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    O histórico conjunto de Arrigo Sacchi

    #3 Milan 1987-88

    Publicado em: 2020/11/21 00:02 Atualizado em: 2025/11/18 13:04
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    #3 Milan 1987-88

    Helicópteros a rasgar o céu azul e o inconfundível barulho das hélices ao som da obra-prima The Ride of the Valkyries de Richard Wagner. É o Apocalypse Now. Melhor, é Silvio Berlusconi a apresentar-se oficialmente aos adeptos do Milan como novo presidente do clube.

    Filho de um bancário e de uma secretária, criado numa Itália em reconstrução, após a espalhafatosa derrota na Guerra, o pequeno Silvio sonha com riqueza e poder. Domingo sim, domingo não, o pai leva-o pela mão a ver o Milan do trio de suecos Gre-No-Li (Gunnar Gren, Gunnar Nordahl e Nils Liedholm)

    Aos 18 anos, Berlusconi já é corrector de imóveis, profissão que divide com a de cantor (pimba, imaginamos nós) em cruzeiros pelo Mediterrâneo. Na Universidade de Milão, estuda Direito (por linhas tortas) e entra no negócio das empresas de construção. Funda a Cantieri Riuniti Milanese, em 1961, e a Edilnord di Silvio Berlusconi & Co., em 1963.

    Aos 23 anos e à frente de uma equipa de jovens arquitectos, edifica dois grandes conjuntos residenciais nos arredores de Milão. Ainda hoje é acusado de charlatão pelas figuras mais influentes da sociedade italiana, como o realizador Nanni Moretti.

    Silvio, esse, segue imperturbável. Ganha (má) fama e (bom) dinheiro. Nos anos 70, larga a construção e dedica-se à comunicação. Compra um canal de televisão de 1974 e expande o negócio no sector, com múltiplas emissoras através de uma rede de televisões locais, reunidas na empresa Mediaset. A programação é chapa cinco: concursos à Luís Pereira de Sousa e programas de entretenimento à Júlio Isidro. Em 1985, o governo francês concede-lhe a primeira rede privada daquele país, La Cinq.

    Uns meses depois, Berlusconi adquire acções da Chain e Cinema 5. Em seguida, compra os Estúdios Roma. O céu é o limite. E lá voltamos nós aos helicópteros. No dia 20 fevereiro 1986, faz uma oferta de compra ao Milan, o moribundo Milan, que passara duas épocas na 2.ª divisão e acumula dívidas infinitas, via má gestão do presidente Giuseppe Farina.

    À porta do centro de estádio Milanello, há mais credores que jornalistas. A 23 março 1986, confirma-se a compra do Milan por parte de Berlusconi. O treinador é o sueco Nils Liedholm, um dos integrantes do GreNoLi. A equipa já é capitaneada por Franco Baresi, que recorda as primeiras palavras do novo presidente: «Vamos ser os melhores do mundo». Aquilo fez-me confusão. Aliás, fez-me rir. Tão-só porque nem sequer éramos os melhores de Milão, quanto mais de Itália, Europa, mundo. Mas depois?

    É isso. Depois, o Milan cresce. Berlusconi descobre Arrigo Sacchi. Costuma associar-se o ano 1986 àquele golo de Diego Maradona à Inglaterra no Mundial do México. Para os milanistas (do Milan), que não todos os milaneses (de Milão), esse ano é memorável pelo slalom de um senhor chamado Silvio Berlusconi. Um ano depois, em 1987, o Milan perde duas vezes com o Parma na Taça de Itália. E ambas em casa, no Giuseppe Meazza. Na primeira, ainda para a fase de grupos, cortesia Davide Fontolan (0:1). Na segunda, já nos oitavos-de-final, cortesia Mario Bortolazzi (outro 0:1).

    Nas bancadas, Berlusconi pergunta às pessoas que o rodeiam: «Como se chama?», numa alusão ao treinador do Parma. «Arrigo Sacchi», dizem-lhe. E contrata-o. Começa ali a lenda do Milan, quiçá a melhor equipa de sempre, ou então a equipa mais competitiva dos tempos modernos. De 1988 a 1990, os milanistas levantaram todos os seis troféus internacionais disputados: duas Taças dos Campeões, duas Supertaças Europeias e duas Taças Intercontinentais. Nunca um clube domina de forma tão avassaladora e perfeita durante dois anos.

    O Milan de Sacchi é uma máquina condenada a vencer. Tanto pelo talento natural como pelo entrosamento desses mesmos talentos, ao serviço de uma missão superior: possesso di palla (posse de bola). Este Milan nunca joga contra ninguém, e si contra os seus próprios limites. O líbero Baresi, que mais parece um polícia sinaleiro de tanto levantar o braço para assinalar os foras-de-jogo dos adversários ou corrigir as posições da sua linha, mete os seus companheiros em sentido com um simples olhar, o lateral Paolo Maldini é a inveja de todos, o médio Frank Rijkaard está sempre no sítio certo, o criativo Gullit é mais possante que qualquer outro e Marco van Basten finaliza sempre bem e cheio de estilo.

    Todos abrem a boca de espanto com o futebol do Milan, porque Sacchi simplesmente abdica do catenaccio, estilo identificativo de Itália e elevado ao extremo por Giovanni Trapattoni na Juventus. O 4-4-2 de Sacchi é infalível, com linhas compactas, defesa à zona, médios atletas e um avançado capaz das proezas mais indescritíveis. E é precisamente Van Basten quem mais desatina com estas tácticas. À primeira derrota da era Sacchi, o holandês critica publicamente o treinador. No jogo seguinte, Sacchi senta-o no banco: «Agora que estás aqui, diz-me o que está mal». Ou como aquela vez em que Sacchi o corrige durante o treino e, já à hora de almoço, Van Basten o destrata com voz de bad ass: «Não me fale enquanto como».

    No xadrez de Sacchi, uma peça fora do lugar desajusta toda a táctica. Mas como Van Basten é o mais genial deles todos, o seu mau feitio só é tolerável e descontado com golos (56) e assistências (21). Curiosamente, a época em questão é aquela em que Van Basten menos intervém. Culpa de uma lesão teimosa. Salta então o nome de Paolo Virdis (31 anos), um pré-Ravanelli na brancura dos seus cabelos. É ele o melhor marcador da equipa, com 11 golos na Serie A e 15 no total (Gullit é o segundo, com 9 e 13).

    O campeonato é espetacular. Como sempre. O Nápoles, inédito campeão em título, sonha com o bi. E cruza a meta em primeiro lugar, com três pontos de avanço sobre o Milan, no final da primeira volta. A vantagem sobe para cinco, na 19.ª jornada. Nas cinco rondas seguintes, o Nápoles perde quatro pontos, o Milan três. Aparece então Maradona para resolver o clássico vs Inter (1:0). À mesma hora, Van Basten regressa à competição seis meses depois e assina o solitário 1:0 vs Empoli. Uma semana depois, a Juventus dá 3:1 ao Nápoles enquanto o Milan ganha 2:0 à Roma no Olímpico. Na primeira volta, o Milan ganhara 1:0 (Virdis, claro), só que a federação atribui vitória à Roma porque um petardo cai na área da Roma durante a segunda parte.

    No dia 24 Abril, o Nápoles encosta em Verona (1:1) e o Milan vence o dérbi (2:0). Separados por um ponto, o clássico do título está marcado para 1 Maio, no San Paolo. Marca Virdis, empata Maradona. Vamos para intervalo. Entra Van Basten. Marca Virdis, 1:2. Marca Van Basten, 1:3. Reduz Careca, acaba 2:3. À falta de duas jornadas, o Milan tem dois pontos de avanço.

    O próximo jogo é vs Juventus. Acaba sem golos. E o Nápoles? Perde em Florença, com bis de Díaz, o companheiro de Maradona na aventura do Mundial sub20 em 1979. Faltam 90 minutos. O Nápoles tem de ganhar em casa vs Sampdoria e esperar por uma derrota do Milan em Como. Nem uma coisa nem outra. O Milan empata 1:1, o Nápoles perde 1:2 de virada (Gianluca Vialli é quem dá o golpe da misericórdia). O Milan é campeão italiano da 1.ª divisão ao fim de nove anos e inicia a mais louca viagem internacional de todos os tempos.

    Milan 1987-88 (a negro, os jogos fora)

    1. Pisa                              3:1 Donadoni Gullit VBasten (p)
    2. Fiorentina 0:2  
    3. Cesena             0:0  
    4. Ascoli 2:0 Virdis Evani
    5. Sampdoria              1:1  Gullit
    6. Verona                       1:0 Virdis
    7. Torino 0:0  
    8. Pescara                      2:0 Virdis Bortolazzi
    9. Avellino 3:0 Colombo Donadoni Maldini
    10. Empoli           0:0  
    11. Roma 0:2 (a)
    12. Inter 0:1 Ferri (pb)
    13. Nápoles 4:1 Colombo Virdis Gullit Donadoni
    14. Juventus 1:0  Gullit
    15. Como 5:0 Gullit (2) Donadoni Virdis Ancelotti
    16. Pisa 1:0 Colombo
    17. Fiorentina              1:1 Baresi (p)
    18. Cesena 3:0 Gullit Evani Massaro
    19. Ascoli                       1:1 Massaro
    20. Sampdoria 2:1 Virdis Maldini
    21. Verona 0:0  
    22. Torino                     1:1  Ancelotti
    23. Pescara 2:0 Massaro Gullit
    24. Avellino        0:0  
    25. Empoli 1:0 VBasten
    26. Roma                        2:0 Virdis Massaro
    27. Inter 2:0 Gullit Virdis
    28. Nápoles                 3:2  Virdis (2) VBasten
    29. Juventus 0:0  
    30. Como                       1:1 Virdis

    Top 3 de jogos

    30 Giovanni Galli 30 Filippo Galli 29 Ruud Gullit

    Top 3 de golos

    11 Paolo Virdis 9 Ruud Gullit 4 Roberto Donadoni

     

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