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No futebol português há verdades incómodas que insistem em ser varridas para debaixo do tapete. Uma delas é simples, objetiva e amplamente reconhecida: historicamente, o Vitória SC é o quarto clube com maior impacto da força dos seus adeptos.
Não é opinião, é facto e os números confirmam-no — mais de 30 mil sócios — com bancadas cheias, um entusiasmo constante, uma dedicação incondicional, uma fidelidade quase militante e a rara recusa da bigamia clubística que prolifera como fenómeno incompreensível e crime amnistiado.
E aqui começa o problema.
A comunicação social desportiva portuguesa vive refém de uma dualidade de critérios escandalosa, promovendo sistematicamente apenas uns clubes e tratando todos os outros como figurantes. Mais grave ainda, quando essa lógica é reproduzida por órgãos públicos como a RTP e a Antena 1, financiados pelos impostos de todos os contribuintes, incluindo os adeptos que continuam a ser ignorados.
O futebol nacional mantém-se assim aprisionado num regime oligárquico, fechado sobre si próprio, que protege o status quo e impede, por todos os meios, a entrada de qualquer intruso na chamada «festa a três» — cada vez mais hermética, cada vez mais exclusiva, quase digna de uma reunião privada onde poucos decidem por muitos – ao estilo de Bilderberg.
Importa dizê-lo com frontalidade: também o Vitória tem responsabilidades neste processo.
As sucessivas direções — de Vítor Magalhães (2004-2007) até António Cardoso (desde 2022), passando por Emílio Macedo (2007-2012), Júlio Mendes (2012-2019), Miguel Lisboa (2019-2022) — falharam, ao longo de décadas, na construção de uma liderança mobilizadora capaz de agregar os restantes clubes da Liga Portugal a desafiar este modelo viciado. Mas convém não confundir causas com consequências.
A realidade económica da maioria dos clubes empurra os seus dirigentes para decisões de sobrevivência imediata, sacrificando qualquer visão estratégica que permita, a médio prazo, ganhar autonomia e força negocial.
O resultado está à vista: a troco de 2, 3 ou 4 milhões de euros — valores apresentados como grandes conquistas negociais — a esmagadora maioria dos clubes vendem os direitos televisivos que condenam os clubes à irrelevância competitiva. Como se fosse possível disputar uma liga onde alguns jogadores auferem, num único ano, o equivalente a todo esse encaixe financeiro.
Ainda mais revoltante é a naturalização de horários absurdos, impostos por interesses difusos e obscuros, quase sempre desalinhados com os interesses dos clubes e sempre em choque direto com a vontade dos sócios e adeptos. Tudo isto com a aparência de que os chamados «adeptos do sofá» são mais importantes do que os adeptos do estádio, como se o futebol pudesse sobreviver desligado da sua base popular, quando a maioria dos clubes da Liga Portugal não consegue reunir mais do que 2500 adeptos por jogo.
Dirigentes que transitam de clube em clube falam em «interesse do futebol» enquanto aceitam calendários que afastam famílias, jovens e trabalhadores dos estádios.
Quem escolhe jogar numa segunda-feira à noite?
Ninguém.
E mesmo à sexta-feira?
No limite, os que jogam em casa!
Quem defende jogos depois das 20 horas, em pleno inverno, com chuva e frio, longe das tardes de sábado e domingo que sempre definiram o futebol popular?
Quem dos órgãos da Liga já esperou 45 minutos após o apito final, retido num estádio por «motivos de segurança»?
E quem acha aceitável que um adepto só possa sair do recinto depois das 23 horas, regressando a casa de madrugada, sabendo que no dia seguinte a escola ou o trabalho começam cedo?
Que tipo de futebol é este que exige sacrifícios aos seus adeptos, mas não lhes concede qualquer respeito?
A força da bancada VITÓRIA continua lá.
O que desapareceu foi a vergonha de a ignorar.