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Alguém disse um dia uma frase mais ou menos com estes termos, mas de certeza absoluta com o sentido que aqui lhe é dado.
“O râguebi é um desporto de rufias praticado por cavalheiros, enquanto o futebol é um desporto de cavalheiros praticado por rufias”.
Claro que há exagero quanto aos praticantes de futebol, porque quanto aos de râguebi estou completamente de acordo. Mas sem dúvida que a beleza do futebol merecia em tantas e tão diversas ocasiões um cavalheirismo bem superior ao que se vai vendo por esses estádios fora, semana após semana.
A esse cavalheirismo chama-se fair play! É algo de que todos quantos gostam de futebol apreciam, embora muitos, que vêem o futebol como uma autêntica guerra tribal em que a única coisa que conta é a vitória das cores da tribo seja a que preço for, não lhe dêem o justo valor e até desprezem aqueles que o praticam...
Eu aprecio fair play. Gosto de ver uma equipa deitar a bola fora quando um adversário está lesionado e gosto de ver a equipa do lesionado devolver a bola; gosto de ver uma equipa médica assistir um jogador adversário quando, por qualquer razão (às vezes dois lesionados em simultâneo), a equipa médica dessa equipa não o pode fazer; gosto de ver um avançado saltar sobre o guarda-redes para não o lesionar; gosto de ver um guarda-redes aplaudir um golo do avançado adversário ou este aplaudir uma grande defesa do guarda-redes (vi Eusébio e Damas fazerem-no reciprocamente por mais que uma vez); aprecio quando um jogador marca um golo à ex-equipa e não festeja; admiro os adeptos capazes de aplaudirem uma grande jogada do adversário; admiro um jogador que cai na área adversária e diz ao árbitro que não foi penálti depois de este o ter assinalado; gosto de ver os adeptos aplaudirem um jogador que hoje é adversário mas no passado representou com brio e profissionalismo a sua equipa; louvo um treinador que assume os seus erros e não justifica derrotas com erros dos seus jogadores ou dos árbitros; admiro adeptos que no final de um jogo intensamente disputado, e com cada um a puxar pela sua equipa até ao limite, são capazes de se aplaudirem uns aos outros; admiro uma equipa que perde uma final e fica no relvado a assistir à entrega do troféu ao adversário. E tantos exemplos mais que poderia dar sobre como o fair play tem lugar no futebol e é um fator da sua valorização.
Infelizmente, no futebol português o fair play, por mais que FPF e LPFP “puxem” por ele, é cada vez mais uma exceção e não uma regra face ao ambiente de conflitualidade tribal que nele se vive e em que os adeptos começam por ver nos dirigentes dos clubes mais mediáticos o pior exemplo de falta de fair play, e quantas vezes de bom senso e até de educação!
Bastará ler nos jornais, depois ampliadas nas televisões pelos paineleiros afetos aos três clubes do costume, as constantes polémicas, trocas de acusações e quantas vezes insultos e insinuações arrasadoras, para se perceber o porquê do mau ambiente que se vive em tantos estádios e que obriga à mobilização de enormes contingentes policiais para assegurar a segurança de quem vai ao futebol para ver…futebol.
Caso para dizer, em algumas ocasiões, que o futebol é um desporto para cavalheiros assistido por rufias que fazem de um confronto desportivo uma guerra em que vale tudo para abater o adversário.
Tive a sorte de nascer em Guimarães e ser ensinado a ser vitoriano desde pequenino. Tenho orgulho de integrar uma massa associativa e adepta conhecida pela sua fidelidade ao Vitória, pelo fervor com que o apoia, por alguns excessos que também comete mas essencialmente por ser de uma dedicação extraordinária e que não teme comparações com ninguém.
Esse orgulho ainda aumenta porque ao longo dos anos e em muitas ocasiões já vi essa massa adepta prestar tributo a jogadores e treinadores que, tendo servido bem o Vitória, regressam a Guimarães ao serviço de outros clubes, como também já a vi aplaudir jogadores adversários por jogadas excecionais ou golos para a história.
No sábado, o Vitória recebeu o Porto. Um jogo de grande rivalidade, um jogo “quente”, um jogo que também já tem a sua História e as suas histórias fora das quatro linhas. Mas também tem os seus momentos de elevação, como o de Soares, ao não festejar o golo, ou o de os adeptos do Vitória tributarem uma enorme ovação a André André quanto este foi substituído (a que este retribuiu aplaudindo os adeptos vitorianos e os do seu atual clube), reconhecendo o grande profissional que ele foi enquanto ao serviço do Vitória. Foram dois momentos bonitos, de fair play, que engrandeceram o jogo.
E como o nosso futebol precisa de momentos desses…
P.S.: Pena foi que após o aplauso de todo o estádio, vitorianos e portistas, a André André, de imediato os adeptos do Porto tenham desatado a, uma vez mais, insultar os adeptos vitorianos. Mas, lá está, isso remete para a questão dos cavalheiros e dos rufias…