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África será o mais estereotipado dos continentes. Quando se pensa em futebol no continente negro uma imagem comum será pensar num descampado, duas balizas formadas com pedras e paus enterrados no terreno, um bando de miúdos descalços a correrem atrás da bola de trapos.
Esta imagem poderá soar a cliché, mas a extrema pobreza e a desigualdade atroz é a realidade que a esmagadora maioria dos africanos encontra todos os dias.
O futebol é um escape, uma diversão, uma paixão do continente. À falta de meios ou equipamentos responde-se com dedicação e improvisação. Em África não será a falta de uma baliza ou de umas chuteiras que impedem um jogo.
Esta é a história do jogo em África desde a primeira hora. Complexa, violenta, o que faltava em dinheiro, tática, organização sobrava em racismo, encanto ou magia. O futebol africano é mais que um jogo e é assim desde a primeira hora em que os europeus o introduziram no continente.
Um continente partilhado
Na viragem do século XIX para o XX, África estava retalhada pelas grandes potências europeias da altura como a Inglaterra e a França e, em menor escala, a Alemanha e a Itália. Portugal e a Espanha, se bem que decadentes, mantinham o resto da anterior grandeza dos seus impérios e o próprio Rei Leopoldo da Bélgica tinha um domínio próprio, o Congo, que mais tarde legaria aos belgas.
Ao olharmos para o mapa africano de então percebemos que só a Etiópia e a Libéria não estavam na mão do homem branco. E como tantas outras importações e inovações que chegavam a África, o futebol foi introduzido pelos europeus.
O futebol começou a ser lentamente a ser jogado por todo o lado. Primeiro os marinheiros e soldados dos exércitos coloniais, depois gente ligada à administração colonial como os engenheiros e professores, depois os comerciantes e os colonos que chegavam, inclusive os missionários que cedo descobriram no jogo uma forma de se aproximar dos jovens e assim mais facilmente os converter.
As escolas, fossem estatais ou religiosas, funcionaram verdadeiramente como missionárias do jogo. A Nigéria receberia o futebol através do porto de Calabar, pela mãos de presbiterianos da Jamaica, que além da palavra do Senhor trouxeram consigo uma bola de futebol.
Seria o Reverendo James Luke, diretor da Hope Waddell Training Institute que trouxe a bola que começaria o amor entre os nigerianos e o «beautiful game». A 15 de junho de 1904 os alunos descalços da escola defrontaram os tripulantes do Cruzador HMS Thistle venceram por 3x2.
O futebol começou a ganhar terreno nos domínios de Sua Majestade. África de Sul, Gana, Zanzibar e, mais tarde, o Egito. O jogo do povo enfrentava a concorrência dos jogos de cavalheiros como o críquete, o râguebi ou o ténis, cativando os indígenas, que preferiram desde a primeira a hora a bola redonda à oval.
África do Sul: um jogo para brancos outro para negros
Pela considerável população branca que tinha na segunda metade de oitocentos e pela sua importância no contexto imperial britânico, a África do Sul tornou-se naturalmente o primeiro foco de desenvolvimento do futebol no continente.

Em 1897, o famoso clube inglês Corinthian visita a África do Sul e no ano seguinte é a vez de uma equipa do Estado Livre do Transval visitar o Reino Unido. Meses depois é a vez da primeira equipa de uma equipa composta por negros jogar na Escócia, Irlanda, País de Gales e Inglaterra, o futebol sul-africano crescia, separando desde a primeira hora brancos, negros e indianos.
Divisões sociais
Por toda a África Britânica, o futebol vai se desenvolvendo. Nas colónias com mais autonomia e como tal com menos administradores e colonos o futebol destaca-se, enquanto em colónias com considerável número de colonos são os chamados "Gentlemen's sports" como o râguebi e o críquete que além da África do Sul ganham força no atual Uganda, na Rodésia, na África Oriental Britânica (Quénia). Por sua vez nas colónias da África Ocidental (Gana, Nigéria, Serra Leoa...), do Norte de África e do Corno de África, é o futebol que se impõe.
O domínio económico e político do homem branco fazia sentir-se por todo o continente. Os europeus controlavam tudo e eram donos de tudo. Mesmo os clubes inteiramente formados por jogadores locais usavam instalações desportivas alugadas ou emprestadas por proprietários brancos. Em alguns casos as equipas locais tinham inclusive que pedir a bola emprestada a um branco para disputarem os seus jogos. Zanzibar a comissão de desportos local obrigava a que todos os árbitros fossem brancos.
No Egito, o futebol tornou-se rapidamente numa paixão nacional com os locais a tornarem o jogo seu pouco depois de os ingleses aí terem chegado e fundado o primeiro clube, em 1903. Quatro anos volvidos nascia o Al-Ahly, o primeiro clube 100% egípcio e que desde a primeira hora assumiu-se como nacionalista, desafiando o domínio colonial britânico.
Seria no Cairo a nascer a primeira federação de futebol independente (1921) e que em 1923 já estava filiada na FIFA, três anos depois de já ter competido no torneio olímpico de futebol. Em 1934, os egípcios marcariam presença no mundial de Itália.
O caso francês
Se a segregação racial nos domínios britânicos impediu que durante décadas os jogadores negros jogassem com brancos ou tentassem a sorte na própria Inglaterra, já no caso francês desde os anos 30 que jogadores provenientes das colónias jogavam em clubes da metrópole.

