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    Luís Filipe Silva
    Luís Filipe Silva
    Futebol de Capa e Batina
    Luís Filipe Silva

    Superliga da parvoíce

    2021/04/19
    E0
    "Futebol de Capa e Batina" é um espaço de opinião do advogado Luís Filipe Silva, onde este se propõe a discutir futebol, dando voz a perspectivas para além dos três clubes mais mediáticos, com particular destaque para a sua equipa do coração, a Académica de Coimbra.

    Foi recentemente anunciada a intenção de doze clubes fundarem uma Superliga europeia de clubes, com seis equipas inglesas, três espanholas e três italianas, que substituiria a atual Liga dos Campeões da UEFA.

    O óbvio escusamos de analisar em detalhe: estes clubes querem mais dinheiro, querem poder, distribuir menos receitas pelos clubes que consideram inferiores e querem o controlo na gestão da prova. Mas há muito mais a analisar além da questão financeira num desporto como este. Um dos pilares essenciais desta Superliga é o facto de estes clubes fundadores participarem sempre, sem qualquer hipótese de despromoção ou não qualificação, havendo apenas cinco lugares para clubes não fundadores.

    Porque se arrogam estes clubes a este estatuto?

    Arsenal, Chelsea e Tottenham têm menos Taças/Ligas dos Campeões do que Benfica e Porto, por exemplo. Dortmund e PSG, a juntarem-se a este grupo, também.

    Portanto, qual é o argumento, além do meramente comercial e financeiro?

    E que história, impacto no futebol ou real estatuto têm o Chelsea, o Manchester City ou o PSG? Que clubes eram antes do dinheiro estrangeiro que os catapultou para a atenção mediática?

    Estas equipas podem já competir entre si na Liga dos Campeões, desde que aconteça algo que não tem sido comum a todas elas: serem bem geridas e terem sucesso desportivo.

    O que querem é que os fundadores não fiquem de fora da maior competição de clubes só pelo facto de terem prestações miseráveis nos seus campeonatos internos – como tem acontecido nos últimos anos ao Arsenal, Manchester United e Tottenham. O que querem é não ficar de fora dos jogos decisivos da Liga dos Campeões pelo mero acaso de serem inferiores aos seus adversários, como tem acontecido com a Juventus, que, com ambições de lutar pelo título europeu, foi nos últimos três anos derrotada pelo Ajax, Lyon e Porto – equipas que desconsidera, mas que provaram ser melhores que esta no futebol praticado em campo.

    Este pressuposto é o contrário do futebol.

    É a antítese do que este desporto sempre foi. A razão para estes doze clubes terem a atenção, o mediatismo, os adeptos que têm é o facto deste ser um desporto onde qualquer um pode ganhar, onde o dinheiro não decide (melhor, não decidia) tudo.

    Temos assistido a um aumento do fosso entre os clubes mais ricos e todos os outros, fenómeno transversal a toda a Europa, – e Portugal não é exceção – tendo como consequência óbvia a perda de competitividade e o fatalismo das vitórias serem cada vez menos difíceis de adivinhar. Mas de vez em quando aparece um Ajax que elimina um Real Madrid e a Juventus na Liga dos Campeões, de vez em quando cresce um Leicester que vence a Premier League, para choque e admiração do mundo.

    É contra isso mesmo que estes clubes se manifestaram. É isto mesmo que eles não querem.

    Gary Neville, jogador e adepto fanático do Manchester United, disse que é preciso haver regulação independente para proteger o futebol de si mesmo. Mas disse também têm de ser retirados pontos e aplicadas coimas tremendas a estes clubes, para matar de uma vez esta ideia.

    É que a Superliga europeia aparece sempre que a UEFA vai rever a estrutura e os prémios financeiros da Liga dos Campeões. É um bluff que tem funcionado.

    Foi assim que a qualificação para a Liga dos Campeões passou de valer o mesmo dinheiro para todos os que entram, para ter prémios diferenciados para o mesmo facto: a mera qualificação.

    Foi assim que algumas Ligas passaram a ter quatro equipas com acesso à Liga dos Campeões. E agora já se discutia uma maneira de passarem a ser cinco.

    Nem sei se legalmente é possível estes clubes organizarem uma prova nestes termos. O poder de organizar competições de futebol está nas Federações nacionais, que depois se juntam em confederações continentais e estas últimas na FIFA, não nos clubes participantes.

    Mas seja como for, este desporto é do povo, vive na rua, naqueles que jogam descalços, nos que marcam golos em balizas improvisadas entre árvores, nos clubes de bairro que juntam a comunidade e integram jovens com o desporto, nos clubes históricos que defendem e elevam a sua vila ou cidade. Este desporto está a ser tomado e controlado pelo dinheiro e pelo poder dos que não amam o futebol e apenas se querem servir dele.

    Esta mentalidade dos eucaliptos até pode fazer crescer alguns, mas mata todos os outros e é altura de se deixar claro que basta. O pior que a UEFA poderia fazer era ceder a estes loucos.

    Como disse Gary Neville, penalizem-nos em força e penalizem-nos já.

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