09/07 - 21:00
10/07 - 20:00
Em Portugal percebe-se que o campeonato está a entrar na sua fase decisiva em termos de titulo não pela qualidade do futebol, pela emoção das jornadas, pelas pontuações aproximadas entre candidatos mas pelo nível do ruído que dirigentes, treinadores e paineleiros afetos vão fazendo dias após dia, semana após semana.
Em suma é pela “peixeirada” que se percebe que estamos no tempo das decisões.
E a “peixeirada”, monotonamente, centra-se sempre em volta das questões da arbitragem, com os responsáveis dos clubes e os paineleiros televisivos que lhes tão afetos a debaterem furiosamente, cada vez mais furiosamente, as atuações e os eventuais erros dos trios de arbitragem, sempre numa inamovível lógica de teorias da conspiração que favorecem os outros e os deixam a eles de fora.
Sim, porque a questão é mesmo essa.
Dos responsáveis dos clubes aos paineleiros televisivos, passando por alguns supostos especialistas de arbitragem que opinam em jornais e não só, a questão fundamental não é darem tranquilidade aos árbitros para fazerem o seu trabalho, nem lutarem para que o nível de polémica em volta da arbitragem diminua para aquilo que é normal noutros países mas não em Portugal. Não. A única preocupação que existe é que algum dos outros não seja mais beneficiado, mais levado ao colo, mais favorecido pelo “sistema” do que o seu próprio clube.
Porque quanto à verdade desportiva das competições a preocupação é zero. E tudo que podia contribuir para essa verdade desportiva, mas que mexa com os seus absurdos privilégios, é algo que tem de ser ferozmente combatido porque a preocupação primeira é ganhar, pouco importando como se ganha ou o que se atropela para poder ganhar.
É por isso, precisamente por isso, que não se vê (nem nunca se viu) dirigentes de Benfica, FC Porto e Sporting preocupados com questões tão elementares como a independência dos árbitros, a negociação centralizada dos direitos televisivos (única medida que permitiria dar algum equilíbrio aos campeonatos), a realização de sorteios do campeonato em pé de igualdade para todos, a alteração ao absurdo regulamento da taça da Liga ou órgãos disciplinares fracos com os fortes e fortes com os fracos.
Para eles está bem assim. Desde que a falta de verdade desportiva das competições favoreça o seu primado, continue a garantir que só três podem ser campeões, faça dos outros capachos dos seus desejos e caprichos, nada há a mudar e, pelo contrário, tudo deve ser mantido.
Desde que se assegure o “pequeno” pormenor de que que cada um dos outros não é mais favorecido que ele próprio. E, de preferência, até menos como é evidente.
Só isso explica que neste país, com uma cultura desportiva pré-histórica, se gastem centenas de hora semanais nas televisões a discutir Benfica, FC Porto e Sporting, a polemizar arbitragens, a fazer de eleições num clube um assunto de interesse nacional com inúmeros diretos televisivos e notícias de telejornal, se interrompa um direto com o Presidente da República a discursar para meter o direto da conferência de imprensa do treinador do Benfica, se faça do futebol desses três clubes assunto diário de telejornais e não sei quantos mais programas.
É pela simples razão de que num país em que se consome relativamente pouco peixe, embora com a maior zona económica exclusiva (em termos de mar) de toda a União Europeia, haja milhões que consomem avidamente a “peixeirada” de todos os dias. Todos os dias sem exceção!
Dir-me-ão os leitores que todos os outros clubes podiam, e deviam, unir-se contra este estado de coisas e exigir medidas de fundo porque SLB/FCP/SCP não jogam sozinhos e se o “status quo” não fosse alterado havia sempre medidas de força, incluindo suspensão dos campeonatos e taças, que podiam ser tomadas como fator de pressão. A exemplo, aliás, do que se assistiu na vizinha Espanha, em que Barcelona e Real Madrid, perante uma posição de força de todos os outros, tiveram de aceitar sentarem-se à mesa e negociarem questões de fundo como os direitos televisivos.
Mas Portugal não é Espanha. E os clubes portugueses estão condicionados por três fatores:
Um é falta de coragem dos seus dirigentes para afrontarem os donos disto tudo.
Outra é o facto de todos os clubes, ou quase, estarem condicionados pelo facto de receberem jogadores emprestados e por isso não poderem incorrer no desagrado de quem empresta.
A outra, que remete para a tal cultura desportiva pré-histórica, é que, na maioria dos clubes, os seus dirigentes têm uma “simpatiazinha” por Benfica, FC Porto ou Sporting, o que os leva por vezes a parecerem mais preocupados com os problemas do seu segundo (quando não primeiro…) clube do que com aquele para que foram eleitos com a missão de defenderem os seus interesses.
É triste, mas é verdade. E por isso a “peixeirada” continua, não passa de moda, retrata a (triste) verdade do nosso futebol. E dos nossos “peixeiros”…
P.S.: Manda a verdade reconhecer que Rui Vitória e Nuno Espírito Santo têm mantido os níveis de polémica dentro de limites perfeitamente aceitáveis. Nisso são bem melhores que alguns dos seus dirigentes e paineleiros afetos. Honra lhes seja feita.