Acabou a invencibilidade do campeão, logo em casa do eterno rival. Num dérbi que certamente vai ficar na memória pelo futebol de ataque e pela emoção até ao fim, o Benfica colocou finalmente um travão no Sporting, que, na jornada 33, perde pela primeira vez no campeonato. Os leões estiveram duas vezes com três golos de desvantagem, mas acabaram por chegar ao 4x3, insuficiente para evitar a derrota, mas suficiente para dizermos, à la Fernando Mendes: que «espetáááááculo»!
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Não foi só ressaca
Um dérbi é um dérbi e ninguém está disposto a facilitar, seja o já coroado campeão ou um Benfica com poucas esperanças para ir à Liga dos Campeões. Por haver pouco a perder, jogou-se pelo emblema, mas acima de tudo jogou-se futebol. De ataque, não defensivo, que o diga a melhor defesa da Liga, que saiu da Luz de saco cheio, mas não só marcou como criou várias oportunidades de golo. No fundo foi um dérbi cheio de golos, mas que podia ter tido muitos mais, para um lado e para o outro.
Escrevendo depois do jogo é mais fácil, mas cedo ficou evidente que Rúben Amorim facilitou ao apostar na dupla Daniel Bragança - Matheus Nunes. Os dois médios jogaram lado a lado e o Benfica, de lição bem estudada, aproveitou. A ausência de Rafa surpreendeu, mas a titularidade de Pizzi justificou-se por aquilo que o médio trouxe ao coletivo. No papel, o camisola 21 aparecia colado ao flanco, mas na teoria foi mais um médio para criar superioridade na zona central.

Bola cá, bola lá. Desde cedo se percebeu que este não ia ser um daqueles típicos dérbis ou clássicos com poucas oportunidades, bem pelo contrário. As balizas foram protagonistas, bem como os avançados das duas equipas, mais em jogo do que em muitas outras partidas da Liga NOS. O primeiro golo foi encarnado e colocou a nú as debilidades que o Sporting tinha causado a si próprio. Com Pizzi no corredor central e Matheus Reis mal posicionado (pode estar aqui uma das zonas a reforçar na próxima época), Seferovic aproveitou para abrir o marcador e ganhar vantagem num duelo com um jogador que estava do outro lado.
Pote teve oportunidade de ouro logo a seguir, num excelente cruzamento de Nuno Santos, que antes explorou as costas da defesa benfiquista. Essa foi, aliás, uma arma muito usada pelas duas equipas, mas enquanto a equipa de Rúben Amorim falhava na defesa e no ataque, a de Jorge Jesus dava espetáculo. O golo de Pizzi, abrilhantado pelo calcanhar de Everton, vai certamente entrar na galeria d' «Os Nossos Puskás», no zerozero.

A situação estava a ficar preocupante para o campeão, especialmente depois de Lucas Veríssimo ter colocado o resultado num impensável 3x0. Pelo que o Benfica estava a produzir, os três golos justificavam-se, mas a equipa de Rúben Amorim também já tinha causado ocasiões para marcar. No fundo estava um jogo muito bom e ainda com tanto, mas tanto para contar.
Tudo isto porque o golo de Pote, a responder ao de Seferovic, animou o dérbi e potenciou a reação sportinguista ao intervalo. A equipa de Rúben Amorim já tinha conseguido algumas recuperações incríveis nesta busca pelo título, mas foi depois de festejar que surgiu o maior desafio. A primeira meia hora soou a ressaca, mas os três golos sofridos espicaçaram o leão e Rúben Amorim não desistiu do jogo e equilibrou finalmente o meio-campo com as entradas de Palhinha e João Mário logo no início da segunda parte. O Sporting tinha uma desvantagem de dois golos, mas a invencibilidade na Liga e o símbolo do leão eram para defender até ao fim.
Futebol espetáculo
A correção de Amorim fez sentido logo na primeira recuperação de Palhinha, a mostrar a importância que tem no futebol deste Sporting, mas o efeito da festa ainda estava bem presente na formação leonina. Matheus Nunes, que passou para ala com a saída de João Pereira, cometeu uma grande penalidade sem sentido e permitiu ao Benfica recuperar a vantagem de três golos. Se esse foi o fim do Sporting? Nem por isso.
Novamente com uma montanha enorme pela frente, a equipa de Rúben Amorim não virou a cara à luta e na segunda parte foi o meio-campo do Benfica a vacilar. Do banco, Jorge Jesus ora berrava com Weigl, ora berrava com Taarabt, substituído logo depois de Pote rematar ao poste numa fotocopia do golo que havia marcado na primeira parte.
Que animado estava este dérbi! O 4x1 não fez com que as duas equipas ficassem à espera do apito final, até porque a época está quase a terminar e a lógica passa por aproveitar enquanto se pode, e que vontade havia de continuar a jogar! Que o diga Nuno Santos, sempre ligado à corrente (às vezes até demais, tendo em conta os gritos que se ouviam desde a bancada de imprensa), que reduziu depois de Paulinho falhar o 4x2.

O Sporting procurou uma recuperação épica e sonhou mesmo até ao fim, depois de Pote converter um penálti cometido por Lucas Veríssimo e acabar igualado com Seferovic na lista dos marcadores. A igualdade no resultado (e a vantagem para o médio leonino) podia ter mesmo acontecido, mas o poste, a meias com Helton Leite, seguraram a vitória benfiquista.
Um dérbi que do ponto de vista do campeonato pode não acrescentar muito à história, mas que fica certamente para a história. O ritmo, a intensidade e a entrega das duas equipas valiam o bilhete, não estivéssemos nós em pandemia. Que voltem os adeptos e que voltem os «ah!» e «uh!» para jogos como este, para os remates ao poste ou para momentos incríveis como a defesa de Adán perto do final. Para o que conta ganhou o Benfica, mas se somarmos as varíaveis ganhamos todos.
Que jogo!










