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    Luís Cirilo Carvalho
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    Luís Cirilo Carvalho

    O dérbi

    2017/01/23
    E0
    "A Preto e Branco” é uma coluna de opinião que procurará reflectir sobre o futebol português em todas as suas vertentes, de uma forma frontal e sem tibiezas nem equívocos, traduzindo o pensamento em liberdade do seu autor sobre todas as questões que se proponha abordar.

    Em semana de Sporting de Braga vs Vitória Sport Clube seria verdadeiramente imperdoável não escrever esta pequena crónica sobre aquele que é o dérbi mais antigo de Portugal cujo significado ultrapassa em muito os noventa minutos de cada jogo.

    Um jogo entre Vitória e Braga é sempre muito mais que um jogo. Seja em futebol, seja qual for o escalão, seja noutras modalidades em que os dois clubes se encontrem (também em qualquer escalão) por toda a carga emotiva e pela vontade de vencer que passa dos adeptos para os técnicos e destes para os atletas e que transforma um triunfo sobre o eterno rival em mais qualquer coisa do que o triunfo desportivo.
    Escrevi no primeiro parágrafo que Vitória e Braga protagonizam o dérbi mais antigo do nosso país, o que deve ter escandalizado de imediato todos aqueles que julgam que o nosso desporto se esgota em três clubes, e que todos os restantes são meros comparsas das festas e triunfos desses três, e deixado interrogações sobre a antiguidade deste dérbi face aos que envolvem os chamados “grandes”, dado estes serem clubes mais antigos.

    Pois são. Mas Vitória e Braga são os expoentes máximos, e mais visíveis face ao mediatismo do futebol, de uma rivalidade milenar (sim, milenar) entres as comunidades de Guimarães e Braga e que ao longo de mais de mil anos encontrou muitas formas de expressão, nem sempre pacificas, que o desporto em geral e o futebol em particular encarnaram nas últimas décadas.

    Por isso considero, e já o escrevi muitas vezes, que os dérbis entre Benfica, Sporting e Porto são uma brincadeira face a um Vitória - Braga ou a um Braga - Vitória que tem uma intensidade e um significado mais fácil de encontrar em dérbis de outros países, como um Bétis - Sevilha, um Milan - Inter, um Celtic - Rangers ou um Liverpool - Manchester United, do que nos dérbis que por cá se disputam entre os tais clubes que referi.
    Depois, um dérbi, e nisso são todos idênticos, tem sempre aquela imprevisibilidade, aquele habitual agigantar da equipa que em cada momento parece estar num momento menos bom, aquela incerteza que rodeia o resultado que são essenciais para transformar esses jogos em lendas e aumentarem a paixão (e a rivalidade) dos adeptos pelos seus clubes.

    Como vitoriano já assisti a umas largas dezenas de dérbis entre Vitória e Braga. Entre equipas A, equipas B, futebol de formação e modalidades. Já vi de tudo. Vitórias justas, derrotas injustas, arbitragens excelentes e outras paupérrimas, grandes momentos de apoio dos adeptos e momentos sem os quais o futebol passava muitíssimo bem dado caracterizarem-se por uma violência sempre condenável.

    Recordo particularmente dois: Um foi o primeiro jogo em que José Maria Pedroto orientou o Vitória depois de ser contratado para substituir Fernando Peres face à época dececionante que a equipa vinha fazendo. O Braga entrou no D. Afonso Henriques como favorito, mas ao intervalo o Vitória já ganhava por 4-0 (o resultado final foi de 5-0) depois de um vendaval de futebol ofensivo como raramente me recordo de ter visto.

    O outro é mais pessoal e passou-se em 2002, no ultimo Braga - Vitória disputado no 1.º de Maio entre as equipas A dos dois clubes. Ao tempo desempenhava um cargo oficial que levou a que tivesse assistido ao jogo na tribuna do estádio entre responsáveis do clube anfitrião e do município bracarense. Quando o Vitória entrou em campo, causou admiração o equipamento que envergava, constituído por camisola meia branca meia amarela e calções pretos, que era o terceiro equipamento dessa temporada, e levou os meus vizinhos de cadeira a perguntarem jocosamente que raio de equipamento era aquele. Não respondi de imediato. Mas ao intervalo, com o Vitória a vencer por 3-0 (o resultado final seria de 4-2 a nosso favor), não resisti a dizer-lhes que eram os equipamentos… de treino.
    Também destas pequenas picardias e provocações se faz a história dos dérbis e também elas dão a esses jogos um sabor tão especial que os tornam indispensáveis ao sucesso do futebol como o desporto mais popular em todo o mundo.

    P.S. Confesso que no dérbi desta jornada, quando vi o Vitória entrar com o terceiro equipamento, me lembrei de imediato da história atrás contada e tive o feeling de que um velho borrego com 14 anos podia ser morto. E foi!

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