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    Carlos Daniel
    O Melhor dos Jogos
    Carlos Daniel

    Não conta só «meter a bola na baliza»

    2025/03/03
    E1
    Este espaço, do jornalista Carlos Daniel, pretende ser de abordagem e reflexão sobre o futebol no que o jogo tem de melhor. Quinzenalmente, uma equipa será objeto de análise, com notas concretas que acrescentam atualidade.

    «O que conta é meter a bola lá dentro», ouvimos tantas vezes, a bola na baliza, fazer golo, chega a parecer que no futebol mais nada interessa. Mas é um erro, porque o «como» conta, o como se lá chega, perto da baliza, conta e muito. E há um pecado original que ajuda a perceber o erro de análise, por indiscutível que pareça a ideia feita: se desprezamos a forma como chegamos ao golo, teremos também dificuldade em entender a razão pela qual, tantas vezes, não chegamos. E aí queixamo-nos da sorte, ou do árbitro, no mínimo da muito gasta «falta de eficácia», que explica quase tudo e, tantas vezes, coisa nenhuma.

    No fundo é sempre a discussão sobre o processo antes do resultado. Ou vice-versa. Sérgio Conceição deu para o peditório, quando chegou a Milão a prometer «bolas dentro da baliza», ao mesmo tempo que desprezava o tiki-taka, num aparente remoque ao antecessor, Paulo Fonseca, cujo trabalho olimpicamente ignorou. Agora, que o Milan está pior do que estava antes, a despeito de um plantel bem reforçado em janeiro, vale a pena lembrar de novo que antes da «bola na baliza» há a discussão sobre o modo de a levar até lá. Pode haver razões invisíveis para o insucesso, mas a equipa tinha de jogar bem melhor. O processo conta e não é pouco.

    Rúben Amorim tem um processo que pode funcionar, ninguém em Portugal duvida disso, assente numa ideia (modelo de jogo) que ele enriqueceu com o passar dos anos e numa estrutura (sistema) que claramente prefere. O problema é que em Alvalade deixou um plantel reforçado que encaixava nas suas ideias e em Manchester encontrou um plantel enfraquecido onde tenta fazer com que as suas ideias encaixem. Desenvolver o modelo está transformado numa via-sacra, o que se agrava com a competitividade extrema de uma Liga onde nunca surge um Boavista ou Farense (escolho os últimos da tabela, com respeito) para facilitar a inversão do ciclo anímico, que também conta muito.

    Frederico Varandas já o admitiu e Rui Borges defende-se agora, acentuando a evidência: o plantel do Sporting foi desenhado para Amorim e não para ele. Nem para ele nem para João Pereira, já agora, que tão destratado foi. E isto conduz a uma crítica óbvia, para mais num clube com o bicampeonato no horizonte: se o treinador tinha ideias diferentes, o mercado de janeiro tinha de ter sido diferente, na necessidade de mais um médio centro, de um outro lateral e de um avançado versátil que pudesse acrescentar mesmo (ou seja, melhor do que Biel).

    Acertar em Rui Silva foi curto e deixou Rui Borges ainda mais exposto à inusitada onda de lesões. As ausências atenuam, neste caso, a censura quanto à falta de evolução de um processo de jogo, ao ponto de o próprio Rui Borges, com desconforto evidente, afirmar que a equipa está longe da ideia de jogo dele. Está sobretudo longe de uma boa ideia de jogo. E não é fácil imaginar um campeão neste contexto.

    No futebol, no entanto, é possível ganhar com boas ideias, ideias menos boas e até na ausência delas, se os melhores jogadores estiverem todos do mesmo lado. Ainda assim, o sucesso estará sempre mais perto se estiver bem identificado o destino – o modelo que se busca – e antecipados os caminhos que a ele conduzem - o processo de treino/jogo.

    Porque há processos mais simples e mais complexos, mais rudimentares ou inovadores, audazes ou contidos, o que não faz sentido é que o resultado se suponha anterior a ele. O resultado é como o golo, surge no fim, como consequência. Meter bolas na baliza todos querem. A questão é mesmo o «como».

    Comentários

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    Motivo:
    zirel 06-03-2025 12:14
    Exato
    Eu digo sempre que futebol não é matemática e sou muito contra esta ideia das "bolas dentro da baliza" porque há muito mais para além da bola entrar na baliza.

    Há muita gente que se manifesta contra as vitórias morais, que são um sinal de fraqueza porque os vencedores só ficam satisfeitos se vencerem.

    Outra expressão é "as finais não se jogam, ganham-se" que é uma outra forma de dizer que só conta ganhar e as bolas que entram.

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