A grande competição começa depois de amanhã
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    Luís Cirilo Carvalho
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    Luís Cirilo Carvalho

    Violinos e bombos

    2023/11/02
    E0
    "A Preto e Branco” é uma coluna de opinião que procurará reflectir sobre o futebol português em todas as suas vertentes, de uma forma frontal e sem tibiezas nem equívocos, traduzindo o pensamento em liberdade do seu autor sobre todas as questões que se proponha abordar.

    Foi Jaime Pacheco que, na sua primeira passagem pelo Vitória em finais dos anos noventa, celebrizou a expressão “quando não podes ganhar com violinos, ganhas com bombos”, querendo com isso significar que quando a equipa não conseguia ganhar dando espetáculo, ao menos que o fizesse com base no esforço, no arreganho e na entrega.

    Querendo com isso passar a mensagem de que o importante era ganhar.

    Tenho-me recordado frequentemente dessa frase de Jaime Pacheco.

    Porque tenho visto o Vitória ganhar muitos jogos, embora menos do que devia ao longo destes anos mais recentes, mas são muitas mais as vezes que os triunfos apareciam via bombos, porque pelos violinos isso não era nada frequente.

    E quando era pelos violinos isso significava muito mais através de rasgos individuais de alguns jogadores especialmente talentosos, como Ricardo Quaresma e Marcus Edwards, do que através de exibições coletivas que proporcionassem o tal espetáculo que agrada aos adeptos e leva os espectadores aos estádios.

    As coisas são o que são!

    E como é dos livros que, jogando-se bem, aumentam as hipóteses de vencer, não admira que uma equipa que tantas vezes precisava de vencer no esforço não conseguisse o número de triunfos que lhe permitissem alcançar objetivos que sempre foram os seus, mas dos quais andava cada vez mais arredada.

    E chegamos à presente época depois de, na anterior, a equipa ter cumprido os mínimos, apuramento para as competições europeias (Liga das Conferências) através de um sexto lugar no campeonato, atrás dos três do costume, do Braga e do... Arouca, mas sem brilho nem encantamento face a consecutivas exibições em que raramente se ouviu o som dos violinos, mas repetidamente o rufar dos bombos.

    Saíram jogadores que eram titulares ou perto disso ( André Amaro, Bamba e Anderson os mais relevantes) e, sem entrar agora em questões sobre se deviam ou não ter saído, e o preço pelo qual saíram, a verdade é que desfalcaram a equipa em setores importantes.

    Depois a eliminação face ao Celje, um clube modesto que em condições normais nunca eliminaria o Vitória, foi um trauma que abalou todo o clube e que levou a uma muito mal explicada saída de Moreno Teixeira após o primeiro jogo de campeonato, o que também não contribuiu, como é óbvio, para a sempre desejada e necessária estabilidade.

    E se tudo isto já era mau o pior ainda estava para vir.

    Porque depois de um período transitório em que a equipa foi orientada num jogo por João Aroso (que após esse jogo também saiu) e noutro por Douglas (embora com o treinador contratado já no banco como... delegado) assistiu-se ao anúncio de Paulo Turra como treinador, numa opção presidencial que exceto quem a fez ninguém mais terá entendido.

    Os resultados foram quatro jogos do campeonato que se saldaram por duas derrotas, um empate e um sofrido triunfo caseiro face ao Estoril, findo o qual se soube que Paulo Turra já não era treinador do clube, depois de estar em funções durante um mês e pouco no qual, para lá dos maus resultados do campeonato, ainda arranjou tempo para ser eliminado em casa pelo Tondela, da II divisão, numa eliminatória da Taça da Liga.

    Partiu Paulo Turra, sem que alguém assumisse a responsabilidade pelo insucesso de tão estranha contratação, e foi contratado Álvaro Pacheco, que encontrou uma equipa traumatizada pelos resultados, sem um fio de jogo que convencesse quem quer que seja, com uma pontuação que se devia muito mais ao esforço, empenho e dedicação dos jogadores do que a qualquer outra razão técnica ou diretiva. Em suma, uma equipa em que o rufar dos bombos era “música” única, porque violinos nunca foram ouvidos ou sequer pressentidos.

    O plantel, exceto a contratação de Clinton, que ainda não se estreou (nem sequer na equipa B), era exatamente o mesmo.

    E Álvaro Pacheco iniciou o seu trabalho.

    Logo em Famalicão, no seu primeiro jogo (triunfo por 3-1), não se viu a equipa dar espetáculo, nem isso era minimamente exigível, mas já se viu uma equipa na verdadeira aceção do termo, jogando um futebol consistente, mantendo o controlo do jogo e fazendo golos.

    No Algarve, perante o Moncarapachense para a Taça, num tarde de invernia e com uma arbitragem fraca, cumpriu o seu objetivo sem problemas de maior e conquistou o apuramento para a eliminatória seguinte.

    Face ao Chaves, aí sim, já soaram os violinos no D. Afonso Henriques com uma bela exibição, futebol de grande qualidade, muitos golos e uma equipa que ninguém diria que era a mesma que tinha passado meses a tocar bombo, tal a consistência e qualidade da sua prestação.

    Com Bruno Gaspar em grande plano (há quem lhe deva um pedido de desculpas pelo que dele disse quando estava lesionado), com Ricardo Mangas a confirmar ser um grande reforço, Jota Silva a dinamitar a defensiva adversária, Tomás Handel a empunhar a batuta de maestro e João Mendes a continuar a senda goleadora, a serem os que mais se destacaram numa equipa que jogou toda ela muito bem.

    E com a nuance importantíssima de o Vitória ter entrado em campo com dez portugueses e depois ainda ter utilizado mais três, numa aposta clara no futebolista nacional, que é o caminho certo para o sucesso desportivo e financeiro.

    Tal como uma andorinha não faz a primavera, também uma grande exibição não significa ter uma grande equipa.

    Há muito trabalho a fazer, há aspetos a melhorar, o aperfeiçoamento é uma tarefa diária de um grupo de trabalho no futebol profissional, como os jogadores e especialmente Álvaro Pacheco e a sua equipa técnica bem sabem.

    Mas há, claramente, aquela agradável sensação para os adeptos de que as coisas estão a ser bem feitas, há um rumo definido, todo o grupo sabe o quer e sabe para onde vai e a justificada esperança de cada vez se ouvirem mais os violinos e menos os bombos.

    E depois daquele péssimo início de época não era legítimo nem justo pedir mais nesta fase do campeonato.

    Em tempo: há ainda uma ou outra lacuna que em janeiro seria bom ser preenchida. Como há na equipa B jovens a mostrar que se pode contar com eles.

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