Podíamos dar as voltas que quiséssemos, apagar e voltar a escrever, mas dificilmente encontraríamos um guião melhor para o terceiro jogo dos 16 avos de final do Mundial. Depois de o favorito Brasil ter sofrido para levar de vencido o Japão, a toda poderosa Alemanha sucumbiu diante do underdog Paraguai nos penáltis (1-1, 3-4, g.p.), pelo que vai fazer as malas e regressar a casa bem mais cedo do que certamente pretenderia.
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Não é que o jogo tenha sido o mais espetacular, caro leitor. No entanto, a emoção das grandes penalidades e a festa de um país consideravelmente mais pequeno e menos capaz em termos futebolísticos do que o seu adversário faz com que não nos importemos de estar a terminar esta crónica perto da 1h da manhã.
Plano seguido à risca
Atrevido e sem ligar à convenção de que a Alemanha era a favorita neste encontro: eis a forma como o Paraguai se apresentou em campo.
Montada em 4-5-1, com Enciso a jogar pela esquerda e Almirón pela direita, a seleção paraguaia mostrou ao que vinha logo no segundo minuto. Júnior Alonso surgiu solto de marcação ao segundo poste após um canto e obrigou Neuer a uma defesa atenta.
Ainda assim, a lógica rapidamente imperou. Os germânicos, imperiais e respeitando as quatro estrelas que carregam ao peito, assumiram as despesas do encontro e passaram a ter mais bola.

O problema? Este domínio nunca se traduziu em reais situações de perigo. Os paraguaios, como se as suas vidas dependessem deste jogo – é mais ou menos isto que significa jogar um Mundial, certo? -, juntaram linhas e, comandados por Gustavo Gómez, não permitiram que o adversário incomodasse o seu guarda-redes.
Aqui é necessário dar mérito aos sul-americanos. Mais do que crença e esforço, houve claramente um plano definido e respeitado. Isto porque Enciso e Almirón, os fantasistas no meio dos carregadores de piano, as flores que nascem no cimento, conseguiram 'esticar' o jogo da sua equipa e, com arrancadas venenosas, foram colocando em sentido a defesa adversária.
Com elementos fortes pelo ar, o Paraguai apostou também em lances de bola parada para tentar criar perigo e acabou mesmo por ser recompensado. Aos 42', num lance que se iniciou precisamente a partir de um canto, Almirón lançou Galarza na profundidade e este cruzou para o interior da área. Enciso, do alto do seu 1,73m, desviou de cabeça e soltou a festas nas bancadas.
Nagelsmann tinha de operar mudanças ao intervalo.
Reação insuficiente
A verdade é que o técnico alemão percebeu isso mesmo e alterou as dinâmicas das peças do seu xadrez.
Sem necessidade de ter Nmecha e Pavlovic na zona de criação, isto na medida em que o Paraguai defendia bastante recuado, o selecionador alemão tirou o jogador do Dortmund e lançou Goretzka com uma missão bem definida: aproximar-se da área adversária.
O médio do Bayern deu-se ao papel que lhe foi atribuído e, pese embora o estilo de jogo adotado pelos germânicos não tenha sido propriamente apelativo - os cruzamentos multiplicaram-se -, foi eficaz.
Com Goretzka a confundir as marcações, Havertz ficou um pouco mais livre e, na sequência de um cruzamento teleguiado de Wirtz pela esquerda, desviou de cabeça para um empate que acabou por surgir com naturalidade.
O facto de o tento ter surgido aos 54' poderia indicar que a Alemanha iria carregar na meia hora final; no entanto, tal não se verificou. Mesmo com Enciso e Almirón a perderem gás, o Paraguai manteve a solidez defensiva e conseguiu levar o encontro para prolongamento.
A arte de desperdiçar oportunidades
Cantos e luta nas alturas. Eis uma forma relativamente simples de explicar como surgiram os lances de perigo nos 30 minutos adicionais. Aliás, vamos até mais longe: foi assim que surgiu o segundo golo da Alemanha, que acabaria por ser anulado.

Ainda na 1.ª parte do prolongamento, Tah respondeu a um cruzamento de Brown com um cabeceamento certeiro, mas o lance foi invalidado por uma falta de Anton sobre o guarda-redes Gill.
Os minutos avançaram e os penáltis acabaram mesmo por se tornar uma realidade.
Da marca dos 11 metros, Havertz e Woltemade permitiram a defesa de Orlando Gill e o Paraguai teve assim duas oportunidades para consumar a passagem aos oitavos de final. No entanto, Sanabria e Balbuena desperdiçaram estes 'match-points' e deram uma nova chance à Alemanha de confirmar o favoritismo.
Não precisamos de dizer o que aconteceu, certo? Chamado à responsabilidade, Tah rematou muito por cima e colocou o ouro nas mãos de José María Canale. O defesa central não tremeu e fez história para o seu país, que fica agora à espera do vencedor do duelo entre França e a Suécia.
Análise dos Jogadores: Notas e Avaliação
Orlando Gill (Paraguai): há pouco a dizer quando um guarda-redes faz duas defesas num desempate por penáltis, certo? Além do jogo seguro que fez nos 120 minutos, Orlando Gill brilhou no momento decisivo e viveu uma tarde que certamente nunca esquecerá. Aos 26 anos e a jogar na Argentina, o MVP deste jogo para o zerozero pode ambicionar a outros voos.
Matías Galarza (Paraguai): parecia estar em todo o lado! Com um espírito de abnegação digno de registo, o médio foi extremamente importante no auxílio que deu em termos defensivos no lado esquerdo e ainda cobrou um penálti com extrema classe.
Deniz Undav (Alemanha): fez uma grande fase de grupos, mas eclipsou-se neste jogo dos 16 avos de final, altura em que lhe foi concedida a titularidade. Tem recursos técnicos assinaláveis, passou completamente ao lado da partida frente ao Paraguai e foi substituído com naturalidade ao intervalo.
O árbitro
Ainda que tenha conduzido o jogo com relativa tranquilidade - esteve bem do ponto de vista disciplinar -, Jalal Jayed deixou escapar a falta de Anton no lance do golo de Tah. Acabou por ser bem auxiliado pelo VAR. Sai com nota positiva do encontro.
Incidentes: O filme do jogo










