
A 11 de Setembro de 1945, quatro meses depois do fim da II Guerra Mundial, Munique era uma cidade arrasada. A cidade bávara, berço do movimento nacional-socialista, não tinha sido poupada pela aviação aliada. Foi numa cidade em ruínas que nasceu, no seio de uma família operária, Franz Anton Beckenbauer.
Desde cedo, e apesar da oposição paterna, Beckenbauer apaixonou-se pelo futebol e pelo TSV 1860 München, que era então maior clube da cidade.
Fã do avançado Fritz Walter, o herói que tinha conduzido a Alemanha Ocidental ao título de Campeã do Mundo em 1954 na Suíça, o pequeno Franz começou a jogar com seis anos nas escolas do SC Munchën 06, na posição de avançado, tal e qual o seu ídolo.
Em 1959 entrou nas escolas do Bayern Munique onde começou a jogar mais recuado no terreno, acabando por ganhar notoriedade na posição de líbero.
Cinco anos depois, em 1964, Beckenbauer começou a jogar na equipa principal do Bayern. O clube apenas tinha ganho um campeonato em 1932 e uma Taça em 1957 em todo seu historial. Poucos suspeitavam o que significaria para a história do clube e do próprio futebol alemão a entrada deste jovem jogador no plantel do Bayern.

Para finalmente em 1968–69 o Bayern conquistou o tão almejado título de Campeão da Bundesliga. Em apenas quatro anos os alemães passavam dos regionais da Baviera ao topo do futebol nacional.
Com uma equipa maioritariamente composta por jovens jogadores locais, tinha nascido uma nova força no futebol alemão, em breve todo o mundo saberia pronunciar corretamente os nomes de Sepp Maier, Gerd Müller ou Franz Beckenbauer.
Quatro anos depois no mundial do México o Kaiser já capitaneava a mannschaft. A República Federal Alemã começou o torneio com três vitórias em outros tantos jogos garantindo a passagem aos quartos de final onde teve de defrontar os ingleses. Aos 49minutos os britânicos já venciam por 2-0, mas um golo espetacular de Beckenbauer aos 69 minutos iniciou a recuperação germânica que seria completada com um 2-3 após prolongamento.
Vingada a final de 66 e eliminados os campeões do mundo, os alemães seguiram em frente para enfrentar a Itália na meia-final, no que viria a ser considerado o «jogo do século».
A Itália adiantou-se cedo no marcador e a R.F.A. só conseguiu empatar ao cair do pano, levando assim a partida para o prolongamento.
Beckenbauer que partiu a clavícula quando a sua equipa já tinha esgotado as substituições, jogou de braço ao peito quase todo o período extra.

A segunda parte começa e logo aos 5 minutos Müller empatou a 3-3, a bola foi ao meio-campo e Rivera fez o 4-3.
Os alemães já não tiveram mais forças para voltar a virar o jogo e a Itália seguiu para a final, onde pagou bem caro frente ao Brasil o cansaço acumulado no jogo da meia-final.
Depois do mundial de 1970 o Bayern lançou-se no período mais glorioso da sua história. Vencedores da Taça em 1971, conquistam o tricampeonato alemão entre 1972 e 1974.
Na Europa, em 1974 o Bayern deixa pelo caminho Åtvidaberg da Suécia (após prolongamento), os alemães orientais do Dynamo Dresden, o CSKA da Bulgária e os húngaros do Újpesti Dózsa, para chegar à grande final em Bruxelas contra o Atlético de Madrid.
O nulo arrastou-se até ao prolongamento até que Aragonés marcou a seis minutos do fim.
Num último assomo de desespero, os alemães empataram a segundos do final por intermédio de Schwarzenbeck e forçaram os madrilenos a segundo jogo
Dois dias depois os espanhóis entraram em campo já derrotados e o Bayern arrasou, com um claro 4-0 conquistando o seu primeiro título europeu
Ainda em 1974, o Kaiser capitaneou os alemães no Campeonato do Mundo realizado na Alemanha Federal. As expectativas eram altas. Às boas prestações em 1966 e 1970, juntara-se o título europeu em 1972, e ninguém esquecia que a competição tinha lugar pela primeira vez na Alemanha
A mannschaft foi progredindo na competição sem brilhar, enquanto a Holanda de Cruijff encantava o mundo

Sem dar tempo para os alemães assentarem jogo, os holandeses ganham uma grande penalidade logo no primeiro minuto e tomaram a dianteira.
Tal como em 1954 contra a Hungria, a R.F.A. teve de dar a volta ao marcador e bater os grandes favoritos.
Na sua cidade natal de Munique, perante os olhos do mundo, Beckenbauer juntava a taça de Campeão do Mundo às de Campeão Europeu de seleções e de clubes.
Nos dois anos seguintes o Bayern completaria o tricampeonato europeu batendo o Leeds United na final de 1975 e o Saint-Etiénne na de 1976.
Depois o kaiser experimentou o futebol no estrangeiro e ingressou nos New York Cosmos, onde jogou ao lado de Pelé. Ainda voltou à Alemanha para jogar no Hamburger SV entrew 1980 e 1982, mas a idade e as lesões só o deixaram participar em 28 partidas.
Depois de um breve regresso a Nova Iorque em 1983, Beckenbauer abandonou a carreira de jogador.
No ano seguinte, após o fracasso da Alemanha Federal no Euro 84, Beckenbauer assumiu o comando da seleção nacional, para guiar os alemães até à final, onde perderam 2-3 com a Argentina de Maradona.
No Euro 88 disputado na R.F.A., caíram nas meias-finais e o lugar de Beckenbauer esteve em perigo.
Mas a Federação resolveu dar-lhe uma nova oportunidade de levar a R.F.A. ao sucesso no mundial de Itália em 1990.
Numa equipa onde pontificavam nomes como Klinsmann, Riedle, Brehme e Völler, era Matthäus o nome que se destacava.
Beckenbauer armou a equipa à volta do seu «10» e tirando um empate com a Colômbia na fase de grupos, quando já estavam qualificados, os alemães demonstraram uma força invejável, vencendo e demonstrando ser os grandes favoritos à vitória final.

Beckenbauer conseguia o feito de se sagrar Campeão tanto como jogador e treinador principal, ganhando um lugar de relevo na história do Campeonato do Mundo.
Depois do sucesso mundial, Beckenbauer foi treinar o Marseille, sem grande sucesso. Teria mais sorte no seu regresso a Munique vencendo a Bundesliga e a Taça UEFA com o seu Bayern.
Em 1996 abandonou a carreira de treinador, para depois tornar-se presidente do Bayern.
Ainda foi o principal responsável pela organização do Campeonato do Mundo de 2006 na Alemanha. Desde essa altura dedicou-se em exclusivo ao Bayern e aos comentários desportivos tanto na imprensa escrita como na televisão alemã. Acabou por falecer, aos 78 anos, a oito de janeiro de 2024.