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* Chefe de Redação
«Ao lado do manicómio, num campo baldio de Buenos Aires, uns rapazes louros estavam a dar uns chutos numa bola.
- Quem são? – perguntou um menino.
- Loucos – respondeu o pai. – Ingleses loucos.»
A preciosidade de Eduardo Galeno, alquimista uruguaio de letras e homens, resume a paixão dos vizinhos argentinos pelo futebol.
Nenhum outro povo, à exceção do brasileiro, teve a mesma argúcia ao retratá-la em contos, lendas e narrativas mais ou menos realistas.
Ao ver Martín Anselmi aos pulos na relva do Dragão - fato descomposto, camisa desabotoada, olhos apaixonados -, vejo o futebol de Galeano, mas também o de Valdano, o de Bielsa, o de Cortazar e – permitam-me a heresia – o futebol de D10S Maradona.
Ninguém, como os argentinos, é capaz de amar e perecer com a mesma sofreguidão, a mesma pertinácia. A obsessão pelo jogo, pelo clube do coração, é e sempre será inegociável.
Se Anselmi já foi capaz de dar algo ao FC Porto, diria que foi esta irredutibilidade. A recusa de negociar com a derrota, de ceder território ao fracasso, de se colocar nas mãos manipuladoras do captor.
É cedo para endeusar o sucessor de Vítor Bruno, tão cedo como perceber o que idealiza taticamente para estes novos tempos dos dragões.
Seguro, isso sim, é identificar o tal fogo que lhe arde no peito, o jogo dos ingleses loucos - um hospício de ideias radicais e pensamentos invulgares.
Arrisco a sentença: o treinador do FC Porto é melhor do que a equipa que treina.
Onde e como ocorrerá o ponto de intersecção? A reta nem sempre é o caminho mais rápido entre dois lugares.
Anselmi explicou com brilhantismo o que pensou para o Clássico e o que decidiu e sentiu ao longo do mesmo. Que nunca perca esta capacidade de olhar o jornalista e explicar, sem algemas, o que lhe vai no coração.
O Clássico, pelo menos a segunda parte, foi todo dele. Moveu as peças com coragem, alterou o que tinha de alterar, injetou vida e crença a partir do banco.
Sinais de um grande treinador. De um tipo diferente.
Antes de ser de Martín, o FC Porto-Sporting teve outro dono: Morten Hjulmand.
A pressão do FC Porto não identificou a placa giratória do futebol leonino, permitiu-lhe pensar e executar com tempo e espaço, e Hjulmand agarrou o jogo.
O rapaz louro descoberto por Ruben Amorim em Lecce não é um dos ingleses loucos, mas para ele os campos também não têm segredos. São baldios apátridas.
Até Anselmi reagir e perceber onde estava o ouro, Hjulmand provou perante 45 mil almas a minha tese: é o melhor futebolista do campeonato português, com a devida licença de Viktor Gyokeres.
Hjulmand, o viking de coração cheio, tem espaço para jogar e influenciar. A sua voz de comando é o megafone leonino, ordena e motiva, motiva e castiga.
Morten Hjulmand nos primeiros 45 minutos, Martín Anselmi daí em diante.
O Clássico foi todo deles.