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Minuto 44 do empolgante Noruega-Inglaterra. Está 1-0 para a Noruega. De repente, uma recuperação rápida de bola e a seleção inglesa é apanhada completamente em contrapé: dois para um à entrada do meio-campo inglês! Sørloth conduz a bola pela direita. Pela esquerda está o temível Haaland. Stones vai recuando, preenchendo o espaço no meio, na expetativa de como a jogada se irá realizar. Todo o estádio e todo o mundo que assiste ao jogo antecipa o 2-0.
Stones posiciona-se entre os dois atacantes e dificulta o passe direto, mas deixa as suas costas completamente livres para um passe em profundidade que isolaria Haaland. Mas eis que Sørloth, em vez de passar a bola, dá um toque para a frente e, depois, decide caminhar para área e tentar marcar. Stones e um companheiro, que entretanto veio em seu auxílio, aproximam-se e bloqueiam o remate
Em vez de golo, a bola morre nas mãos de Pickford, o guarda-redes inglês. Fica Haaland a apontar para o terreno à sua frente, como que a dizer que lhe deveria ter passado a bola no espaço livre. Oportunidade perdida por uma má decisão, ninguém duvida. Aos 45+2, golpe de teatro, com Jude Bellingham, a empatar. A Inglaterra acabaria depois como é sabido, a virar o resultado no prolongamento e a passar às meias-finais.
Pouco depois as redes sociais ficaram repletas de vídeos e mensagens a criticar Sørloth. Uma autêntica avalanche. Façam scroll e vejam as centenas de vídeos. 'Foi por isto que a Noruega perdeu!', 'Puro egoísmo de Sørloth!!'. Num tom sempre muito inflamado.
Críticas, críticas e mais críticas. Mas não ficou por aqui. Ficamos a saber pela companheira de Sørloth, Lena Selnes, que houve mensagens mais intimidantes dirigidas ao jogador e também a ela. 'Diz ao teu marido para deixar a Noruega e saltar de um penhasco', 'Pega no teu namorado e morram, é a única maneira' ou 'Vou matá-lo'.
Ódio puro, à solta. Muitas vezes à boleia do anonimato. Absolutamente condenável, é certo, e condenado por vários meios de comunicação social. Porém, julgo ser importante fazer algo mais do que condenar. É algo tão aberrante que é preciso ser compreendido para sermos mais capazes na sua prevenção. Que provavelmente nunca será total, mas valerá a pena ser pensada.
Sørloth nem sequer é caso único neste Mundial. Jáminton Campaz, da Colômbia, talvez ainda mais pesado. Falhou uma ocasião de golo no prolongamento contra a Suíça. A equipa acabou depois por perder nas grandes penalidades. Resultado: ameaças de morte dirigidas a ele e à família. Campaz acabou por restringir os comentários nas redes e a não regressar à Colômbia com a equipa, como medida de segurança.
E aqui a memória trouxe-lhe com toda a certeza à mente a tragédia de Andrés Escobar, assassinado em 1994, depois de anotar um autogolo no Mundial dos EUA. Não havia redes sociais, mas já havia armas e já havia ódio. Estaremos todos, ou quase todos, de acordo que isto são coisas a erradicar. Porém, não é isso que vemos acontecer. Como os incêndios de verão, que se reacendem quando a temperatura sobe.
É tão absurdo, isto, que só apetece berrar para a humanidade que “isto é só um jogo”. Mas mesmo que fosse mais do que um jogo. São vidas humanas, e toda a vida merece-nos um profundo respeito, que aqui vemos a serem calcadas. Por isso, paro aqui um pouco para tentar perceber o que se passa na mente humana sobre estes momentos.
As reações extremadas dos adeptos revelam algo que já sabemos: antes de pensar, sentimos, e o que sentimos dita grande parte do que conseguimos pensar. Em condições normais, depois de surgir um sentimento, há oportunidade de elaboração, ou seja, usar a nossa mente reflexiva e analítica para pôr em palavras (ou noutras formas complexas de elaboração) o que de outro modo fica como afeto meramente corporizado.
Quando tal elaboração não acontece, as nossas capacidades de pensamento ficam empobrecidas. A realidade, os factos reais, passam a ser interpretados por um número muito reduzido de elementos. Reduz-se drasticamente a capacidade de raciocínio. O resultado é que o afeto se torna um impulso de muito difícil gestão e passa a tomar conta da pessoa. É o império do impulso.
É o que acontece quando a nossa equipa joga. Um jogador cai na área. É nosso? Afetivamente queremos penálti, logo pensamos que o é. É deles? Torna-se óbvio que não é. A todo o adepto acontece isto, pelo menos por momentos. As regras, a elaboração, as explicações poderão atenuar o primeiro olhar, mas a tendência é natural. Porque, de facto, a capacidade de raciocínio fica toldada pelas nossas preferências. É o nós contra eles, os bons e os maus, os amigos e os inimigos.
Voltemos a Sørloth. Aos olhos do adepto, não passar a bola deixa de poder ser outra coisa. Passa a ser uma traição. E já não é um lance que está em causa, é a pessoa inteira. O ódio não distingue entre o lance, o jogador, ou a companheira e até o filho: o afeto totalizador não conhece fronteiras entre objetos, funciona como um campo que tinge tudo o que toca. E, depois, toma conta do controlo das ações, a pessoa passa a agir de modo impulsivo, inundada com um enorme desejo de destruição.
O mais grave é que isto não se passa apenas na esfera do futebol. Não é novo, e o caso de Andrés Escobar mostra-nos isto claramente. Porém, a extensão e facilidade com que acontece é de um (pouco) admirável mundo novo. Escrevi há uns 10 anos uma outra crónica sobre o ódio andar à solta, preocupado com os tempos que estávamos a atravessar. Isso só se acentuou desde então, com a expansão contínua das redes sociais e da facilidade de contacto.
O adepto que ameaça Sørloth e o eleitor que precisa de um inimigo político estão a fazer, semioticamente, a mesma coisa. O estádio passa a ser apenas um laboratório do que se passa na sociedade.
O que fazer, então. Elaboremos. Falemos articuladamente do que se passou. Aprendamos a viver com a frustração e a lidar com os sentimentos penosos que tal acarreta. A raiva destrutiva não deve ser apenas temporariamente contida; deve haver lugar a que o adepto frustrado – ou qualquer pessoa com tal sentimento – que se expresse, que o ponha em palavras. Gradualmente, à medida que o sentimento se apaziguar, haverá oportunidade para se pensar de um modo distinto e considerar outras possibilidades de interpretar o que se passou. E finalmente, de agir de outro modo.
Porque mesmo que seja feito de modo anónimo, como disse Bakhtin, não temos álibi na existência e haverá sempre alguém que sabe o que fez: o próprio autor da agressão. E essa sombra tenderá a ser muito, muito longa e amarga.
* Psicólogo clínico, psicoterapeuta e professor universitário