O peso da estatística é insolúvel. Nunca antes o Marítimo perdera os quatro primeiros jogos do campeonato, nunca antes arrancara tão mal. É neste quadro pesado, feio, que Vasco Seabra terá de reencontrar as respostas que deu a época passada, para dar a volta a mais uma crise grave. O futebol, tantas vezes desmemoriado, terá de dar mais tempo a um treinador com provas dadas. Resta saber se na SAD madeirense essa memória que se exige não se perde na irracional falta de paciência.
O quarto tiro no peito dos insulares foi disparado por Welinton Jr., em cima do intervalo e num Caldeirão com mais buracos do que juízo. O povo acabou de lenços brancos na mão, apontando a porta de saída ao homem que há poucos meses levantou a equipa da sepultura e fê-la andar e correr. É o futebol, no seu lado de paixão bruta, inexplicável e nem sempre inteligente.
Fora dessa análise fica o Portimonense. Mais estável emocionalmente, a equipa algarvia capitalizou o desassossego do Marítimo, marcou na sua primeira grande oportunidade e, depois de sofrer durante um curto período, deu-se ao luxo de desperdiçar dois golos cantados em cima do apito final. E lá vai ele, novamente seguro e formoso, com nove pontos em 12 possíveis. Mais uma criação feliz de Paulo Sérgio.
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Coração aos saltos, cabeças sem lucidez
Para falar de futebol temos de falar dos homens que o jogam. Gente que sente, que ouve, que sabe perfeitamente quando é questionada. O Marítimo viveu 90 minutos com essa desconfiança nos olhares da bancada, com essa inquietude que o impediu de colocar na relva os desenhos que Vasco Seabra fez no quadro tático.
O Portimonense foi mais estável, com e sem bola. Organizou-se bem, percebeu a fragilidade alheia e jogou o suficiente. Em cima do intervalo, depois de um loooongo período de indefinição mútua, Fahd Moufi cruzou na direita, Welinton Jr. rematou à meia-volta, de primeira, e Matous Trmal não foi capaz de defender o que parecia ter defesa.
Se o céu ameaçava desabar sobre os madeirense, aí a tormenta ainda mais assustadora se tornou. Para complicar o cenário, o relvado - bonito, no início - passou a ser um amontoado de crateras, buracos e cabeças de toupeira. A bola deixou de rolar, o Marítimo queria tocar e não sabia como, as ameaças foram todas mansas e controladas pelas luvas perfeitas de Samuel Portugal.
Futuro carregado de interrogações
O que sobra daqui? O Marítimo terá de tomar decisões. Se é com Vasco Seabra, a vontade terá de ser clara, para que a equipa não sinta a pressão que rodeia o treinador. Neste sábado, grande parte da incompetência dos jogadores explica-se por essa suspeita, essa sensação de que «não é por aqui».
Há bons executantes, gente com vontade de aparecer - Beltrame, Zarzana, Moreno, todos bons de bola -, mas os fios que ligam as 11 unidades parecem apodrecidos, estragados pelo ambiente em que treinam e jogam.
Boa vitória do Portimonense, justíssima; tarde importante para o Marítimo, em altura de decisões urgentes.
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