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1) Ontem
Guardo uma memória muito vívida: uma cozinha acanhada, num 1o andar direito, na Brandoa. A minha avó, num dos seus eternos vestidos de manga curta e bainha abaixo do joelho - que curiosamente, ou talvez nem tanto, descobri há uns anos que são muitíssimo populares no Sri Lanca - cantava o refrão de uma música antiquíssima: “Se a seleção trabalha / como eu quero / agora é que não falha / nove a zero”. Foi desta, vovó!
Estes anos todos depois, discuti ontem com os meus parceiros de crime em A Culpa é do Cavani o desprendimento que vamos sentindo pelos jogos da equipa de uns quantos de nós. De vós, muito provavelmente.
Eu bem sei que os agentes mimimimi e os interesses rebéubéu e o centralismo mais a clubite pardais ao ninho. Cada um saberá dos seus motivos e eu acho isso lindamente e tudo e tudo. Pessoalmente, creio que se trata de uma questão de luta de classes. Pumbas, nem mais! Agora digam que estavam mesmo à espera de comentário político e social. Poijé, bebés, esta coluna é assim tão espetacular, sim senhor.
Naquele tempo, a seleção qualificar-se para uma fase final era motivo para feriado nacional e nem sequer se sonhava com o Ederzito. Para a brilhante geração de 84 dar cabo da paciência à super favorita França, de Platini, Tigana, Giresse et al, tínhamos que ganhar à máquina trituradora da URSS; para irmos envergonhar o país em Saltillo, com 1 selecionador e 3 assistentes, 1 por cada clube que mandava, era preciso o milagre de São Carlos Manuel; e toda a classe média europeia era olhada como superior. Portanto, todos os jogos eram uma dúvida e boa parte deles eram uma prece. E a malta ia à missa, ao terreiro, fazia macumba e confiava no candomblé. Para além de que pouco mais futebol havia na TV, para além da seleção.
2) Hoje
Agora não. Por estes dias, já não lamentamos o desperdício de gerações que nunca puderam exibir-se nos maiores palcos europeus e mundiais. Hoje, Portugal não estar numa fase final seria a grande surpresa, ao contrário do tempo em que éramos o inesperado concorrente.
Por outro lado, enfiámos 9 ao Luxemburgo, depois de ganhar ao Liechtenstein, à Bósnia, à Islândia, à Eslováquia. O papão somos nós e é a isso que já nos habituámos.
Ser apurado via play off é quase uma vergonha, ser campeão com muitos empates é motivo de chacota e cair na fase de grupos tem que dar despedimento imediato. E muito bem!
Somos melhores, mesmo que a nostalgia me esteja a pedir para escrever Fernando Gomes (não é esse, é o que sabia jogar futebol), Chalana, Jordão. Resisto-lhe. Quando terminar aqui, vou desfolhar a minha caderneta “Os Génios da Bola”, com caricaturas do mestre Francisco Zambujal, e já mato as saudades. Por agora, rendo-me ao facto de o meu desprendimento pelos 9 da seleção derivar, em parte, do facto de disputarmos muitos jogos “menores”, nos quais a nossa “vida” não está na linha de perigo. Um belo problema do primeiro mundo. Afinal, era a isto que aspirávamos e, na maior parte das coisas das nossas verdadeiras vidas, ainda aspiramos. Já somos da burguesia da bola, mas ainda não passámos da segunda classe no resto.
3) Amanhã
Conforme me lembraram, novamente em A Culpa é do Cavani, a gente também vê o FCP vs Unidos do Cicloturismo da Moita. E nunca nos esquecemos quando vão ser! Só que, por muito que se tenha estabelecido a moda de ter um plantel na seleção, de convocar jogadores por precisarem de colinho ou de dar preferência a quem costuma ir mais vezes, o clube é outra loiça.
A seleção não é o cônjuge. Não é cama e mesa e contas para pagar e alento diário para a puta da vida, tantas vezes de miséria, que se leva. A seleção é jantar de Natal, almoço de Páscoa. A gente gosta e goza e até espera um ano por isso, mas tira-se uma foto e já está, passou-se. O clube é a parceira, a seleção é a tia rica que podia fazer sempre muito mais por nós, a avarenta! Mas, no fim do dia, a gente não se esquece dos presentes que vai distribuindo pelos petizes e guarda-lhe carinho. Só não lhe telefona todos os dias e raramente nos lembramos do seu aniversário.
No que me diz respeito, vivo bem assim. Não morrendo de sofrimentos ou euforias, nem entrando no comboio do “não quero saber”, “não é a minha seleção”, “não me representa”. Tudo treta, conforme se vê pelas eternas discussões sobre os motivos pelos quais os da minha cor é que deviam lá estar todos. Desconfio que amanhã seremos melhores. Nós e a seleção.
PS. Se isto fosse uma jornada do Cavani, agora entrava o José Cid.