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    Carlos Daniel
    O Melhor dos Jogos
    Carlos Daniel

    Managing ou coaching, uma questão de rumo

    2026/01/22
    E0
    Este espaço, do jornalista Carlos Daniel, pretende ser de abordagem e reflexão sobre o futebol no que o jogo tem de melhor. Quinzenalmente, uma equipa será objeto de análise, com notas concretas que acrescentam atualidade.

    Thierry Henry recolocou bem a velha questão há cerca de um mês, na tentativa de explicar as dificuldades de Xabi Alonso no Real Madrid, entretanto consumadas em despedimento. O velho astro francês, agora arguto comentador, recolocava nos pratos da balança a liderança e a tática. Sublinhava, no fundo, que há momentos, e sobretudo contextos, em que o doseamento delas tem de ser ponderado.  

    A tese era de que, para Alonso, tinha sido bem mais fácil priorizar o coaching, o treino propriamente, em Leverkusen, mas que em Madrid lhe faltava mais managing, uma gestão de grupo eficaz, perante a enésima geração de galácticos no Bernabéu. E não se trata sequer de perceber o clube, que Xabi viveu diversos momentos gloriosos de blanco vestido, é mesmo o desafio de entrar no balneário pela porta do chefe, na certeza de que liderar stressa mais que rematar.

    Nunca há managing e coaching em doses idênticas, falemos nós de treinadores ou do caldo cultural de cada clube. Espanha tem, de resto, os melhores exemplos disso, na comparação entre os dois clubes que coloca há décadas no topo do futebol mundial. Se em Barcelona não se dispensa o coach, em Madrid é mesmo indispensável ser manager. No Barça há uma matriz de jogo para chegar às vitórias, no Real há um perfil de jogador para as alcançar.

    O que num é caminho, noutro é destino. Na Catalunha há juventude para afirmar, na capital é para imediatamente explorar. O Barça ganha mais vezes por acumulação, o Real celebra vitórias por inspiração. Por isso, em Barcelona, de Cruijff a Guardiola ou Flick, manda o perfil do treinador mestre, o que ensina, reparte ideias e constrói caminhos. Em Madrid, de Del Bosque a Ancelotti ou Zidane, a ideia guia é a do sábio silencioso, o que essencialmente gere talento, mais de agregar que de forçar.  

    Enquanto do Barcelona guardaremos memórias de equipas, de autor, do Real iremos essencialmente recordar espantosos futebolistas. E não há mal nenhum nisso. É verdade que o Barcelona tem celebrado mais campeonatos, o que parece dar razão aos que, como eu, acreditam essencialmente que são as virtudes do treino, na concretização de uma boa ideia, que fazem ganhar mais vezes.

    Mas o Real acumulou troféus como ninguém, sobretudo na Europa, acrescentando créditos aos que insistem em que os jogadores serão sempre a maior determinante do jogo. O que podemos retirar como moral da história é que não há só uma forma de ganhar, naturalmente, mas sobretudo que tem de haver coerência no rumo seguido. Essa coerência pode levar a que se coloquem mais fichas no managing ou no coaching, não recomenda é ter um «treinador professor» numa lógica que reclama essencialmente liderança, ou um «treinador gestor» quando o projeto reivindica laboriosa proposta tática.

    Os melhores clubes são os que sabem por onde vão. Os melhores treinadores são os que agrupam as duas valências e sobretudo as equilibram na dose certa consoante o contexto. O problema é que Guardiola, Klopp ou Luis Enrique não são para todas as bolsas ou ligas. E nem esses ganham sempre, como amiúde se tem visto.

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