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* Chefe de Redação
A dor de perder um filho e de ter outro, ainda bebé, no hospital é mais do que respeitável.
Sou incapaz de criticar um pai que sofre por esses dois motivos. Por ser pai e por já ter sentido a aflição na pele.
Nisso, insisto, só posso sentir empatia por Cristiano Ronaldo.
O problema é tudo o resto. E tudo o resto não é bonito de se ver. É triste, é penoso, até por estarmos a falar do melhor futebolista português de sempre.
Cristiano saiu de Turim e voltou a Old Trafford porque quis. Assinou o contrato que quis. Foi tratado como o craque que já não é, teve a possibilidade de ser idolatrado no clube mais marcante da carreira.
No final da primeira época, os resultados do United foram maus e Cristiano ficou a saber que não disputaria a Liga dos Campeões pela primeira vez em 20 anos. A partir daí, o céu desabou-lhe sobre a cabeça e as decisões seguintes foram incompreensíveis. Más, todas más.
Cristiano não se apresentou à pré-época (sabe-se agora o motivo), não esteve na digressão do United, forçou insistentemente uma saída, foi rejeitado no mercado de transferências, saiu uma vez do estádio antes do jogo acabar, reclamou ao ser substituído, recusou-se a entrar quando viu que só ia jogar alguns minutos e sentiu-se, enfim, «traído» pelo United.
É difícil defender o posicionamento de Cristiano Ronaldo nisto tudo, por mais respeito e admiração que todos os portugueses tenham pela figura.
E o timing desta entrevista? Uma falta de sensibilidade, uma viagem ao ego mais profundo de um homem que deixou de perceber as regras mais elementares do jogo.
A dias do arranque do Mundial, Cristiano não sabe que tudo isto criará um insustentável ruído à volta da Seleção Nacional? E que na seleção há mais dois jogadores do United que ficam numa posição muito desconfortável?
Cristiano sentou-se à mesa dos gigantes da História deste desporto, fez por isso. Este tom de desabafo e de desrespeito por todos [as palavras sobre Ralf Rangnick são deploráveis] refletem, ao mesmo tempo, sinais de altivez e solidão.
Uma reclamação despropositada, numa entrevista dada a uma personagem que nada tem a ver com futebol e que escreve para o tablóide mais tablóide do Reino Unido.
Não podia ser pior. Quem quererá contratar um elemento destes em janeiro?
Adorava estar aqui a escrever sobre o Cristiano que vai jogar o Mundial pela quinta vez, o monstro de músculos e golos, a máquina mais feroz e competitiva que vi na área.
Ronaldo não quis, Ronaldo não deixa. É doloroso vê-lo assim.