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* Chefe de Redação
Um profissional não perde lucidez e conhecimento de uma época para a outra.
Ninguém sabe menos do que sabia, um ano depois de chegar a um novo local de trabalho.
Roger Schmidt não pode ser pior treinador em outubro de 2023 do que era há seis meses.
Ora, então como é que eu vejo um Benfica profundamente inconsequente e carregado de dúvidas, ao invés da equipa afirmativa e atraente da época 22/23?
Há explicações objetivas e outras menos óbvias. Comecemos pelas primeiras.
A baliza. O processo da saída de Vlachodimos foi infeliz, apressado e condicionado pelas declarações públicas de Schmidt. Não está em causa o valor de Trubin em abstrato, mas o contexto de desconfianças que o atirou para a baliza. Conclusão: a cada erro, como o cometido no golo do Casa Pia, logo alguém recuperará o nome do antecessor. Um dossier de insensibilidade e péssima gestão.
O lado direito da defesa. Gilberto saiu, João Victor foi recuperado ao Nantes não se sabe para quê, Alex Bah está lesionado e as respostas voltam a estar na polivalência de Fredrik Aursnes. O norueguês disfarça quase tudo, ao mesmo tempo que deixa de interpretar o papel principal no meio-campo, onde era fundamental no ajustes dos tempos da pressão alta das águias.
Grimaldo. O espanhol era um lateral raro, peça maior no processo ofensivo, e as alternativas têm sido dececionantes. Juan Bernat, cuja qualidade é indiscutível, está a 50 por cento do que pode ser; Jurasek é vertical, cruza bem, mas está uns patamares abaixo do agora lateral do Leverkusen. A abordagem ao passe de Beni no golo do Casa Pia é confrangedora, tanto no posicionamento como na reação técnica.
Meio-campo. Sem Tino, a águia é macia, recupera menos bolas, permite ao adversário constantes saídas pelo centro – o jogo no Estoril foi especialmente mau nesse aspeto. Com Tino, João Neves tem outra capacidade de saída, embora fique a perder noutros aspetos. Kokçu, a mais cara contratação de sempre, tem aparecido apenas em momentos. Insuficiente.
Ponta-de-lança. Arthur Cabral não está a mostrar condições mínimas para ser o ‘9’ do Benfica, Tengstedt não é deste filme e Petar Musa ainda não oferece o que Gonçalo Ramos oferecia, embora seja a melhor opção para o lugar.
As outras, agora.
Roger Schmidt. Sim, o treinador alemão está a ser um dos problemas deste Benfica.
Assumindo que teve participação ativa na construção do plantel, em sintonia com Rui Costa e Rui Pedro Braz, Schmidt não está a saber gerir o que tem em mãos. Mantém as virtudes da época anterior, mas está a ser desafiado num contexto distinto. E a não saber reagir.
Os problemas desportivos são evidentes, com exibições mais do que pobres tanto no campeonato como na Champions, e um discurso dececionante na sala de imprensa: não explica e não entusiasma.
. Afirmar que os jogos mais importantes são contra o FC Porto – imagino as paredes dos balneários dos dragões e do Sporting forradas com essas palavras – foi um tiro no pé;
. «Vamos esperar pelo momento em que seja treinador para saber como decidirá» - dizer isto a um jornalista, depois da gestão inexplicável feita na visita ao Estoril, surpreendeu-me negativamente. Não o imaginava a ter palavras tão azedas para quem o questionou corretamente.
. Acabar o jogo com o Casa Pia e não apresentar uma justificação, um pormenor técnico ou tático, uma leitura rica sobre o empate, pareceu-me uma comunicação la palissiana. Uma mão cheia de clichés e pensamentos básicos.
Deixei de ter certezas sobre Roger Schmidt. Já não sei se as pastilhas de sabedoria não passavam, afinal, de um placebo de açúcar. Não vejo nesta versão um homem meticuloso, obcecado pelo pormenor, maestro de régua, esquadro e bússola.
O Benfica está mal. Esse é o quadro clínico do paciente. Resta saber se a maleita é passageira ou terrivelmente crónica.
Roger tem andado sem Tino. Literal e metaforicamente.
PS: se os resultados na Europa e no campeonato não melhorarem, Rui Costa terá de se submeter às explicações que o adepto comum exige. Se não for à televisão do clube, e a um dos seus funcionários, ainda melhor.