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De há muitos anos a esta parte é público e notório que o futebol português vive numa macrocefalia exacerbada, com toques de autêntica alienação, em torno de três clubes em função dos quais tudo se faz como se nada mais existisse no nosso desporto que não as cores vermelha, azul e verde.
Ele são os jornais desportivos, ele são os inúmeros programas televisivos com paineleiros afetos a esses clubes, ele é a alienação de gente pelo país fora que em vez de defender os clubes das suas terras apoia entusiasticamente clubes cujos estádios nem conhecem, ele é a política desses clubes de abrirem casas, casinhas e casotas pelo país fora (com a honrosa exceção de Guimarães onde não há disso) na mesma lógica com que os portugueses dos Descobrimentos iam colocando as suas feitorias coloniais nos territórios que iam descobrindo.
Portugal vive colonizado pelos chamados “grandes” numa forma de ditadura que o 25 de Abril não conseguiu acabar.
E por isso, porque eles dominam quase tudo, da comunicação social escrita às televisões, da Liga à Federação, da disciplina à arbitragem, passando pelos dirigentes da generalidade dos outros clubes (muitos dos quais têm a sua simpatiazinha secreta por um desses clubes chamados “grandes”) que já ninguém se admira que as próprias competições sejam desenhadas de forma a favorecer esses três.
Até porque os outros, vergonhosamente, em nada se incomodam!
A pouca vergonha começa logo pelo sorteio do campeonatos em que Suas Excelências têm direito a condições especiais, desde o não poderem defrontar-se nas primeiras jornadas ao não poderem realizar-se jogos consecutivos entre eles, por razões que não têm outra explicação que não a deliberada intenção de favorecer três em detrimento de quinze.
Num campeonato sério, em que a verdade desportiva seja preocupação primeira, todos os clubes participam em igualdade de condições, de direitos e de deveres, e não na pobre lógica do nosso futebol em que há “filhos” e “enteados”, com notória discriminação entre eles.
Naturalmente que quando é a própria Liga a estabelecer a discriminação e a fazer gala dela no anúncio de cada sorteio, ano após ano, ninguém se pode admirar que depois, ao longo da prova, arbitragem e órgãos disciplinares sigam o mesmo padrão discriminatório! Afinal o péssimo exemplo vem de cima.
E depois a taça da Liga, onde francamente não percebo como os restantes clubes aceitam participar numa prova sem qualquer verdade desportiva, feita para ser ganha por um dos três e onde os outros são meros comparsas de uma farsa, e em que até o lugar onde se disputa a fase final é escolhido sem qualquer outra lógica que não o favorecer dois desses três clubes.
Por tudo isto acho que o Moreirense conseguiu uma proeza fantástica ao vencer a edição da taça da Liga desta época que não teve, apesar de tudo, o devido realce por parte de televisões e jornais desportivos.
O Moreirense é um clube pequeno, mas de “cara lavada” em termos económico-financeiros, sedeado numa vila do concelho de Guimarães com cerca de cinco mil habitantes e que vive dentro dos condicionalismos fáceis de constatar e oriundos quer da dimensão do meio em que está inserido quer do facto de no concelho ser o segundo clube em simpatia popular, muito atrás do Vitória.
Será, provavelmente, em termos de Primeira Liga, um dos clubes com menor massa associativa, a par de Tondela, Arouca e Nacional da Madeira, agremiações que, apesar de tudo, se inserem em realidades bem diferentes. Tondela e Arouca são os principais clubes dos seus concelhos e o Nacional, não tendo a dimensão do Marítimo, é ainda assim um clube com importantes ajudas do governo regional e com presença assídua na Primeira Liga e algumas participações europeias.
Mesmo assim o Moreirense venceu a taça da Liga. Vencendo um grupo em que o FC Porto era, de longe, o maior favorito, mas onde ainda estavam Belenenses e Feirense, e assim se apurando perante a surpresa geral para uma “final four” onde não era esperado nem sequer desejado.
Depois, quando se soube que teria de defrontar o Benfica, o senhor todo-poderoso do nosso futebol onde o roupeiro ganha mais que o jogador mais bem pago do Moreirense (com algum exagero, convenhamos), não passou pela cabeça de ninguém outra hipótese que não fosse um passeio dos lisboetas até à final onde se limitariam a recolher uma taça que já era deles. Puro engano. O “patinho feio” da prova deu uma enorme lição à “águia” altaneira e venceu o jogo com algum conforto no marcador confirmando que quem não levara a sério a sua vitória no grupo, e o triunfo sobre o FC Porto na última jornada do mesmo, estava bem enganado.
Depois, bem, depois não há duas sem três e o Moreirense venceu o Braga com as mesmas armas com que já vencera FC Porto e Benfica: humildade, convicção nas suas capacidades e bom futebol.
Assim, o segundo clube do concelho de Guimarães vencendo os, ao tempo, três primeiros classificados da Liga, conquistou o seu primeiro grande troféu nacional e deu ao país futebolístico uma enorme lição. E um enorme exemplo. O de que todos os clubes merecem o mesmo respeito, a mesma consideração, as mesmas oportunidades para vencerem as provas que disputam.
O Moreirense ganhou a taça da Liga competindo em circunstâncias desiguais com outros clubes. Desde o “sorteio” dos grupos ao local da “final four”. Como muito bem disse o seu presidente, Vítor Magalhães, ninguém nasce “grande”.
Pena é que a três, de há quase 100 anos a esta parte, as “ajudas” para crescerem sejam muito maiores que a todas as largas dezenas de outros que ao longo dos anos com eles competiram em desigualdade absoluta de circunstâncias.
Pode ser que o exemplo do Moreirense sirva para alguma coisa…