Vencedor da última edição do Campeonato dos Açores. Primeiro lugar na Série C do Campeonato de Portugal. Presença na 3.ª eliminatória da Taça de Portugal, com um grande pela frente. A vida corre bem, mas nem só do presente vive este clube centenário. O zerozero está na ilha Terceira e, na véspera do grande jogo, foi à sede do Lusitânia, no cimo da Rua da Sé, falar com Luís Carneiro e Paulo Moreira, presidente e diretor desportivo do clube, respetivamente, para conhecer melhor os verde e brancos.
*com Alexandre Sequeira Ribeiro
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15h locais, em frente à sede do Sport Clube Lusitânia. Na estrada, algum trânsito. Na sede, de portas bem abertas, dois papéis sem espaço para segundas interpretações. «Bilhetes esgotados», num assertivo (e certamente desanimador para alguns) caps lock. O movimento era constante e intenso. Muitas pessoas a entrar e a sair, jogadores, adeptos, dirigentes; todos andavam decididos, atarefados, com um objetivo definido. Era véspera de um dia histórico e notava-se. Depois de uma chamada rápida, eis a ordem para subir. Na sala, com uma parede de troféus ao fundo, eis que se inicia a conversa.
Luís Carneiro, presidente deste gigante açoriano, começou por lembrar ao zerozero: «O Lusitânia tem um passado enorme. Não só ao nível da ilha Terceira, mas também a nível regional. São 100 anos de história».

Ao subir, as várias fotografias de, não só futebol, como basket e futsal, nas paredes da sede, só por si, exemplificavam bem a importância das diferentes modalidades para o Lusitânia. «Somos um clube eclético. Além do futebol, temos também o futsal (na segunda divisão nacional) e o basket (na primeira divisão nacional). É importante também referir que, em qualquer uma das modalidades, temos todos os escalões de formação», salientou o líder máximo do clube.
Desta forma, o tema da conversa rapidamente saltou da preocupação pelo ecletismo para a preocupação pela formação. «Neste clube, é constante a aposta na formação. É lá que estão os futuros dirigentes, presidentes, etc. Tentamos ensinar os miúdos a viver e a gostar do Sport Clube Lusitânia», garantiu Luís.
Acima da entrada na sede, além do nome do clube, está escrito «Delegação n.º14 do Sporting Clube de Portugal». A curiosidade sobre a continuidade (ou não) desta relação surgiu e a pergunta teve de ser feita. Mesmo com o passar do tempo, Luís Carneiro garantiu que ainda há uma relação «normal» com os verdes de Lisboa: «Sim. No dia a dia, não existe um contacto permanente, obviamente. Existe uma ligação e existirá, com muito orgulho. Temos uma boa relação, essencialmente no basket, porque jogamos regularmente com eles. No futebol, já aconteceu pedirem para ver alguns atletas nossos, por exemplo.»
Como a história também se faz do presente, ninguém ignorou o «elefante na sala». Há jogo único contra o Benfica na próxima sexta, o que entusiasma toda a estrutura verde: «O sorteio trouxe cá o campeão nacional em título e é com muito gosto que o recebemos. É mais uma página que se escreve na história lindíssima do Lusitânia. Um jogo grande, na nossa casa, na nossa cidade... É também um orgulho poder dar um jogo desta natureza aos nossos adeptos».
No entanto, nem tudo é um mar de rosas e receber um grande também traz dificuldades, admitidas pelo próprio presidente: «Em termos logísticos e por ser considerado um jogo de alto risco, temos enormes constrangimentos, também pela nossa condição insular. Orgulha-nos muito, mas também nos traz algumas dificuldades. Ainda anteontem tivemos um gasto superior a 20 mil euros, para trazer ARD's — seguranças privados —, fora a alimentação, estadia… O policiamento também é uma loucura, nada a ver ao que estamos habituados. É uma diferença muito grande.»
Por fim, num breve olhar para o futuro, o presidente garantiu que o principal foco é financeiro: «O Lusitânia procura, sobretudo, estabilidade financeira. O nosso projeto está muito relacionado com isso. É o que o clube necessita neste momento. Dar condições para que o clube se possa sentir tranquilo e desafogado financeiramente, é esse o nosso principal objetivo.»
Quando o tema foi o projeto, deu-se uma substituição de orador. Paulo Moreira, atual diretor desportivo, falou-nos sobre a «forma de estar» do clube: «Essencialmente, é um projeto com dois anos e é uma tentativa de recuperar a situação financeira do clube. O modelo visa descobrir atletas com qualidade diferenciada em mercados periféricos, apostar neles, tentar que se adaptem ao contexto europeu, que se desenvolvam e que despertem a atenção do mercado».

Apesar do pouco tempo a seguir estas linhas de pensamento, o clube já conseguiu colher alguns frutos: «Em dois anos... Estávamos na quinta divisão, uma divisão distrital, quando iniciámos isto. Mesmo nesse contexto, tivemos o Perea, que saiu para o Covilhã (Segunda Liga) e que agora está na Académica, o Durán, que está agora no Estrela e foi convocado para o jogo da Taça, o Ronny, o Malcolm Simmons, que acabou por sair para o Benfica… Ainda estamos numa fase inicial, mas está a correr bem».
«Estamos abertos a todo o tipo de convites para ir observar jogadores. Só temos um requisito: quando vamos daqui para a América do Sul ou para África, como também já fomos, nós temos de fazer uma observação massiva de jogadores. Não vamos mobilizar recursos humanos da nossa estrutura para ir ao Brasil ver quatro ou cinco jogadores. Queremos que as estruturas locais, nossas parceiras, nos ajudem a montar um evento massivo de observação», apontou Paulo Moreira.
A aposta nos mercados periféricos resultou, inevitavelmente, num menor número de jogadores locais no plantel. Para Paulo Moreira, era algo inevitável, que está a ser visto, anos mais tarde, com menor revolta.
«Tivemos alguns problemas inicialmente. Se avaliarem os quadros competitivos da formação, o número de atletas inscrito, a qualificação dos treinadores... Não houve uma atualização ao nível que, por exemplo, existe no Continente. Estando num sítio mais isolado, com poucos recursos humanos, tivemos que importar qualidade. Tentamos agregar tudo o que são atletas da região com grande qualidade, mas temos que compor com atletas de fora, para sermos competitivos. É um projeto que, ao longo do tempo, foi ultrapassando barreiras e, hoje em dia, sentimos uma aceitação muito maior por parte das pessoas. Aliás, tendo em conta a grande dificuldade que é montar um evento destes, um jogo tão grande, se analisarmos a quantidade de pessoas que estão mobilizadas por paixão ao clube, sem qualquer tipo de retorno… Se calhar, isto, quando o projeto se iniciou, era impensável».
Terminada a conversa, foi altura de passar para a sala ao lado e escutar Ricardo Pessoa na conferência de imprensa de antevisão ao jogo que nos trouxe à ilha e que nos fez conhecer melhor o Lusitânia.

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