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    Entrevista ao treinador português - Parte III

    Renato Paiva recorda Benfica: «Estava preparadíssimo para ser eu o treinador, doeu-me…»

    Publicado em: 2021/11/15 12:30 Atualizado em: 2021/11/18 08:50
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    Numa altura em que está quase a fazer o primeiro aniversário da sua saída do Benfica e ida para o Equador, Renato Paiva contou ao zerozero como tem sido a experiência no Independiente del Valle e o caminho rumo à possibilidade de fazer história. Além disso, o treinador português falou dos seus largos anos de ligação ao Benfica, de vários dos jovens que lhe passaram pelas mãos, e surgem agora no radar da equipa principal, e do momento da saída de Bruno Lage.

    Renato Paiva, agora no comando do Independiente del Valle, falou do momento em que Bruno Lage deixou o comando da equipa principal do Benfica e confessou que estava pronto a ser ele a assumir o lugar até à chegada de Jorge Jesus. Além disso, o treinador português explicou as principais dificuldades de comandar uma equipa B e o que mudou na formação encarnada para esta se tornar, hoje, uma das melhores do mundo.

    «Tive propostas muito boas para sair, mas o presidente não me deixou sair porque eu tinha contrato e projetava que fosse eu depois do Bruno Lage»

    zerozero (ZZ): Disse que o Benfica era o sonho de uma vida. Passou por juvenis, juniores, equipa B e chegou a falar-se do seu nome para a equipa principal do Benfica aquando da saída de Bruno Lage do Benfica. Lamenta que não tenha chegado essa oportunidade?

    Renato Paiva (RP): Lamento. Já o disse em público. Lamento. Porque quando saiu o Rui Vitória, o Bruno Lage estava na equipa B e foi a escolha acertadíssima, como se viu. Eu passei para a equipa B. Tive propostas muito boas para sair, mas o presidente não me deixou sair porque eu tinha contrato e projetava que eu fosse eu depois do Bruno Lage. Na altura não valorizei muito, até porque sei como são as coisas no futebol. No momento em que o Bruno sai, eu já sabia que seria o Jorge Jesus, mas o que me doeu foi no tempo entre o Jorge Jesus chegar e o Bruno Lage sair, não se ter aplicado a mesma política e ser o treinador da equipa B a pegar na equipa A. Tínhamos uma final da Taça de Portugal e havia coisas por disputar. A escolha foi o Nélson Veríssimo, e bem. Isto não é absolutamente nada contra o Nélson Veríssimo, porque fez um excelente trabalho e está a fazer um excelente trabalho na equipa B. Tem a ver que eu era o treinador da equipa B e o presidente me tinha falado sobre essa questão de eu poder vir a substituir o Bruno, eu não ter saído do clube em função disso e acabei por não ser equacionado. Doeu-me.

    ZZ: Deram-lhe alguma explicação para isso ou sentiu que lhe tiraram o tapete quando projetavam algo?

    RP: A explicação foi que não queriam mexer muito na equipa técnica da primeira equipa. Dar uma continuidade, saindo o Bruno e assumir o seu adjunto, quando havia uma Taça de Portugal para ganhar. Ao mesmo tempo não queriam mexer muito na equipa B, porque eu saindo tinham que arranjar um substituto e possivelmente seria alguém da estrutura. Essa foi a justificação que me deram. Nem teriam que a dar, porque o presidente é soberano nas decisões que toma. Agora, eu sou humano, tenho sentimentos e senti que, consoante o que me foram dizendo ao longo do tempo, podia ser eu. Eu preparei-me para isso, posso ser sincero. Não aconteceu. Não há, honestamente, nenhuma mágoa com a situação, porque um presidente é soberano nas decisões que toma e as suas decisões são como as de um treinador, são sempre com o objetivo de melhorar. Foi uma oportunidade que se perdeu.

    ZZ: Foi aí que começou a perceber que o caminho teria que ser outro? Que não podia desperdiçar outra oportunidade que surgisse?

    RP: Não só senti, como verbalizei e disse ao presidente. A partir deste momento, a primeira proposta que me apareça e me interesse, mesmo tendo contrato, tenha a sensibilidade de me deixar sair, porque eu mereço. Ainda mais vem Jorge Jesus. Eu sentia que nessa altura tinha que vir alguém com o peso de Jorge Jesus, porque o Benfica não estava bem. Agora, nem que fosse uma semana de treinos, enquanto o Jorge Jesus não vinha, devia ser eu. Não é uma questão de ser eu ou Jorge Jesus, nada disso, até porque o Jorge Jesus já estava definido. O Benfica precisava de um treinador como ele. Quando surgiu a oportunidade do Independiente, o presidente deixou-me sair. Ainda hoje falamos e temos uma relação ótima.

    «Equipa B é um projeto onde reina a impaciência»

    ZZ: O que mudou, ao nível de organização, estruturas e tudo mais, no Benfica no decorrer dos 15 anos que estiveste no clube?

    RP: No momento em que o paradigma na formação muda do «resultadismo» para a formação do jogador. Ou que a prioridade troca. A prioridade antes era ganhar e os melhores jogadores de cada escalão estavam nesse escalão, a marinar e a evoluir, mesmo que estivessem a marcar 10 golos por jogo. O tema era ganhar. A luta acontece com a sensibilização de treinadores e dirigentes que o importante era perceber que os melhores jogadores de cada escalão têm que estar nos escalões acima. Têm que estar num escalão onde o seu rendimento seja posto à prova. No «resultadismo» acontecia isso. Tínhamos a primeira fase onde andávamos a golear e depois nas fases finais, que eram seis jogos, e aí sim era o momento em que os jogadores tinham dificuldades. Porque mantendo-os no mesmo escalão só tinham x jogos de maior dificuldade e num contexto de facilidade não evoluíam. Começámos a projetar torneios internacionais, para os jogadores terem dificuldades e andarem para a frente, ir a mais torneios internacionais e começar a sensibilizar que o desenvolvimento do jogador era mais importante. Colocá-los a trabalhar num escalão acima e quando chegassem as fases finais colocá-los a jogar pelas suas equipas. São dez meses a formar e um para ganhar. Foi esse o grande passo que se deu quando o presidente pensou no Seixal como fonte de alimento financeiro e de rendimento desportivo do clube. Foi esse o passo fundamental que se deu. Quando a equipa B começou a puxar miúdos mais jovens para os campeonatos profissionais e a porta de cima também se abriu um bocadinho mais. Foi isso que originou a tremenda evolução e qualidade dos jogadores, aliado à capacidade dos profissionais que trabalhavam com eles. Os treinadores que estão no Seixal são de grandíssima qualidade e isso também se nota, não só pelo desenvolvimento individual dos miúdos, como pela forma como jogam as equipas. É um trabalho de equipa, cuja matéria prima é boa, quem a trabalha tem qualidade e a ideia com a qual projetaste dar um passo em frente também.

    ZZ: Durante a formação, antes da equipa B, as equipas dos grandes, como dizia, apanham só essas dificuldades nas fases finais. Perguntava-lhe se o principal trabalho, quando estava na equipa B, era precisamente a resposta que eles davam perante uma adversidade semanal, porque eles não estavam preparados para isso. A nível defensivo certamente as diferenças são brutais e depois lança-se os jogadores às feras, por assim dizer, dando também essa responsabilidade diferente

    RP: Onde dói mais é no plano defensivo, é onde as equipas B sofrem mais. Porque na formação passam 90% dos jogos a atacar. É ataque continuado e transição defensiva e depois a organização defensiva raramente a experimentas, a não ser nos jogos com os grandes. Como não se experimenta a organização defensiva, também não se experimenta a transição ofensiva. Vamos com metade do processo feito. Claro que em treino se trabalhava os processos todos, mas depois em jogo não eram postos à prova. Os laterais não faziam um contra um defensivo. Quando chegam à equipa B e vão defrontar gente com 30 e muitos anos, que já foi campeão nacional, já passou pelo estrangeiro, já passou pelos grandes, não têm a ratice e a experiência. Depois não estão habituados aos comportamentos defensivos. Uma Académica ou um Feirense obrigam-te a defender mais baixo e tu não sabes, porque não tiveste nada disso na formação. Esse era o grande problema que experimentávamos. Os avançados e os extremos não tinham grandes problemas, mas os que defendem sofrem mais, como os médios, que andavam ali de cadeirinha. Quando têm que andar para trás e para a frente custa. Essa é a principal mais valia de ter uma equipa B na Segunda Liga. Aí é o critério da verdade. Tive momentos desagradáveis na equipa B, principalmente para o exterior, porque as pessoas pensam que num Benfica B x Feirense o Benfica B é favorito só pelo nome. Quando se olha para os dois planteis é um grupo de miúdos contra um grupo de pessoas experientes. Até contra o Hugo Almeida nós jogámos! As pessoas só pensam em ganhar. Precisam de perceber o projeto. Hoje a equipa B está muito bem ao nível exibicional e de resultados, mas há uma data de miúdos que já tem dois anos de processo. A equipa B tem um problema, que vai por gerações. Quando recebes um ano que está no primeiro ano de equipa B passas por muitas dificuldades e daí as oscilações ao nível da classificação. Esses miúdos fazem um ano difícil e no segundo ano já conhecem a Segunda Liga e dão respostas importantes. As pessoas não percebiam isso. O FC Porto ganhou uma vez a Segunda Liga, com uma equipa fechada, que quase não treinava com a equipa A, de muita qualidade, em que o próprio Luís Castro admitiu que quase não sofreu alterações no plantel. Enquanto eu estive na equipa B, a ida de jogadores à equipa A era comum. Com o Bruno tinha momentos em que tinha um dia para preparar a sério o jogo seguinte. Eu percebo, atenção. A prioridade é a equipa A. Nunca me queixei. Disse sempre que preferia um jogador da equipa A do que treinasse na equipa B, porque está a treinar com o Pizzi, Grimaldo, Samaris. Isto é tudo muito bonito porque a minha perspetiva era desenvolver o jogador, agora se tu queres desenvolver a tua equipa e só tens um dia por semana para preparar o jogo é super difícil. Não percebiam isso.

    ZZ: Essa dificuldade em adaptar-se ao escalão acima também se verificava na equipa A. Houve o caso do Tomás Tavares que subiu cedo à equipa principal e logo na Liga dos Campeões. Isso não pode dificultar a afirmação de um jogador?

    RP: Vou dar um exemplo. Passas um sub-16 para os sub-19, porque acreditas muito nele, e ele não consegue ter sucesso no jogo, estás a acelerar o processo e tens que descer um degrau. Trataram o Tomás Tavares como se o miúdo não soubesse jogar futebol. Ele tinha lacunas defensivas, normalíssimas! Porquê? Ele fez dois jogos na equipa B. Passou dos sub-19 para os B e dos sub-23 para a equipa A. Foi atirado às feras defensivamente, porque o Tomás ofensivamente não deixa de prestar contas. Dá conta do recado. Defensivamente tem lacunas porque não passou pelos dois anos de equipa B. Um mínimo de 50 jogos. A não ser que seja um predestinado, como era um Bernardo Silva ou um João Félix, mas estamos a falar de médios ou avançados. Basta ver o caso do Rúben Dias. Quantos jogos fez na equipa B? O Lindelof? O Lindelof ainda hoje é o jogador com mais jogos na equipa B do Benfica. São processos que para queimar tem que se ter cuidado, senão quem paga é o jogador.

    ZZ: Há aqui um caso que é paradigmático, que é o caso do Gonçalo Ramos. Quando começou a fazer muitos golos na equipa B, a pressão externa, dos próprios adeptos, toda gente o queria na equipa principal. Isso também complica e coloca pressão num jogador, não é?

    RP: Disse isto em conferências de imprensa. Começámos a época cheios de vitórias e o Gonçalo a marcar imensos golos. Depois o Gonçalo foi embora e a equipa ressentiu-se e ele não jogava nem num lado nem outro. Eu fartei-me de dizer, com todo o respeito, que não era a mesma coisa ele jogar contra o Paços de Ferreira ou o Mafra. Não é igual. Jogar na Primeira e Segunda Liga não é o mesmo e não se pode comparar os contextos. Precisam de sustentação, crescer, começar a crescer com a equipa A e se no treino com a equipa A começarem a dar respostas efetivas com os Pizzi's e Grimaldo's dar algumas oportunidades. Depois  perceber se tem capacidade de respostas para a Primeira Liga. É preciso ter calma. O patamar de comparação é totalmente diferente. Isso é muitas vezes a emoção dos adeptos e de quem analisa e nós temos que ver o que pode fazer bem ou não.

    ZZ: Notou também ao longo deste tempo todo alguma impaciência dos próprios dos jogadores e às vezes até dos próprios empresários, que sentem que têm ali um diamante para vender? Sentiu essa pressão quando lhes faltam ferramentas?

    RP: Havia um médio na equipa B, que não vou dizer o nome, que estava a treinar na equipa A e que me dizia que não percebia como não jogava com Pizzi, Samaris, Chiquinho…. Eu dizia que ele não percebia era a realidade onde estava, quem era e quem os outros são. Isto vai por osmose. Vês dois ou três lá em cima e depois todos pensam que também deviam estar. Não têm paciência e a equipa B é um projeto onde reina a impaciência. É extremamente difícil para os treinadores. Eu posso treinar mais 50 equipas, que o projeto mais difícil de treinar é a equipa B. Sem dúvidas. É de uma grande instabilidade. Não sabes com quem é que treinas, não sabes com quem jogas. Há jogadores que não querem estar, os que acham que são, mas não são, os que descem da equipa A e fazem fretes,… Os cabelos brancos que tenho são da equipa B, não são do Independiente [risos]. Dou sempre este exemplo. Eu perguntava ao meu pai qual era a capital de certo país e ele dizia-me para ir ver em certo livro. Ele queria que eu tivesse o processo que me levou a encontrar a respostas, porque esse processo marca. Hoje em dia querem tudo num instante e isso gera impaciência. Querem tudo para ontem e as coisas no futebol não são imediatas.

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    Renato Paiva
    Nascimento/Idade1970-03-22(56 anos)
    FunçãoTreinador

    Fotografias(38)

    Comentários

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    Motivo:
    Acolito_Andrade 15-11-2021 20:19
    Renato
    O único problema foi o Vieira não ter visto a luz!
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    goncalo1993 15-11-2021 14:50
    Espetaculo
    Grande entrevista a falar-se de futebol de quem entende de futebol em vez de se falar sem se saber.

    Eh mais conversas destas que nós adeptos precisamos de ler/ouvir/ver, porque é com conversas destas que aprendemos de verdade o que se passa, ganhamos conhecimento sobre as realidades em vez de apenas ouvir especulações da midia, porque vamos ser sinceros, é a midia que alimenta o "conhecimento" das realidades dos adeptos.

    Continuem o grande trabalho ZZ. Ler Mais
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