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Já imaginou a perseverança e a raça que são precisas para isto: Em setembro ser esfaqueado 11 vezes, na cara no pescoço e nas costas, ser operado e em outubro estar a arrancar a época da NBA, fazendo todos os 82 jogos da fase regular? É quase impensável, mas foi isso que Paul Pierce fez na sua carreira da NBA.
Um verdadeiro guerreiro, um campeão e um ícone dos Boston Celtics. São apenas alguns dos adjetivos que personificam Paul Pierce. Com a alcunha « The truth» (a verdade) dada por Shaquille O'Neal, esta é a história de um dos mais carismáticos jogadores da era moderna da NBA.
Paul Anthony Pierce nasceu a 13 de outubro de 1977 em Oakland, no estado da Califórnia. Depois de se mudar na infância para a cidade de Inglewood, no mesmo estado, Pierce entrou no liceu e as coisas não lhe correram bem no que diz respeito ao basquetebol. Foi cortado da equipa da escola no 1º e 2º ano e chegou mesmo a pensar mudar de escola. Foi o pai quem o convenceu a não mudar e a treinar como um louco para não voltar a ser cortado.
Foi o que aconteceu e no 3º ano de secundário, o extremo conseguiu mesmo entrar na equipa. O brilho veio no último ano de liceu, o qual Pierce terminou com médias de 27 pontos, 11 ressaltos e 4 assistências. Foi no final desse ano letivo, em 1995, que participou no McDonald's All-American Game, um campo dos campos de treinos jovens mais conceituados dos EUA.
Depois disso mudou-se para a Universidade Kansas, onde passou três anos. Foi aí que refinou o seu jogo. Entre 1995 e 1998 levou a sua equipa a estar sempre presente nas decisões da NCAA e esteve quase sempre nomeado para o principais prémios individuais.

O impacto de Pierce na equipa foi imediato. Com 16,5 pontos na primeira temporada, o extremo ficou em 3º lugar na corrida para Rookie do Ano (conquistado por Vince Carter). No ano seguinte (99/00) subiu as suas médias para19,5 pontos por jogo e tornou-se uma das grandes armas ofensivas da NBA.
Foi em setembro de 2000 que tudo viria a ficar perto acabar para Paul Pierce. Não só a nível de carreira de NBA, mas também a própria vida do extremo esteve em risco. Na madrugada de 24 para 25 desse mês, Paul Pierce saiu com um grupo de amigos e com um colega de equipa para uma discoteca na zona de Boston. A meio da noite uma luta entre membros de dois grupos de rap rivais irrompeu no espaço de diversão e Paul Pierce foi apanhado no meio. O jogador do Celtics, a poucas semanas de arrancar a sua terceira temporada na liga, tentou separar dois indivíduos que estavam envolvidos na luta e, sem que nada o fizesse prever, foi agredido com uma garrafa de champanhe na cabeça. Depois disso foi esfaqueado 11 vezes, nas costas, na cara e no pescoço. Uma das facadas chegou mesmo a atingir parte de um pulmão. O extremo foi levado para o hospital pelo então jogador dos Celtics Tony Battie e pelo irmão deste. Foi operado de urgência e esteve internado durante apenas 6 dias.

Um mês depois de ter estado a lutar pela vida numa cama de hospital, Paul Pierce voltou aos pavilhões da NBA para arrancar a temporada 01/02. Contra todas as expectativas, Pierce não só jogou todos os jogos dessa época, como ainda se pode dizer que teve a sua afirmação como estrela da NBA. Passou de 19,5 pontos, para 25,3 pontos por jogo, 6 ressaltos e ainda 1,6 roubos. Mais tarde, o extremo viria a afirmar que temeu pela vida e que a segunda oportunidade que lhe foi dada serviu de inspiração para a temporada que fez em seguida.
A afirmação de Pierce na NBA e nos Celtics continuou nos anos seguintes. Em 01/02 teve novamente uma evolução e chegou mesmo pela primeira vez ao playoff, algo que os Celtics não faziam há sete temporadas. Essa época não só viu os Celtics chegar aos playoff pela primeira em sete anos (eliminados na final de conferência pelos Nets), como ainda viu Pierce chegar pela primeira vez ao jogo all-star. Para além disso, Paul Pierce passou a ser conhecido como «The Truth». A alcunha veio após um jogo memorável do extremo contra os Lakers, 13 de março de 2002. Pierce terminou o jogo com 42 pontos, falhando apenas seis lançamentos de campo. No final Shaquille O'Neal, o poste dos Lakers, foi ter com um jornalista de um dos maiores jornais de Boston e disse-lhe: «My name is Shaquille O'Neal and Paul Pierce is the motherfucking truth (o meu nome é Shaquille O'Neal e o Paul Pierce é a p… da verdade)».
Entre 2002 e 2007 Pierce levou a sua equipa aos playoff quatro vezes, mas, apesar de se tornar uma estrela e um dos melhores marcadores da competição, estava longe de ser visto como um verdadeiro candidato a ser campeão. Aliás, nas épocas 05/06 e 06/07, os Celtics não conseguiram atingir os playoff, tendo mesmo dos piores registos de vitórias da Liga. Tudo isso viria a mudar em apenas um verão.

Foram 66 vitórias na fase regular e tudo parecia que iria ser fácil para o big-3 de Boston. Paul Pierce era o capitão da equipa e terminou a temporada 07/08 com 19,6 pontos por jogo, a primeira vez que ficou abaixo dos 20 pontos desde 00/01, algo que se percebeu devido ao facto de estar a jogar com mais duas estrelas. Os playoff até começaram tremidos. Obrigados a jogo 7 na primeira e na segunda ronda (perante os Hawks e os Cavaliers, de Lebron James), os Celtics confiaram em Pierce, que chegou mesmo a fazer 41 pontos no jogo decisivo da 2ª ronda. Na final de conferência uma vitória confortável contra os Pistons colocou Boston na final da NBA, a primeira desde 1987. O rival era, nada mais nada menos, que os LA Lakers, a equipa favorita de Paul Pierce em criança e o grande «inimigo» histórico dos Celtics.
Os Lakers tinham Kobe, Pau Gasol e Lamar Odom, mas tinham perdido a meio da temporada o poste Andrew Bynum por lesão. A vitória sorriu aos Celtics, que venceram por claros 4 – 2. Paul Pierce foi eleito o MVP das finais, terminando 21,8 pontos, 6,3 assistências e 4,5 ressaltos por jogo.


Essas finais de 2010 foram mesmo uma das mais marcantes da história da NBA. Não só são as duas equipas com mais títulos, como tinham estrelas históricas como Kobe, Gasol, Garnett, Ray Allen e o próprio Paul Pierce. Os Celtics chegaram a estar a vencer por 3 – 2, mas nos dois últimos jogos, em Los Angeles, os Lakers e Kobe foram mais fortes vencendo em sete jogos. Pierce terminou a sua última presença nas finais da NBA com 18 pontos de média, a melhor marca da equipa.
Após a derrota com os Lakers, os Celtics viram nascer um novo adversário na conferência Este. Em Miami formava-se o big-3 composto por Wade, Lebron e Bosh e essa equipa viria a eliminar os Celtics nas duas temporadas seguintes. Primeiro na 2ª ronda e, em 11/12, nas finais de conferência, em sete jogos e numa das melhores séries de sempre da história dos playoff. Já com 36 anos, Pierce esteve apenas mais uma temporada em Boston. Em 12/13, já com uma equipa bastante veterana, os Celtics foram eliminados na 1ª ronda pelos Knicks.
O verão de 2013 trouxe uma das trocas mais míticas de sempre. Os Nets trocaram o presente e o futuro para garantir Paul Pierce, de 36 anos, Kevin Garnett, de 37 anos, e ainda Jason Terry, de 36 anos, na esperança de serem campeões na época 13/14. Juntamente com Brook Lopez, com Joe Johnson e com o base Deron Williams, a equipa, então de New Jersey, estava pronta para ser vista como uma verdadeira candidata. Apesar de as coisas nunca terem corrido de forma perfeita, os Nets chegaram os playoff, mas perderam na 2ª ronda perante os Miami Heat. Pierce admitiu que não se sentia bem nos Nets e que não gostava de jogar com o base Deron Williams, saindo no verão para se juntar aos Washington Wizards.

Esteve apenas um ano na capital dos EUA, ajudando a equipa a chegar à 2ª ronda dos playoff, sendo eliminada pelos Hawks, numa série em Pierce venceu com um lançamento na buzina o jogo 2 e, no jogo 6, converteu um triplo que colocaria o jogo em prolongamento. Apesar disso, os árbitros foram rever o lance e chegaram à conclusão que o lançamento surgiu já depois do apito final e os Wizards eram mesmo eliminados da série.
Assinou no verão pelos LA Clippers, convencido pelo treinador Doc Rivers, com quem tinha sido campeão em Boston. Esteve os últimos dois anos d carreira em Los Angeles, num papel de jogador a sair do banco e mentor para os mais jovens. O último jogo veio a 30 de abril de 2017, nos playoff. Jogou na derrota e na eliminação dos Clippers perante os Utah Jazz, marcando seis pontos. No final da época seria dispensado dos Clippers para assinar um contrato de um dia com os Boston Celtics, retirando-se assim oficialmente na equipa onde passou 15 temporadas e com a qual foi campeão.

Tem uma história de superação e de raça que inspirou milhões de jovens e, como dizia Shaq, Paul Pierce é a verdade!