Uma história de sobrevivência. Dois corpos imunes ao apocalipse. Uma teoria do caos. Todos a têm e o Clássico dos durões também.
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O 2-2 conta-se de muitas maneiras, mas o final é sempre o mesmo. Um loop soluçante, uma selva emocional, nervos descontrolados e, sejamos justos, muito futebol.
O Sporting resistiu à expulsão de Coates e salvou um ponto no Dragão; o FC Porto suportou duas pancadas fortíssimas e teve alma e juízo para ir buscar o empate. Cabeças perdidas, um odor a anos 80 e 90, tudo aos encontrões no final.
Um mar de problemas, rajadas de raiva, atmosfera diabólica. Insistimos: um Clássico duríssimo, com um capítulo derradeiro lastimável.
Apito final, porrada no relvado, tudo e todos envolvidos. Cartões vermelhos, responsabilidades divididas, uma loucura meus senhores. Inaceitável.
Paradoxo dos paradoxos: o futebol foi bom, o jogo foi ótimo.
Paradoxo dos paradoxos: Sérgio Conceição e Ruben Amorim acabaram abraçados. Também conta qualquer coisa.

34 minutos e dois golos do Sporting na lição de Ruben
Do caos. Todos já o experimentámos. Uma festa familiar com a criançada a bater em bombos, uma tarde numa repartição pública, um atalho que nos leva a uma encruzilhada em hora de ponta. Este FC Porto-Sporting elevou-lhe a fasquia.
Cada jogada, cada jogador, era uma promessa de uma perna perdidas e de um braços solto. Uma intensidade impressionante, imposta desde o primeiro suspiro.
Quando escrevemos lábios trincados e sangue a jorrar não estamos a ser figurativos. Houve tudo isso e muito mais, um hospital de campanha e dois batalhões dispostos à morte em combate.
O argumento do Clássico ajudou-o a tornar-se visceral. O Sporting susteve a entrada de rompante do FC Porto, capitalizou erros defensivos no adversário e aos 34 minutos vencia por 2-0, golos de Paulinho (bom cabeceamento nas costas de Mbemba, com Uribe desorientado) e Nuno Santos (na melhor jogada de toda a partida).
Nessa fase primeira, o FC Porto pagou caro a falta de lucidez. Os centrais quiseram encaixar nos avançados interiores de Ruben Amorim, os laterais pretenderam apanhar os laterais leoninos e criou-se um buraco no meio, mal compensado por Uribe.
Amorim leu bem, Conceição percebeu o que o Ruben queria e não foi capaz de pará-lo.
E depois? Depois? Fábio Vieira.

Fábio Vieira a mandar: onde vai ele, vão todos
Sobrevivência. Algo de muito especial pulsa dentro deste FC Porto. Os dois socos certeiros atordoaram-no, mas não lhe roubaram o sangue.
Sérgio deixou Pepê de fora e juntou Fábio, Evanilson e Taremi, com o iraniano a fechar na esquerda. Em boa hora o fez, na perspetiva azul e branca.
O pé esquerdo de Fábio agarrou o jogo pelos colarinhos, o pé direito devolveu os dragões ao jogo. À entrada da área, rasteiro e colocado, o remate do prodígio saiu colocadíssimo para o 1-2.
Não bastasse o grito de revolta, o leão teve ainda de lidar com a expulsão de Coates. Foram mais de 40 minutos a defender como podia, a atirar a bola para longe e a jogar com o relógio. Compreensível.
Curiosamente, o FC Porto desperdiçou vários minutos em superioridade numérica a jogar devagar e para o lado. Galeno não é Díaz e entrou mal, Francisco Conceição não agitou, mas a equipa manteve a reserva de qualidade que Fábio Vieira garante sempre.
Foi ele, claro, a fugir na esquerda, a levantar o olhar e a cruzar para a cabeçada violenta de Taremi. 2-2, contas fechadas, e tanto por contar.
Uma crónica não chega para tanto. O Sporting lá se agarrou ao empate, o FC Porto veio de trás para a frente e corrigiu as hesitações estratégicas com coragem e a classe de Fábio.
Sobreviventes designados na noite de todo o caos. Uma noite carregada de interesse, particularmente para os que estudam os mistérios do comportamento humano.










