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Este domingo é dia de dérbi. Não é um jogo qualquer, porque um duelo assim foi, é e será sempre diferenciado de todos os outros, e quem não perceber isto não consegue entender o contexto deste confronto. As paixões ficam mais evidentes quando se joga este autêntico clássico, cujas fronteiras vão muito para além das duas cidades.
Estes encontros, entre Vitória SC e SC Braga, começam bem antes da hora definida para o jogo e os dias antecedentes proporcionam evidências de uma rivalidade ancestral entre os dois clubes, que no passado também foi acérrima entre as duas cidades. Atualmente, há muita gente braguista a viver em Guimarães e o contrário também é factual, numa convivência entre rivais que se deseja salutar. Os excessos que se observam, de um lado e do outro, são sempre condenáveis, uma vez que há vida para além do futebol e esta é mais uma partida que se disputa com rivalidade, que nunca deve esquecer a civilidade.
Ao longo da história houve períodos de supremacia de conquistadores sobre brácaros e vice-versa. Contudo, nas duas últimas décadas o crescimento do SC Braga não foi acompanhado pelo rival e têm sido diversas as temporadas em que existe uma diferença pontual assinalável, como é exemplo a época atual em que as equipas se vão encontrar nesta jornada de dérbi separadas por treze pontos na tabela classificativa.
O encontro da primeira volta, à quinta jornada na Pedreira, resultou numa derrota caseira que deixou os braguistas tristes com o resultado e com o baixo rendimento observado na sua equipa e levou de regresso a casa os vitorianos felizes com os ferimentos desportivos provocados no adversário, que os levou para uma diferença de quatro pontos a seu favor, o que indiciava que a luta pelo quarto lugar poderia ser mais acesa. Porém, uma volta de campeonato volvida, o SC Braga anulou a desvantagem inicial e ainda se distanciou mais treze pontos, ou seja, os brácaros em meio campeonato fizeram dezassete pontos a mais que o seu rival histórico, que representa a histórica cidade de Guimarães, estranhamente, sem ostentar o seu nome.
A diferença pontual ou o contexto das equipas ajuda na preparação mental do duelo entre estes rivais, mas tudo isso desaparece quando as equipas entram em campo, com vontade de verem os seus adeptos felizes no final. Acredito que o espírito possa ser esse nos dois lados da contenda, que teoricamente é favorável ao universo braguista.
O SC Braga colocou os bilhetes disponíveis à venda, com regras bem definidas para a sua aquisição, o que se louva, e rapidamente esgotaram nas primeiras horas, depois de longas filas formadas para a sua compra. Este facto contraria aquela ideia que se tenta normalizar, sem qualquer nexo causal, de que em Braga não há adeptos, esvaziando um mito que muitos gostam de “alimentar”. O apoio da Legião é garantido sempre, mas nos dérbis é inegociável para todos os adeptos.
A deslocação da esmagadora maioria é feita em autocarros, devidamente escoltados pela polícia. Claro que num país normal a curta distância entre as duas cidades podia ser percorrida de carro, sem que isso prejudicasse a rivalidade existente. Mas, o futebol é um mundo à parte e as forças policiais elaboram um plano que agora zela pela segurança de todos e garante a entrada no estádio bem antes de começar o jogo, algo que no passado nem sempre aconteceu, de modo absolutamente lamentável e criticável. A exigência é que seja uma viagem segura e exista uma entrada atempada.
A concentração em Braga acontece bastante cedo e a partida também, dado que acontece cerca de três horas antes da partida começar, para percorrer uma vintena de quilómetros que separa as duas cidades. Os autocarros estacionam em local amplo, ainda longe do estádio, e o percurso restante é feito a pé, com os cânticos entoados, que preparam o apito inicial, a não deixarem ninguém indiferente. Ao longo do encontro os adeptos apoiam os seus jogadores, com o desejo de no final saírem a sorrir do estádio no regresso a casa, ainda que não seja possível que ambos os lados fiquem agradados com o desfecho do resultado.
Após o epílogo do duelo os adeptos visitantes são “convidados” a ficar nos seus lugares durante um tempo que, por vezes, parece não ter fim, até que o percurso inverso é feito a pé e os autocarros podem chegar, finalmente, iniciar a viagem rumo ao seu destino final, levando os adeptos braguistas de regresso ao lar muitas horas depois. Diria que são horas gastas a mais e que deveriam ser encurtadas.
Uma nota final para apelar ao comportamento das duas partes, que nunca se desvie na normalidade, dirigindo as energias para o apoio às equipas, evitando incidentes que se lamentem mais tarde. Afinal, há vida para além do futebol e amanhã há sempre um novo dia pronto a nascer.