09/07 - 21:00
10/07 - 20:00
Esta semana, numa entrevista profunda sobre si mesmo e sobre como vê a nossa sociedade, o Dr. Adriano Moreira - Professor, Advogado, antigo Ministro e Conselheiro de Estado - tem, no alto dos seus 94 anos, uma simples mas contundente tirada que tudo remete para o futebol: "Temos de voltar a substituir o eu pelo nós". Não me saiu da cabeça esta ideia e a sua pertinência no futebol que temos hoje.
A dimensão táctica do jogo e do treino, fruto da evolução trazida pela "Periodização Táctica", tem vivido nos últimos 15 anos uma verdadeira revolução. A nível técnico, neste mesmo período, uma série de factores directos e indirectos têm acelerado a evolução da relação do futebolista com a bola - desde o peso, constituição e textura da mesma, passando pela qualidade das botas, chegando até ao acesso rápido e diário aos exemplos dos melhores executantes de todo o mundo, das suas jogadas e dos seus pormenores, vistos e revistos de todos os ângulos. Em termos físicos, a ciência traz hoje contributos e especialistas que levam aos mais ínfimos detalhes a preparação do atleta, na sua verdadeira e originária designação, passando por áreas como a recuperação física, prevenção e tratamento de lesões, entre muitas outras.
Mas, como não nos deixa esquecer o Prof. Manuel Sérgio, "não há remates - há homens e mulheres que rematam". Por isto, a dimensão psico-comportamental, que integra as áreas das competências psicológicas como a confiança, concentração e inteligência emocional, assentes na atitude e nos comportamentos do atleta, tem em si uma profunda dificuldade em ser isolada e medida de forma exacta, apesar de poder ser devidamente treinada.
Por tudo isto, só faz sentido olhar para o jogo numa perspectiva integradora de todas estas dimensões, uma vez que é jogado por homens e mulheres, diferentes e iguais em simultâneo, que constituem equipa. É o homem/mulher que se é, que se põe ao serviço do remate que se faz. As pessoas motivam-se com estímulos diferentes, têm expectativas diferentes, experiências diferentes. É aqui que entra a questão nuclear da liderança de uma equipa: como conseguir que pessoas diferentes, movidos pela busca do sucesso individual, se dediquem totalmente ao trabalho em equipa?
Se o factor humano do jogador cria uma variabilidade imensa no jogo, o factor colectivo multiplica-o. Uma equipa de futebol é, por isso, muito mais do que um conjunto de 11 jogadores, todos o sabemos. E sabemos também que 11 bons jogadores não fazem, necessariamente, uma grande equipa.
No trabalho que faço com equipas, desportivas e empresariais, faço por vezes esta pergunta: "O que é, afinal, uma equipa?" Há muitas e diversas respostas, com diferentes níveis de complexidade, mas normalmente centram-se nos seguintes aspectos: uma equipa é um conjunto de pessoas com um objectivo comum.
Correcto... contudo incompleto. Há um outro factor indispensável à compreensão do que é, verdadeiramente uma equipa. Senão vejamos: numa paragem de autocarro está um conjunto de pessoas com um objectivo comum - apanhar o autocarro. Isto faz deste grupo de pessoas uma equipa? Não!... e porquê? Porque, cada um por si, com o seu bilhete, limita-se a apanhar o autocarro e a sair onde bem entender. Uma equipa é muito mais que isto!
O factor, essencial para compreender uma equipa, é a interdependência. Não é a dependência excessiva de uns em função de outros, nem o sentimento de independência e superioridade que gera arrogância. É um equilíbrio, funcional e emocional, entre a capacidade de dar e receber, de ajudar e ser ajudado, de estar a montante e a jusante daquilo que é o resultado colectivo. Esta interdependência, e o seu difícil ponto de equilíbrio, é o que permite criar um verdadeiro sentido colectivo, um todo capaz de ser maior que a simples soma das suas partes.
Tony D'Amato, ex-treinador de Futebol Americano, disse um dia à sua equipa, "ou ganhamos como equipa, ou perdemos como indivíduos". A compreensão deste fenómeno, o verdadeiro espírito de equipa, vem - em sociedade bem como no futebol - da substituição do "eu" pelo "nós", da capacidade de encontrar no melhor da equipa o melhor de si mesmo, a satisfação dos objectivos individuais em sinergia com os colectivos, porque é em equipa que todos revelam o melhor de si mesmos.