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O Mundial terminou. Já não há mais nada para ver, mais nada para antecipar, nada de nada. Não resta mais um pingo de coisa nova. Quando muito revisitam-se bastidores, exploram-se os restos de fim de festa, exploram-se detalhes, expõem-se histórias que antes não tiveram tempo ou oportunidade de verem a luz do dia.
Percorrer o Mundial, agora, assemelha-se a passear nas ruas no dia seguinte a uma festa popular, com os restos dos confettis e das canas lançadas, por entre garrafas vazias e todos os outros despojos de uma grande folia. É tempo de ressaca.
Algo análogo acontece quando acabam os campeonatos. O meu tio António, já falecido, a pessoa que me levou pela primeira vez a um estádio para ver um jogo, dizia com o seu humor típico: «Um domingo sem futebol, é como um dezembro sem Natal.»
Mas num Mundial, com a intensidade e frequência enorme de jogos, a dose de envolvimento é ainda maior. Para quem segue uma competição destas, que preenche longas horas do quotidiano, para quem a vive de forma apaixonada, acaba por funcionar quase como uma droga. É algo absoluto, que passa a reger as rotinas diárias. Se seduzidos pelo seu chamamento, ficamos em risco de dependência.
Por isso, a competição está tão bem montada do ponto de vista do incentivo ao consumo. Primeiro agarram-nos. Inundam-nos com a substância. Instalam em nós o vício. Depois, dão-nos menos pelo mesmo preço, com doses mais espaçadas. São os dias sem jogos, onde após o festim diário inicial nos tiram o brinquedo. Mas isto só aumenta o interesse no jogo seguinte. Até porque já estamos nos quartos, ou nas meias, e o olhar dirige-se, expetante, para esse encontro futuro. Lá à frente, espera-nos sempre a final. E o fim. Um adeus. Onde ficará um buraco. Como um dependente que agoniza pela falta do seu veneno, ficamos à míngua.
Lembro-me bem de como era na minha adolescência, quando tinha todo o tempo para ver todos os jogos, e do sentimento que se instalava no momento em que terminava um Mundial. Cavava-se um profundo buraco. Um estranho vazio. Apesar de Verão, quando olhava para dentro, a imagem que me aparecia era a de um vidro embaciado, num dia de chuva lá fora. Não como uma coisa agonizante, mas como um desaparecimento repentino, ou até um membro-fantasma.
Tal vazio, penso eu, também era aumentado por quase nunca ter acompanhado de perto um Mundial que fosse ganho pela minha seleção adotada como preferida – sim, adotada, porque raramente Portugal esteve lá durante a minha adolescência. Assim, não me conseguia juntar às celebrações da vitória. Porém, acho que era mais do que isso.
Era provavelmente um sentimento de que aquilo foi inebriante, mas findou. Para mim, às vezes, ao abrir os olhos aos despojos do dia seguinte, somava-se a isso um leve remorso pela constatação de ter consumido algo em excesso. Uma espécie de culpa por ter feito algo errado, ou exagerado. Por isso a minha imagem do início: o dia seguinte, como quem se confronta com o lixo nas ruas e os destroços da festa. Ou como quem sai, após uma longa noite, de uma discoteca numa manhã de domingo, sentindo os olhos feridos com a luz da manhã.
Reparem: falo do Mundial, mas na minha vida encontro outros exemplos de outras «substâncias» viciantes, outros venenos criadores de dependência, alguns deles até surpreendentes. Sentia o mesmo quando acabava um longo livro que me organizara vários dias inteiros nas férias de Verão. Sentia o mesmo quando acabava uma longa série de televisão e que me deixaria um buraco numa qualquer noite da semana. Ou, ainda mais novo, quando acabava uma novela brasileira da Globo, que unia todas as pessoas da família e do país. Um buraco, um vazio.
Ao pensar nisto, constato, quase paradoxalmente, que esse buraco talvez nos faça falta. Um espaço vazio, ocupado por algo antes, por muito apaixonante que tenha sido, é um enorme desafio. Os lutos de entes amados ou de relações intensas são difíceis de ultrapassar. Mas o luto de um Mundial pode e deve ser mais fácil, porque na realidade haverá, para a maior parte de nós, valores mais importantes e propósitos mais relevantes nas nossas vidas. Por isso, esse buraco é importante. Após uma noite de folia, é tempo de descansar. É tempo de limpar. E, depois, de reinventar o que vem aí. Eis uma oportunidade de renovação.
Curiosamente, acho que hoje sentimos menos este buraco e faz-nos falta sentirmos a falta. Pelo menos eu, pessoalmente, já não o sinto tão intensamente. Sei que várias coisas contribuem para tal. Por exemplo, já não me embriago tanto com o consumo excessivo de jogos, até porque já me falta o tempo e a paciência para tanto. Ou por estar mais velho, e por isso menos intenso. Mas suspeito de algo mais importante: o haver tanta coisa e tanta tralha a encher-me os dias e as horas, de tal modo que rapidamente encontro uma qualquer droga de substituição para tanto fartote.
Sim, como adeptos de futebol nos próximos dias poderemos facilmente virar a atenção para os jogos dos clubes e para o mercado de transferências. Quando estas competições eram mais curtas, habitualmente não havia logo a seguir um campeonato e competições europeias logo à espreita, como hoje acontece. Esta semana, eu e todos os outros viciados podemos já trocar as imagens do Mundial por um jogo oficial do Benfica ou do Braga!
Não, dantes esperava-se mais tempo pelas competições e, por isso, a abstinência também era maior. Como quem procura mais álcool para atenuar os efeitos perniciosos do excesso da noite anterior, hoje podemos mais facilmente entregar-nos às mãos do vício. Ou a uma qualquer aplicação no telemóvel.
Corremos, assim, o risco de saltar de distração em distração, de dependência em dependência. E qualquer forma de dependência, como dizia o saudoso Eduardo Prado Coelho, tem na diminuição da liberdade o seu principal preço. Por isso, pela minha parte, vou tentar resistir um pouco mais à nova época e ficar a olhar para este espaço vazio. Talvez encontre neste buraco o espaço para fazer algo que realmente importe. E, quiçá, ser mais livre.
* Psicólogo clínico, psicoterapeuta e professor universitário