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Os 20 minutos de Gonçalo Paciência em Alvalade são um seminário sobre a arte perdida do ponta-de-lança perfeito. Uma masterclass.
Ludibriou almas de verde e branco, desenhou dribles entre densas florestas de pernas, rematou de pé esquerdo e de pé direito - com uma colocação de geómetra – para a baliza do aturdido Rui Silva.
Foi um golo, podiam ter sido dois, mas foi sobretudo a ressurreição de um avançado que julgávamos esquecido pelo futebol português.
Há uns anos, li um artigo inspiradíssimo sobre Zlatan Ibrahimovic. Lembrei-me dele agora, ao escrever sobre Gonçalo. O autor, cujo nome me escapa, defendia que o sueco executava no relvado «improvisações de jazz» e movimentos «inexistentes no mundo material».
Gonçalo é isto. Ainda é isto. Classe e desaforo, bailarino e gangster, delicado e implacável. A bola revela-lhe segredos, confidências, e o atacante do Santa Clara abraça-a como poucos abraçam. São cúmplices, principalmente nas áreas.
Aos 31 anos, e em condições normais, o senhor Paciência deveria estar por estes dias a preparar-se para jogar o Mundial de 2026. Não está. Longe disso, na verdade. Por culpas próprias, certamente, e uma intolerável série de azares.
Em junho de 2024, numa longa entrevista ao zerozero, o avançado abordou esses ups and downs, como se fossem mais uma bola perdida na área. Fez a receção, ganhou espaço e arriscou o pontapé.
Inteligente, instruído, Gonçalo assumiu nessa conversa a falta «de consistência e continuidade» e lamentou a ausência na lista final de Portugal para o Euro24. Falou em alguma «indecisão» em momentos-chave e em opções de carreira discutíveis.
Faço aqui o papel de advogado de defesa. Imaginem-se a suportar cinco (!) graves lesões nos ligamentos dos joelhos e dois problemas assustadores do foro cardíaco - felizmente ultrapassados.
Muitos teriam desistido. Gonçalo optou por persistir.
Portista assumido, apaixonado pelo emblema da Invicta, celebrou o título de 2018 e saiu logo a seguir para Frankfurt. Sérgio Conceição, já se sabe, tem adoração por avançados de outro estilo. Tudo legítimo.
No Eintracht (20 golos em 86 jogos), tornou-se figura de culto, fez golos decisivos e foi eleito um dos líderes do balneário. Lá pelo meio, um empréstimo envenenado ao gigante Schalke 04 e uma descida de divisão a macular-lhe o CV.
O tal azar de que falo. Quem adivinharia, ao mudar-se para um dos grandes da Bundesliga, que teria de lidar com uma despromoção?
Nos últimos anos, maduro e com a vida familiar estabilizada, a faceta de pioneiro levou-o a experimentar o Japão e o Brasil para, conscientemente, se afastar da exigência tantas vezes insana da elite europeia. Divertiu-se, adquiriu novos mundos, foi fazendo golos.
Gonçalo Paciência voltou livre. E voltou, sete anos e meio depois, a fazer golos em Portugal. Um ao Benfica, dois ao Sporting (um anulado), e provavelmente mais alguns até ao final da época.
O que se seguirá?
Em 1995, ainda Gonçalo era um bebé, vi no Fantasporto um dos filmes da minha vida. Seven, de David Fincher.
Ao longo de duas horas, um serial killer (Kevin Spacey) comete crimes que enquadra nos apetites dos sete pecados mortais: soberba, avareza, luxúria, ira, gula, inveja e preguiça.
A trama adensa-se e explode num final perfeito. O puzzle completa-se com a última dessas perversões, cruelmente servida numa caixa de papelão.
‘What’s in the box?!!’, grita a personagem interpretada por Brad Pitt.
Não revelarei a resposta, talvez por não ter também respostas sobre o futuro de Gonçalo Paciência.
Mas, tal como numa sala de cinema, estarei agarrado a um balde de pipocas, ansiosamente a aguardar por novas pistas.
Boa sorte, Gonçalo, há por aí muitos golos por fazer. Sem ponta de pecado.
* Diretor-Adjunto de Informação