, mas mais equilibrados e posicionais do que desequilibradores, principalmente o esquerdino.
À dupla de médios falta um jogador com a dimensão de Nico, forte na decisão e hábil a surgir em zonas de remate. Não há ninguém assim, a não ser que Fábio Vieira baixe para esse lugar, como em Arouca.
Os dois elos de ligação a Samu gritam pelo talento de Rodrigo Mora e Fábio, mas esse talento não é omnipresente. João Mário e Gonçalo Borges são vulgares no último passe/cruzamento e desperdiçam a velocidade com opções absurdas.
E Samu? É um ‘9’ muito específico, vive do ataque ao cruzamento e ao espaço – aí é potente e mortífero -, mas as bolas não lhe chegam. Se obrigado a recuar e a participar… é muito limitado.
Nem a baliza se salva. Vejo Diogo Costa aborrecido, perturbado, sempre com um semblante derrotado. O FC Porto clama por um líder e Diogo não o aparenta ser. No último Ataque Rápido fala-se também sobre esse estado de alma do '1' da Seleção Nacional.
Grande parte das limitações desportivas são ramificações do desnorte dos anteriores responsáveis e respetivos sicofantas. Os portistas informados perceberão as dores da transição e do regresso a um estado saudável.
Só não lhes peçam a sã convivência com a derrota. Isso é contranatura e incompatível com a pele e vida do clube.
O que sobra a este FC Porto 24/25? Garantir o pódio do campeonato, derrotar o rival Benfica no Dragão, voltar a ser capaz de fazer uma grande exibição durante 90 minutos.
Lembram-se de algum jogo assim este ano? Eu não.
Martín Anselmi? Sim, talvez.