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O que sente o adepto de um clube que poucos troféus ganha? De onde lhe vem a fé, a aceitação do sofrimento, o conformismo pelo golo sofrido, a postura quase trágica e reflexiva na bancada?
De onde lhe vem o desejo de correr atrás daquelas camisolas, daquele emblema, domingo após domingo, a troco de… nada?
Não existe amor mais puro do que esta gente pelo seu clube. A abnegação é comovente, tocante, muitas vezes exigente até do ponto de vista financeiro.
A fidelidade do homem/mulher na bancada, cachecol ao alto, garganta cansada, o filho pela mão. O homem/mulher que não espera nada, mas sofre tudo. Diria mesmo que essa paixão, essa osmose devota, se mede em gramas de sofrimento.
‘Quanto mais perdes, mais eu gosto de ti’, irrebatível filosofia de pais e filhos, avôs e netos, irredutíveis resistentes neste campo minado pela ditadura dos ‘três grandes’.
Penso neles ao assistir, sentido, à celebração do povo de Guimarães na madrugada do último domingo. Aquela população pegou na cidade, na sua cidade, ao colo e passeou-a entre ‘vivas’ e ‘urras’, para todo o país a ver e aplaudir.
Guimarães é, há muitas décadas, a salvação da classe média do futebol lusitano.
Por esta maravilhosa cegueira apaixonada pelo seu Vitória, pela capacidade granítica de resistir à erosão das entradas e saídas, da incompetência de alguns dos seus dirigentes, da asfixia provocada por um mercado voltado e vocacionado para os que mais vendem e faturam.
O Vitória Sport Clube é a extensão da alma vimaranense, é a defesa da forma de vida da Cidade-Berço, uma muralha inegociável diante do canto das sereias da Luz, do Dragão e de Alvalade, é uma procissão identitária absolutamente maravilhosa.
Como é que uma instituição tão bela, tão atraente, ganha tão poucos títulos? O que lhe falta para estar, pelo menos, constantemente na classe média-alta e a ombrear com o SC Braga?
Não possuo as respostas certas, a miraculosa solução, o elixir da eterna brancura vitoriana, mas as pistas estão todas lá.
Se há adeptos (média de 18.075 espetadores/jogo), se há um estádio bom e exemplarmente localizado no centro da cidade, se há uma academia a formar gente de qualidade (Miguel Maga, João Mendes, Diogo Sousa, Miguel Nogueira e Gonçalo Nogueira na equipa A), se há uma comunhão de ideias ótima entre a presidência de António Miguel Cardoso e a equipa técnica de Luís Pinto, o que falta ao Vitória SC?
Deixo duas possíveis explicações.
1. Infraestruturas para o trabalho da formação e da equipa A: o centro de treino tem condições razoáveis, mas já é antigo (1997) e perde em todas as comparações para a casa de trabalho do vizinho SC Braga – isto faz com que os arsenalistas tenham mais robustez na identificação de talento e a capacidade de desviar pérolas vitorianas (Diego Rodrigues mudou-se de Guimarães para Braga aos 15 anos)
2. Solidez e previsibilidade financeira: se o SC Braga tem a capacidade de segurar Ricardo Horta anos a fio e vende ativos por somas altíssimas (Vitinha, Roger e Trincão por mais de 30 milhões), o Vitória vê-se obrigado a reformular constantemente o plantel (Bruno Varela, Borevkovic, Tiago Silva, Nuno Santos, João Mendes e Handel saíram…) e a ceder atletas de grande valia por verbas mais acessíveis (os 20 milhões de Tapsoba para Leverkusen são o recorde)
Basta juntar o ponto 1 ao ponto 2 para pressentir esta maior instabilidade de resultados do Vitória, quando colocado ao lado do vizinho derrotado na final de Leiria.
Como se atenua essas distâncias? Com planeamento desportivo (leia-se acerto na escolha de treinadores e jogadores), construção de uma academia moderna e atraente e a maior estabilidade possível nos planteis das equipas A e B.
Não é utópico pedir em Guimarães réplicas das inesquecíveis equipas de Marinho Peres e Paulo Autuori (o fiel N’Dinga e demais zairenses, o ‘matador’ Paulinho Cascavel, o velocista Roldão, o cerebral Caio Júnior, o genial Ademir Alcântara) ou de Jaime Pacheco (a sociedade do craque Paneira com José Carlos, Quim Berto, Soderstrom, Zahovic e Capucho), mas para isso não basta ter na bancada os mais fiéis, os que vivem cada jogo como se o resultado fosse uma sentença fatal.
Parabéns ao Vitória SC e a todos os vitorianos pela Taça da Liga. Pelo bem do futebol português, e pelo próprio Jornalismo da especialidade, desejo genuinamente que este não seja um troféu episódico e que o próximo não demore 13 anos a chegar ao Berço.
PS: sem uma classe média saudável, uma sociedade encolhe-se e não evolui. O mesmo princípio aplica-se ao nosso futebol. Se os três maiores não percebem a necessidade de haver mais Vitórias e mais Bragas – as saudades que tenho de ver na I Liga o Bonfim, os Barreiros, o Calhabé, o Restelo, o Municipal da Póvoa e já o Bessa -, então não passaremos desta parvónia que adula gigantes e ignora davides.
* Diretor-Adjunto de Informação