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* Chefe de Redação
Devíamos andar por setembro ou outubro de 2001. Marinho Peres fazia a segunda comissão de serviço no Belenenses, treinador de 55 anos e líder de um plantel de muitos e bons nomes.
Marco Aurélio e Pedro Henriques, César Peixoto e Tuck, Ricardo Sousa e Neca, Marcão e Jesús Seba.
Era só mais um dia de treinos no Restelo, mas um dia de nervos e pele de galinha para o imberbe repórter, emprestado por uns dias à redação lisboeta da saudosa Infordesporto.
E lá foi ele, bloco de notas e gravador em punho, bater à casa da Cruz de Cristo. Porta aberta, o sorriso e o abraço de seu Marinho, um dos grandes do nosso futebol nos anos 80 e 90, até esses tempos de arranque de século.
Aquecimento feito no balneário, outros jornalistas mais ambientados, conversa puxa conversa, um cafezinho para aqui e outro para ali. Marinho Peres de fato de treino azul, um homão grande e forte, «cê tá entendendo?» para aquele e «cê tá entendendo?» para o outro.
A expressão não mais me saiu da cabeça. Servia de interlúdio para o que se seguiria, normalmente mais uma observação espirituosa ou uma avaliação crítica a um dos seus próprios jogadores.
Note-se: tudo à frente de um grupo de jornalistas, de peito aberto e sempre em off.
«Vamos lá, malta, venham comigo.»
Marinho Peres à frente, uma mão cheia de repórteres atrás, e o campo de treinos era já ali. O treinador, antigo capitão do Brasil no Mundial 74, afastava-se por uns minutos, havia uma breve palestra e depois ali estava ele, sentado novamente no banco de suplentes.
A sessão de trabalho decorria, os adjuntos tratavam dos pormenores e Marinho só se levantava quando via algo de que não gostava.
«Ei, ei, não pode ser assim, pôxa. Cê tá entendendo?»
E ele voltava, falava, falava, sorria e até pedia conselhos ao pequeno bando da comunicação social. Portugal, Belém, ano 2001 da graça do senhor.
Marinho Peres partiu. Estive com ele uma só vez, nesse dia no Restelo, e confirmei as minhas suspeitas: aquele sorriso era demasiado bom para o nosso futebol.
O Vitória [de Guimarães] de Marinho foi uma das equipas mais espetaculares que vi, tal como foi o seu Belenenses vencedor da Taça de Portugal. Capitaneou o Brasil, jogou no Barcelona ao lado de Johan Cruyff e Paco Fortes, deixou um lastro de correção e simpatia no campeonato português.
Os finais dos anos 80, início dos 90, foram especialmente feios. Ganhar a qualquer custo era a expressão de ordem, a violência e a desorganização pairavam sobre as bancadas [cheias, é verdade], o comportamento de dirigentes e treinadores roçava o vandalismo.
E, depois, havia Marinho Peres. A gentileza, a serenidade, a pausa em dias de tempestade.
«Cê tá entendendo?», perguntava-nos, ao mesmo tempo que nos dizia que queria o jogador X a atacar mais pela direita, de forma a deixar espaço interior aos dois avançados.
Entendemos tudo, seu Marinho. Eu, pelo menos, cheguei de coração cheio à redação, mal refeito da emoção de tantas horas ao lado de um homem especial. Habituei-me mal.
Marinho Peres foi o lado bom do futebol português, em anos de especial agressividade. Precisávamos de muitos mais como ele. Até para aturar Sousa Cintra ele tinha paciência.
Bom descanso, mister.