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    Allen Iverson: «The Answer»

    Texto por Igor Gonçalves
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    Allen Iverson não é o melhor jogador da história da NBA. Não é sequer o melhor jogador da sua geração, nem da sua posição. Ainda assim, o impacto de Iverson na NBA é tão importante como o de nomes como Michael Jordan, Larry Bird ou Magic Jonhson. Porquê? Porque este base mudou a cultura do basquetebol. 

    Se hoje temos a NBA como parte da cultura norte-americana, se hoje temos jogadores que são ícones de moda ou figuras ligadas ao Rap ou Hip-hop, a Allen Iverson se deve. Com a alcunha «The Answer» (A Resposta), o impacto deste atleta foi tão grande que a própria Liga foi obrigada a criar um código de vestimento e conduta para os jogadores.                 

    A vida de Allen Iverson está muito ligada às questões raciais dos EUA e já vamos explicar porquê. Allen Ezail Iverson nasceu a 7 de junho de 1975 em Hampton, Virginia. Ora, o estado da Virginia é ainda hoje um dos mais atrasados nas questões de igualdade racial nos EUA. Isso ainda era pior nos anos 70 e 80, na altura em que Iverson cresceu. 

    Para além dessas questões, o jovem vivia na parte pobre da cidade, com uma mãe solteira que o teve aos 15 anos e, mais tarde, com um padrasto que era traficante de droga e que viria a ser preso durante a infância de Iverson. Apenas quando a mãe conseguiu mudar de zona de residência é que o futuro jogador viria a encontrar estabilidade.

    Foi no liceu de Bethel que a carreira de desportista de Iverson começou a nascer. Curiosamente, até parecia inclinar-se mais para o futebol americano, mas também mostrava talento no basquetebol. Mostrava tanto talento no desporto que foi eleito como o melhor basquetebolista e o melhor jogador de futebol americano no desporto secundário no mesmo ano.

    O incidente que o levou à prisão e quase lhe retirava a carreira

     

    Tudo parecia correr bem a Iverson. Era um prodígio jovem no desporto e, certamente, iria ter várias universidades interessadas no seu recrutamento. Infelizmente, tudo mudou no dia 14 de fevereiro de 1993. Nessa noite, o jovem atleta e um grupo de amigos decidiram sair à noite e foram para um pavilhão de bowling. Durante a noite, iniciou-se um violento confronto entre o grupo de amigos de Iverson, todos negros, e um grupo de jovens que estava presente no mesmo espaço, todos eles brancos. 

    A questão racial não foi mencionada ao acaso no paragrafo anterior. É que foram detidas quatro pessoas nesses confrontos, todas elas negras, sendo que um dos detidos foi Allen Iverson. O Ministério Público acusou o atleta e os seus amigos de linchamento em multidão, um crime muito pouco usual nos EUA. Para além disso, esperaram oito meses para poderem julgar Allen Iverson como um adulto, já que este tinha 17 anos na altura do incidente. 

    Apesar da condenação, brilhou como jovem atleta @Getty /
    De forma estranha, Iverson foi condenado a 15 anos de prisão, sendo que 10 deles estavam suspensos. Só quando saíram vídeos que mostravam o jovem a sair do pavilhão durante as agressões é que se começou a criar um movimento para libertar o jogador. Ainda assim, só ao final de oito meses num instituto de correção é que o governador do estado da Vírginia concedeu clemência a Iverson. Mais tarde, viria a ficar provado que os detetives mentiram durante o julgamento e que o mesmo julgamento teria sido anulado por uma gritante falta de provas de que tivessem sido os amigos de Iverson a começar qualquer tipo de agressões. Perto da sua morte, o juiz que condenou os quatro jovens negros admitiu que a sentença e o julgamento foram movidos por questões raciais e que quiseram fazer de Allen Iverson um exemplo.   

    Ultrapassado o problema judicial, Iverson terminou o liceu e foi recrutado pela prestigiada universidade de Georgetown. Esteve dois anos na instituição, conseguindo sempre levar a sua equipa aos jogos decisivos da NCAA. Não foi grande surpresa quando, no final do segundo ano, decidiu saltar de imediato parta a NBA. 

    Entrada na NBA e o impacto imediato

     

    Entrou no draft de 1996 como a 1ª escolha e foi jogar para os Philadelphia 76ers. Fez de imediato história. É que Allen Iverson foi a 1ª escolha de um draft mais baixa de sempre em altura, estando listado como tendo 1,83m. 

    Mal entrou na NBA, percebeu-se que o base estava ali para marcar pontos. Começou logo com 30 na estreia. No ano de rookie bateu um recorde que pertencia a Wilt Chamberlain, fazendo mais de 40 pontos em cinco jogos seguidos. Não foi grande surpresa quando, no final da temporada, mesmo tendo falhado os playoff, Allen Iverson recebeu o prémio de rookie do ano.

    Primeiro duelo com Jordan foi marcante @Getty /
    Vamos dedicar apenas mais um paragrafo ao ano de rookie de Iverson, para recordar um momento que ainda hoje é visto em quase todos os clips de melhores momentos da história da NBA. Foi no primeiro jogo entre o base e Michael Jordan, na altura nos Chicago Bulls. Iverson marcou 37 pontos numa derrota, mas teve um momento que marcou a sua carreira: o pequeno base conseguiu fazer um crossover a Jordan, deixando-o pregado ao chão a ver um lançamento convertido. O crossover viria mesmo a ser uma imagem de marca.

    Allen Iverson e os 76ers continuaram a crescer juntos, tendo mesmo conseguido chegar aos playoff nas terceira e quarta temporadas do jogador na Liga. Ainda assim, problemas entre o jogador e o treinador Larry Brown levaram os 76ers a querer trocar o base. Apenas quando este assumiu publicamente que não queria ser trocado, pedindo desculpas por algumas atitudes, se viu o melhor de «The Answer». 

    MVP, finalista e o novo estilo que assustou a NBA

     

    Esse pico veio na temporada 00/01. Iverson foi verdadeiramente impressionante. Com médias de 31,1 pontos e 2,5 roubos, o base foi MVP e melhor marcador da época, conduzindo um modesto plantel às finais da NBA. Aí teve talvez o seu jogo mais famoso. Perante os super favoritos e campeões em título Lakers, de Kobe e Shaq, o base levou a equipa a vencer o jogo 1, na casa do adversário, naquela que foi a única derrota dos Lakers durante todos os playoff daquele ano. Nessa partida, para além do mítico lançamento sobre Tyronn Lue (passando depois por cima das pernas deste quando o fez cair), Iverson fez 48 pontos. Apesar do seu brilhantismo, a sua equipa perdeu por 4x1. 

    Iverson e o estilo irreverente @Getty /
    Foi também no início do milénio que se começou a assistir a uma mudança no estilo de Allen Iverson. A roupa larga, as tranças, as tatuagens e a ligação ao Rap trouxeram fama ao jogador fora dos pavilhões e vários outros jogadores o seguiram. Jogar com uma longa manga no braço direito, por exemplo, foi outro estilo trazido para a Liga por Iverson e que depois viria a ser adoptado por jogadores como Kobe Bryant, ou Carmelo Anthony. A moda da roupa alastrou-se de tal forma que a NBA foi «obrigada» a criar o código de vestir dos jogadores e treinadores. Todos eram obrigados a aparecer em público com fatos. Ainda hoje existe a regra, ainda que já seja pouco aplicada. Será para sempre associada ao estilo trazido à Liga por Allen Iverson. 

    Altos e baixos

     

    Voltando aos pavilhões, Iverson viveu, depois da sua época de MVP, um verdadeiro carrossel na sua carreira. Aos jogos absolutamente maravilhosos, seguiam-se problemas disciplinares. Chegou a faltar a treinos da equipa, uma situação que promoveu até uma das conferências de imprensa mais estranhas da história do desporto, com o base a insurgir-se contra as perguntas sobre o facto de ter faltado a um treino, tendo dito a palavra «treino» (practice, em inglês) 22 vezes. 

    Teve uma relação de amor ódio com Larry Brown @Getty /

    Entre 2001 e 2006, os 76ers e o jogador viveram um misto de sucessos e insucessos. Iverson queixava-se que a direção não conseguia dar jogadores de qualidade para o apoiarem e a direção queixava-se da atitude e falta de liderança do jogador. A exceção aconteceu na época 05/06, uma das melhores da carreira do base. Acedendo ao pedido de Iverson, os 76ers contrataram Maurice Cheeks para treinador e o jogador, motivado, terminou a época com 33 pontos de média, a melhor marca da carreira. Apesar disso, os 76ers falharam os playoff. 

    A época seguinte, 06/07, traria a saída do jogador dos 76ers. No início de dezembro de 2006, ainda numa fase inicial da temporada, Iverson era trocado para os Nuggets, terminado assim uma estadia de dez anos em Philadelphia, uma cidade que idolatrava o base. 

    Jogou em Denver, Detroit e Memphis @Getty /
    Em Denver teve uma primeira temporada de sucesso, ao lado de Carmelo Anthony, mas começou a evidenciar o seu declínio. Apesar de manter médias acima de 26 pontos nas duas temporadas que passou nos Nuggets e de ter chegado sempre aos playoff, a sua falta de eficiência, fraco jogo defensivo e alguma incapacidade em se adoptar a um estilo de jogo que dava mais primazia a Carmelo Anthony, levaram a direção a trocar o jogador para os Detroit Pistons. 

    Início do fim

     

    Em Detroit, os problemas foram muitos e Iverson acabaria por fazer apenas 53 jogos com a equipa. Em abril, foi anunciado que o base não jogaria mais na temporada, com a razão oficial a ser um problema físico. Ainda assim, mais tarde viria a saber-se que a decisão se deveu ao facto de o jogador não aceitar um papel de jogador de banco. 

    Saiu dos Pistons no final da temporada e assinou com os Memphis Grizzles, em 09/10. Voltou a não aceitar o papel de suplente e fez apenas três jogos. Viria a ser dispensado e, mais tarde, acabaria por regressar a Philadelphia para terminar a temporada. Na sua última experiência na Liga, fez 25 jogos, antes de, em fevereiro, se afastar da equipa devido a graves problemas de saúde que a sua filha de 4 anos atravessava. O seu último jogo na NBA foi a 20 de fevereiro, contra os Chicago Bulls. 

    Antes de se retirar, ainda assinou e jogou na Europa, ao serviço do Besiktas. Mas foi uma curta estadia. Em outubro de 2013, e depois de não receber qualquer abordagem de nenhuma equipa da NBA, Iverson anunciou a sua retirada da Liga. 

    Tem o seu número 3 retirado em Philadelphia e é um dos jogadores que mais camisolas vendeu (ainda vende) na história da NBA. O seu estilo guerreiro e até meio louco de jogar encantou multidões e o seu estilo e postura cativaram ainda mais. Iverson chegou a ser maior do que a NBA, mas no fim acabou por se retirar como um daqueles casos em que pensamos «o que poderias ter feito se tivesses sido mais disciplinado?». Ainda assim, 24368 pontos e quatro títulos de melhor marcador mostram bem o talento que este pequeno base tinha para marcar pontos. 

    É um ídolo em Philadelphia @Getty /

    Terminamos com uma declaração de Shaquille O’Neal que mostra bem o espírito com que Allen Iverson esteve na NBA. «A minha estratégia com jogadores pequenos sempre foi bater-lhes na primeira vez que eles atacavam o cesto. Isso deixava-os intimidados para o resto do jogo e eles acabavam por deixar de atacar o cesto. O único que nunca parava de atacar era o Allen Iverson. Por mais que lhe acertasse, ele nunca desistia…era um guerreiro».

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