Passo a passo. Tem sido assim a carreira de Jota Silva. Umas vezes um passo para trás para em seguida dar dois em frente. Sempre com uma mentalidade forte e com o sonho bem presente, o tal sonho de muitos meninos, mas só ao alcance de uma parte deles.
O jovem natural de Gondomar cresceu no Sousense, o clube a que chama de «casa», e teve logo uma grande barreira no início da sua caminhada nos seniores. Uma lesão grave. Ainda assim, rodeou-se das pessoas certas e recuperou em tempo «recorde» e não mais parou. Distrital, Campeonato de Portugal e Segunda Liga. Aos 22 anos está a meio de um caminho ainda longo.Jota Silva é por esta altura um dos principais nomes do segundo escalão do futebol nacional, sendo o melhor marcador da segunda liga, muito por culpa de uma série (incrível!) de seis jogos sempre a faturar, mas não quer ficar por aqui. «Sei onde quero chegar». Sem falsas modéstias. Em frente!

«Consegui superar uma lesão grave em tempo recorde»
zerozero (ZZ): Como é que o futebol aparece na tua vida?
Jota Silva (JS): Esse bichinho está presente em muitos meninos desde pequenos. Tive a oportunidade de ir treinar ao Sousense e depois de entrar nunca mais quis sair. A partir daí foi percorrer esse sonho até o concretizar.
ZZ: Quando tens noção que dava para atingir o patamar profissional?
JS: Foi num momento difícil na minha carreira. Iniciei os trabalhos de pré-epoca na equipa sénior e na pré-epoca tenho lesão grave. Parti o tornozelo. Acho que foi momento chave para perceber que conseguia [lá chegar]. Consegui superar uma lesão grave em tempo recorde. Foi um trabalho muito duro, depois estreei-me na equipa principal e a partir daí estava preparado para correr atrás do sonho. Acreditava muito.
ZZ: É preciso ter uma força mental muito grande…
JS: Sim. Tens de estar rodeado das pessoas certas, que te mostrem que vais conseguir… E elas tinham razão. Não vou dizer que foi fácil. Não vou dizer que não passou um flash na minha cabeça de pensar em desistir. Mas não sou um rapaz que deixa as coisas para fazer. Vou atrás dos desafios. Felizmente recuperei e estou a fazer o que estou a fazer agora.
ZZ: Segues para o Paços de Ferreira, onde jogas Nacional de Juniores, e no ano seguinte voltas para o Sousense, aí para a Distrital. Conta-nos como foi esse processo.
JS: A ida para o Paços foi uma coisa muito, muito boa. Um clube profissional, com excelente estrutura, onde as pessoas são incríveis e fez-me evoluir muito. Tive a sorte de ir treinar uma ou duas vezes à equipa principal. Foi um ano muito importante na minha vida, cresci muito a nível humano e profissional. Depois o regresso ao Sousense, é o regresso à minha casa, onde sabia que me conseguia afirmar. Por vezes é preciso dar um passo atrás para dar dois em frente. Fiz a minha escolha. Tinha descido e consegui fazer época de afirmação para conseguir dar o salto para o Campeonato de Portugal.
ZZ: Mas como foi essa época na distrital?
JS: Jogar a distrital do Porto toda a gente sabe que é uma guerra, muito competitivo. Mas estava numa casa que conhecia e toda a gente estendeu-me a mão para continuar o meu trabalho e dar asas ao meu sonho. Encontrei adversidades que me fizeram ganhar coisas que não tinha.

«Ganhei um amor enorme pelo Espinho»
ZZ: Nessa viagem, vais do Sousense para o Espinho, no Campeonato de Portugal. Clube histórico. Como foi?
JS: A passagem por Espinho… Tenho muito orgulho do clube e cidade, ainda vou lá. Ganhei um amor enorme por aquele clube, por aquelas pessoas. São as pessoas de Espinho que levam o clube para aquilo que ele é. Depois quando te apaixonas por onde estás é muito mais fácil de render dentro de campo e estares preparado para jogar. Consegui fazer boa época, que não terminou por causa da pandemia. Consegui mudar o chip da distrital para o CP. Consegui muito pelas pessoas.
ZZ: E quando o telefone toca e do outro lado está uma proposta para uma equipa profissional?
JS: Foi emocionante. O Leixões abriu-me as portas. Clube incrível, com uma massa adepta muito boa, que, infelizmente, não consegui sentir dentro de campo. Quando toca e sabemos que o sonho de ser profissional chegou… Sem palavras. Muitos anos de trabalho, muitas barreiras, adversidades e, finalmente, consegui alcançar o meu grande objetivo.
ZZ: Começas a época em Matosinhos, mas acabas em Pina Manique. Podemos dizer que foi a tua época de adaptação à Segunda Liga?
JS: Foi uma época de adaptação, claramente. Houve muitas coisas boas. A minha vinda para o Casa Pia foi outra boa escolha que fiz e não me arrependo de nada. Foi a melhor decisão da minha carreira. Estou num clube que nos dá todas as condições para podermos trabalhar e estarmos tão bem preparados como estamos.
ZZ: Não começaram tão bem a temporada, mas foram crescendo e agora estão no terceiro lugar e tu vais numa série de seis jogos sempre a marcar. Como explicas isto?
JS: Nós temos um grupo muito forte e o clube dá condições muito boas. Mesmo quando perdemos, não duvidámos nunca da nossa ideia e qualidade daquilo que podíamos fazer. Trabalhamos sempre mais e melhor. Vamos jogo a jogo e estamos a conseguir o objetivo. Depois, o facto de estar numa boa equipa, que pratica bom futebol, excelente grupo que temos, tudo isso ajuda para os números que tenho. Não é humildade a mais. Eu sozinho não conseguia fazer nada. O segredo para o sucesso individual é mesmo o grupo, a forma como todos trabalham para o mesmo.
ZZ: Mas levas seis jornadas consecutivas a marcar – sete golos. Já sentes essa responsabilidade ou estás apenas a desfrutar deste bom momento?
JS: Eu desfruto sempre, pois estou a fazer o que mais amo. Claramente que desfruto com responsabilidade e que tenho de dar o melhor de mim nos treinos e nos jogos. O que quero é ajudar o Casa Pia e se conseguir com assistências e golos melhor. O meu objetivo é continuar a marcar, mas o principal é que o Casa Pia continue a conquistar os três pontos.

«É normal os adeptos cobrarem, mas nós somos os primeiros a cobrar…»
ZZ: A ideia do mister Filipe Martins parece-nos muito a privilegiar o futebol positivo. Como te sentes em relação a isso?
JS: Muito bom, tenho aprendido muito. O futebol é isso que se tem visto. Praticamos um bom futebol, damos tudo dentro de campo e assim estamos mais perto de vencer os jogos. A vontade com que entramos acho que é visível para todos.
ZZ: «Acho que ainda vai subir mais alguns degraus». Como lidas com estas palavras do mister?
JS: O mister sempre depositou confiança em mim, mesmo quando não sou opção. Sinto-me valorizado. Todos sentem que estão dentro do barco. Todos somos importantes. Claro que é bom ouvir isso e dá-me responsabilidade para continuar a fazer o que tenho feito. Trabalho sempre no máximo e dedico-me a 100%. A minha mentalidade é forte. Sei onde quero chegar e o que tenho de fazer para alcançar isso. Ninguém me vai tirar desse caminho.
ZZ: Neste momento estão no 3.º lugar da Liga SABSEG, mas qual é o vosso objetivo? Os adeptos já começam a cobrar mais, não?
JS: As ideias que passam são claras. Ganhar o próximo jogo e é esse jogo que temos de ganhar. Não pensamos a longo prazo. Vamos jogo a jogo e depois vamos ver. Os adeptos cobrarem é normal, mas acredita que somos os primeiros a cobrar a nós próprios. Vamos querer fazer sempre mais e mais. Queremos ajudar o Casa Pia a crescer.
ZZ: Nove golos em 15 jogos. Alguma meta definida?
JS: Continuar a marcar todas as jornadas até ao fim. As minhas ambições são grandes. Se me perguntarem se quero ser o melhor marcador, quero. Quero ir à Seleção, é um sonho que tenho e sei que vou conseguir. Sou ambicioso e vou trabalhar por isso. Não tenho um número redondo. Quero marcar todos os jogos.
ZZ: E se voltarmos a falar daqui a um ano, o que gostarias de contar?
JS: Dizer que está aqui o prémio de melhor marcador do Campeonato e que o Casa Pia alcançou os objetivos.









