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Maio de 1978. Portugal sobrevive organizado numa jovem democracia, frágil como um bebé de berço. Qualquer espirro conspirativo ameaça interromper-lhe a existência, a sombra delinquente de uma outra qualquer ditadura.
O FC Porto anda subjugado pelas vitórias dos rivais da capital. Longa se torna a espera entre 1959, ano do último título nacional, e o golo de Ademir ao Benfica.
Esse golo, e esse grito de revolta portista, é a ignição perfeita para a dupla Pinto da Costa/Pedroto. Não mais o FC Porto aceita o papel de servo amansado, não mais a Invicta azul atravessa a Ponte da Arrábida a tremer.
Para perceber Jorge Nuno Pinto da Costa, a mensagem e o legado, é impreterível perceber os seus anos iniciais de dirigismo e o estado em que encontra o país, o futebol e o Futebol Clube do Porto.
Os excessos, as alianças desfeitas e a afronta aos poderes instituídos são males necessários, dores prodigiosas no crescimento pertinaz do FC Porto nesse Portugal centralizado – uma doença crónica e incurável -, na Europa e no Mundo.
Pinto da Costa revela natural aptidão na gestão de estratégias e de homens. O cocktail, tantas vezes explosivo, é servido com elegância e umas gotinhas de veneno. Uma poção infalível.
É este gigante, complexo e enigmático, o responsável-mor pela edificação do FC Porto conquistador. Criador do pensamento de guerrilha, da palavra acintosa, extraordinário condutor de emoções, um deus e um diabo no corpo de um homem só.
A inteligência revela-se não só na palavra, tantas vezes arrasadora, mas também na escolha de quem o acompanha.
Treinadores (Artur Jorge na sucessão de Pedroto, Bobby Robson reabilitado no pós-Alvalade, os então jovens José Mourinho e André Villas-Boas, o quase anónimo Vítor Pereira…) e jogadores (Paulo Futre desviado do Sporting, Madjer encontrado na segunda liga francesa…), nomes que se impõem no léxico das vitórias portistas.
Ninguém lhe fica indiferente. Pelo bem ou pelo mal, pelos feitos sagrados ou os pecados mais ou menos perdoáveis. Pinto da Costa não é um homem de concessões e unanimismos, detesta a passividade diplomática. Com ele, se é para fraturar, então que se frature. Até ao fim dos seus dias.
Sagaz como poucos, identifica a fraqueza nos alvos e morde. Raramente falha. E surgem Viena, Tóquio, Sevilha, Gelsenkirchen, Yokohama, Dublin, o penta, o crescimento até ao domínio total a nível interno.
Criador de paixões inegociáveis e ódios à flor da pele, amado por tantos e detestado por outros, uma figura maior do que a vida.
O dia do funeral possui a semiótica reservada aos imortais. A urna pousada a meio do relvado, ladeada pelos troféus de tantas conquistas, o olhar beatífico do bispo e as gargantas roucas do povo azul e branco. Perfeito, se na morte há perfeição.
Conheço-lhe o lado obscuro, de práticas menos próprias. Não é o dia, nem o texto, para sublinhá-las. Existiam, estão documentadas e sobre essas escrevi milhares de carateres nos últimos meses.
Nesta data da separação física, interessa-me mais a análise ao raciocínio e ao olhar socio-competitivo de Jorge Nuno Pinto da Costa, a postura que lhe tornava impossível a subserviência e privilegiava o confronto. O seu terreno preferido.
Jorge Nuno parte para outra dimensão, o FC Porto carrega a responsabilidade pesadíssima da sua herança, do seu legado. Ou, como muito bem diz Martín Anselmi, a herança de alguém que obriga a equipa «a ganhar mais».
O maior e melhor dirigente de sempre do futebol português, lado a lado com Cândido de Oliveira.
O zerozero envia as mais sinceras condolências à família, aos amigos e ao FC Porto.
PS: impossível não lamentar o silêncio absurdo de Benfica e Sporting na hora da morte de Pinto da Costa. Rui Costa e Frederico Varandas têm toda a legitimidade em não morrer de amores pelo ex-dirigente, mas as instituições a que presidem estão muito acima de qualquer desentendimento, amuo ou zanga entre pessoas. Por opção das figuras que lá estão neste momento, Benfica e Sporting desrespeitam a dor de milhões de portistas pela perda do presidente dos últimos 42 anos. Deplorável. Uma pequenez difícil de perceber, principalmente vinda de clubes com um historial problemático de presidentes investigados pela Justiça.