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    Pedro Jorge da Cunha
    Campo Pelado
    Pedro Jorge da Cunha

    Boavista: um crime

    2023/12/12
    «Campo Pelado» é o espaço de opinião do jornalista Pedro Jorge da Cunha. Uma homenagem ao futebol mais puro, mais natural, onde o prazer da camaradagem é a única voz de comando. «Campo Pelado».

    * Chefe de Redação

    A demissão de Petit é mais um dedo amputado ao Boavista. Os anéis há muito se foram, surripiados em processos mais ou menos sujos, e do Boavistão de 2001 resta o estádio, o povo, a história e o emblema.  

    É por eles, por culpa deles, das gentes do meu bairro da Boavista e limítrofes, que o Bessa ainda respira. Fosse um outro emblema, de menor pujança social, e estaríamos nesta altura a carpir mágoas sobre um cadáver de outros tempos. 

    Posto isto, é fundamental elaborar o meu auto de queixa.

    Manuel Barbosa e Alfredo, Casaca e Queiró, Paulo Sousa e Rui Bento

    Os últimos 20 anos do Boavista Futebol Clube são um crime por deslindar. Não há um só autor, mas bastos. Alguns morais, outros materiais, em determinadas situações por dolo, noutras por negligência. 

    Em cinco anos - 2001 a 2006 -, o emblema passou de quarto grande (e força motriz do futebol português, até na Europa) a pária. Por erros das suas direções e por decisões estrambólicas dos mecanismos de Justiça do nosso mundo da bola. 

    Um investimento desajustado no estádio, sem garantias estabelecidas e juros astronómicos nos empréstimos concedidos, mexeram com a justeza dos cofres. E depois veio o Apito Dourado, a queda na escuridão competitiva e a falta de tudo. Sobretudo de pão e de juízo. 

    Mário João e Erwin Sanchez, Ion Timofte e Jorge Couto, Jaime Alves e Martelinho

    Cresci rodeado de grandes boavisteiros. Talvez por isso, e por ter frequentado o Bessa regularmente, perceba melhor o gigantismo da instituição. Clube honrado, de contas certíssimas e nomes superlativos, fortaleza tantas vezes inexpugnável para os visitantes. 

    O crime prosseguiu. Até um burlão foi detido à porta do estádio, após vender o canto da sereia a uma direção incapaz de nadar nestes mundos. As dívidas fizeram o resto, processos e acordos incumpridos, com o Estado e privados, uma sucessão de malignidade e imprudência raras vezes vistas neste cantinho às vezes tão sossegado. 

    Corrigido o erro da despromoção administrativa, como se fosse o Boavista o ator principal de tantos filmes de terror, o senhor Manuel do Laço e a dona Fernanda voltaram a ter jogos de primeira na sua casa. 

    Frederico e Martelinho, Artur e Litos, Phil Walker e Pedro Barny

    Primeiro num sintético, mais tarde na relva dos clubes a sério. Clubes como o Boavista. Apesar desta respiração boca a boca e do bater do coração, o velho fidalgo portuense tem parecido sempre um boxeur derrotado pelo tempo. 

    Cansado, farto de combates sem sentido, mais feliz a evocar glórias passadas do que desafios presentes. 

    Os milhões de Gerard prometiam a cura imediata. Uma injeção de adrenalina e delírio nas veias corroídas do centurião de tantas batalhas.

    Mas um saco cheio de dinheiro deve conhecer o seu destino, para onde vai e como vai, não basta despejá-lo numa mesa e celebrar a lotaria mágica. Os investimentos foram errados, contraproducentes e não obedeceram a uma lógica básica de gestão. 

    Moinhos e Nelo, Tavares e Ricky, Marlon Brandão e Nelson Bertolazzi

    Passo 1: pagar dívidas e estabelecer acordos sérios com os credores

    Passo 2: assegurar o pagamento de salários a todos os funcionários, sem falhas

    Passo 3: garantir a liquidez da gestão corrente, ter mais receitas do que despesas

    Passo 4: investir racionalmente na equipa de futebol profissional - só, e mesmo só, quando todos os anteriores pressupostos estivessem assegurados. 

    Basta lembrar os nomes de Adil Rami, Chidozie, Alberth Elis ou Reggie Cannon para atestar a inversão de prioridades. Demasiado caros, todos, para uma casa sem os essenciais materiais de subsistência. 

    Milhões geridos sem sensatez são mais perigosos do que tostões bem contados. 

    Ao Boavista já não basta gritar bem alto o nome. A instituição enfrenta mais uma prova de sobrevivência, por continuar a não ter quem a saiba cuidar. 

    Petit encarnou o papel do guardador de boavisteiros. Foi muito mais do que um treinador, foi guru, messias, líder espiritual e desportivo. 

    Este crime não é um mistério. Insistem em fazer mal ao Boavista, disparam promessas utópicas e falham no mais básico: decência e conhecimento. Mais cedo ou mais tarde, os responsáveis responderão pela sórdida incompetência.

    PS 1: nos dias 18 e 27, a SAD terá assembleias gerais - a primeira para aprovação/reprovação das contas e a segunda para nomeação dos novos administradores da SAD. Duas boas oportunidades para provar a grandeza do decano emblema portuense, a quem só a fidelidade dos que o amam vai deitando a mão. 

    PS 2: esta quarta-feira à noite convido-vos a acompanhar as reflexões do Rui Pereira, comentador do Boavista no 4ª à Grande do zerozero. Fossem todos como o Rui e o Boavista seria uma avenida do pensamento e não um labirinto. 

    PS 3: Petit, apaixonado boavisteiro, foi até ao limite. Suportou o impossível em nome do amor pelo Boavista e amparado na crença de fazer algo grande. E fez. O que Petit fez torna-o num dos mais interessantes treinadores do nosso país. Merece quem o trate bem. 

    Comentários

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    Motivo:
    p120571 17-12-2023 13:12
    p120571@gmail. com
    Não sou do Boavista mas. . . e apesar de nunca ter admirado o major, nem o seu filho. . . sempre admirei o clube das "camisolas esquisitas". Fazia tropa no Porto, quando o Boavista eliminou o Inter.
    Como sportinguista, na minha juventude, sabia bem que o jogo mais difícil de ganhar era no velhinho estádio do Bessa. . . foram muitos anos sem saltar aquele muro! Era mau? Talvez. . . E bonito? Também, porque isso alimentava o meu sonho de ver um Boavista, Setúbal, Belenense...
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    brunorafael568 16-12-2023 06:24
    Vender, vender, vender
    Obrigado pela partilha.
    Gostaria de acrescentar apenas que o cenário poderia ser bem diferente caso existisse a venda no início da época do norte-americano reggie cannon que saiu alegando salários em atraso assinando mais tarde pelo QPR (Championship).
    De referir ainda alguns talentos da equipa axadrezada::Bozenik, Tiago Morais, Makouta,
    Pérez, Pedro malheiro,
    Chidozie e por último o Onyemaechi tudo atletas com elevado valor de mercado.
    Boas festas 🎄
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    ra1620 15-12-2023 22:29
    Mitificar jogadores banais
    como alguns dos citados, que mesmo na sua época, não eram mais que medianos, não é credível nem sério.
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    Gaby_ 12-12-2023 19:51
    Boavista*
    enganei-me no título lol
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    Gaby_ 12-12-2023 19:49
    Bosvista
    Que ironia, acabei de ver notícia do Petit a seguir a um anúncio da Rádio Popular.
    Grande Major! Lembrei-me dele.
    Presidentes de sucesso sempre ligados ao ramo dos electrodomésticos.
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    fred2805 12-12-2023 19:39
    Editado a 2023-12-12 00:00
    Pedro Jorge da cunha
    O crime é o senhor ser jornalista. meter que um clube vive por culpa de pessoas é mesmo ser um grande manco. um clube vive gracas a pessoas e nao por culpa.
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    f3rvedor 12-12-2023 18:33
    Como amante do futebol
    evidentemente foco-me nos jogos (infelizmente muito poucos) que posso ver.

    As questões das governanças deixo-as para quem sabe governar.

    É muito fácil vir com verdades de la palisse depois do consumado, apanágio célebre dos comentaristas, como é o caso.

    É tão fácil louvar e criticar o evidente.

    Mas para que as criticas (ou raros louvores) surjam, é preciso quem tome decisões e, isso, nem sempre é tão fácil como ...
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    reginacosta 12-12-2023 17:57
    Pedro Jorge da Cunha
    Obrigada por este texto. Tudo tão verdade. . . Infelizmente.
    Espero e tenho fé que aconteça um milagre. Alguém que ajude o clube a limpar esta sujeira toda. De uma vez por todas.
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    mitchmanu 12-12-2023 17:18
    Verdades como punhais
    Belíssimo texto, análise simples e directa ao assunto. Obrigado pelas palavras.
    Num clube envolto em problemas, só quem não tem nada a perder se aventura no pântano. Os competentes acabam por nunca ir parar onde são mais necessários.
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    manueldesousa 12-12-2023 17:17
    Pedro Cunha
    Belo e FUNDAMENTADO artigo, parabéns.
    Saudações FARENSES e que o Boavista ultrapasse depressa esta fase.
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